{"id":94728,"date":"2021-07-12T14:25:40","date_gmt":"2021-07-12T14:25:40","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/?p=94728"},"modified":"2025-09-27T21:43:03","modified_gmt":"2025-09-27T21:43:03","slug":"historia-da-porca-que-furou-o-pico-chegou-ao-brasil-no-sec-xix","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodalagoa.pt\/fr\/historia-da-porca-que-furou-o-pico-chegou-ao-brasil-no-sec-xix\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria da Porca que furou o Pico chegou ao Brasil no s\u00e9c. XIX"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/RoberTo-MedeirOs-_DR.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-83287\" width=\"407\" height=\"407\"\/><figcaption><strong>Roberto Medeiros<\/strong><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">\u201c(\u2026) \u201cpatr\u00e3o\u201d Ign\u00e1cio de regresso ao Brasil, contou a in\u00e9dita hist\u00f3ria de uma porca que tinha furado o Pico, em \u00c1gua de Pau, enquanto l\u00e1 estivera no gozo das festas da Senhora dos Anjos\u2026\u201d<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Familia-de-Ignacio-Jose-de-Medeiros-emigrou-de-Agua-de-Pau-para-o-Rio-de-Janeiro-RM.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-94729\"\/><figcaption><sup><strong>A fam\u00edlia de Ign\u00e1cio Jos\u00e9 de Medeiros emigrou de \u00c1gua de Pau para o Rio de Janeiro, Brasil, na d\u00e9cada de 1880<\/strong><span class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\"> \u00a9\u00a0D.R.<\/span><\/sup><\/figcaption><\/figure>\n\n\n<p>Corriam os dias, nos sub\u00farbios do Rio de Janeiro, e naquela manh\u00e3 de segunda-feira, do m\u00eas de maio de 1897, o Jos\u00e9 Pereira e o Em\u00edlio Silva, entravam com o p\u00e9 direito no port\u00e3o lateral do \u201cArmaz\u00e9m de Ign\u00e1cio Jos\u00e9 de Medeiros\u201d, mercador, recetor e venda de caf\u00e9, a\u00e7\u00facar, e muitos produtos para mercearias. O Pereira e o Silva tinham tido a sorte de encontrar trabalho, assim que chegaram dos A\u00e7ores \u00e0 cata da sua ventura no Brasil.<br \/><br \/>Eram netos de crist\u00e3os-novos, descendentes de judeus convertidos \u00e0 for\u00e7a, j\u00e1 se sabe, que, nem por isso padeceram em S. Miguel, as persegui\u00e7\u00f5es que outros em terras de Portugal continental sofreram, com a Inquisi\u00e7\u00e3o. Foram os seus av\u00f3s encontrar a paz desejada das suas vidas, quando sa\u00edram do Minho engrossando as levas de colonos para os A\u00e7ores.<br \/><br \/>N\u00e3o foi por isso que emigraram da ilha de S. Miguel para o Brasil, mas pela ambi\u00e7\u00e3o de melhores dias de vida e pelas hist\u00f3rias que ouviam contar os mais velhos na sua vila de \u00c1gua de Pau, nos ser\u00f5es das desfolhadas de milho, na casa da eira-alta da \u201cterra-de-reis\u201d, na coroa da rua do Boqueir\u00e3o, de onde eram vizinhos.<br \/><br \/>E, tiveram sorte em encontrar quem lhes desse trabalho e cama para dormir, porque ainda no barco que os levara de Lisboa ao Rio de Janeiro, viajara com eles Ign\u00e1cio Jos\u00e9 de Medeiros, o futuro patr\u00e3o, que quinze anos antes, se aventurara primeiro, em sair de \u00c1gua de Pau em busca de melhores oportunidades no Brasil.<br \/><br \/>Medeiros, estava regressando ao pa\u00eds que o acolhera como imigrante, viera pela terceira vez do Brasil aos A\u00e7ores como patrono assumido do disp\u00eandio com a realiza\u00e7\u00e3o das Festas de Nossa Senhora dos Anjos, na sua vila de \u00c1gua de Pau, cujo dia maior era e ainda \u00e9 o dia 15 de agosto, dia da Assun\u00e7\u00e3o de Maria e feriado nacional em Portugal. <br \/><br \/>Os av\u00f3s de Ign\u00e1cio de Medeiros, foram donos da \u201ccasa-grande\u201d, sua por heran\u00e7a, situada em frente \u00e0 ermida do convento da Caloura. Portanto, ele viveu ali e sua fam\u00edlia antes de emigrar, e ficou ali enquanto regressou a \u00c1gua de Pau.<br \/><br \/>Na primeira vez que regressara \u00e0 ilha a mulher, Luzia da Concei\u00e7\u00e3o, o acompanhara, mas nunca mais nas seguintes. Apreciara as primeiras vezes que o marido viera em promessa assumir as festas da sua Senhora dos Anjos, mas depois achou que devia o marido deixar aquela tarefa para os que l\u00e1 viviam.<br \/><br \/>Nos ser\u00f5es de fam\u00edlia em que eu, crian\u00e7a e ainda muito jovem, sentei-me com meus pais, segundo ouvi dos primos \u201cVieira\u201d da Pra\u00e7a [emigrantes regressantes do Brasil], \u00e0 volta da mesa do quarto de jantar e de ser\u00e3o, que a mulher de Ign\u00e1cio Medeiros cansada de o ver todos os anos a atravessar o Atl\u00e2ntico, n\u00e3o o convencendo a dar por realizada a sua promessa, dizia-lhe sem intencionalidade &#8220;e&#8230;n\u00e3o vai p&#8217;r\u00f3 fundo esse barco!&#8221;. At\u00e9 que um dia se consumiu o &#8220;aleive&#8221;. A fam\u00edlia nunca regressou \u00e0 ilha nem a \u00c1gua de Pau e a Casa Grande s\u00f3 foi vendida cerca de oitenta anos depois [em 1978] e dividido o valor da venda pelos primos e sobrinhos herdeiros em \u00c1gua de Pau. Meu pai foi um dos herdeiros e seus irm\u00e3os. Foi seu procurador, seu sobrinho Ant\u00f3nio In\u00e1cio &#8220;cabe\u00e7a-de-malho&#8221;, que era solteiro e faleceu na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Filhos-herdeiros-de-Ignacio-J.-Medeiros-no-Brasil-RM.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-94730\"\/><figcaption><sup><strong>No Armaz\u00e9m dos filhos herdeiros do pauense Ign\u00e1cio J. Medeiros, no Brasil, festejando o dia de Festa de N\u00aa S\u00aa dos Anjos<\/strong><span class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\"> \u00a9\u00a0D.R.<\/span><\/sup><\/figcaption><\/figure>\n\n\n<p>Regressemos ent\u00e3o aquela manh\u00e3 de segunda-feira, do m\u00eas de maio de 1897, quando o Jos\u00e9 Pereira e o Em\u00edlio da Silva, entraram pelo port\u00e3o lateral do \u201cArmaz\u00e9m de Ign\u00e1cio Jos\u00e9 de Medeiros\u201d. Queriam saber not\u00edcias de como tinham decorrido as Festas de N\u00aa S\u00aa dos Anjos na sua vila de \u00c1gua de Pau, de onde regressara, naquele fim-de-semana, numa das suas viagens \u00e0 terra natal, o seu patr\u00e3o e conterr\u00e2neo Ign\u00e1cio Medeiros.<br \/><br \/>Foi ent\u00e3o que \u201cpatr\u00e3o\u201d Ign\u00e1cio contou-lhes a in\u00e9dita hist\u00f3ria de uma \u201cPorca que tinha furado o Pico\u201d em \u00c1gua de Pau, durante o per\u00edodo em que decorriam as Festas de Nossa Senhora dos Anjos. E, continuou&#8230;<br \/><br \/>\u201cVive na Boavista, [rua do Pico], um casal com um filho franzino. S\u00e3o gente de poucas posses. No quintal, tinham uma linda e mansa porca de cria\u00e7\u00e3o, \u00e0 espera da boa hora para ter os seus &#8220;marr\u00e3ozinhos&#8221;. Com a sua venda, conseguiriam um dinheirinho que muito ajudaria na economia da fam\u00edlia.<br \/><br \/>No dia 14 de agosto, andava a fam\u00edlia a passear no arraial da festa da \u201cquirida\u201d Nossa Senhora dos Anjos, quando o dono da porca mandou o filho ir a casa tratar do animal. A crian\u00e7a, chegando ao local, n\u00e3o viu a porca e correu a avisar os pais que come\u00e7aram a lamentar-se. O burburinho foi t\u00e3o grande, que logo apareceram alguns amigos e familiares decididos a ajudar a encontrar o animal desaparecido. Procuraram nas redondezas, mas n\u00e3o a encontraram. Com a noite, decidiram procura-la no dia seguinte.<br \/><br \/>Lembrou-se ent\u00e3o o franzino do filho de subir o Pico e, qual n\u00e3o foi o seu espanto, ao olhar para o caldeir\u00e3o que ficava na cratera, ver em baixo a porca deitada e rodeada de &#8220;marr\u00e3ozinhos&#8221;, mesmo em frente a uma furna. Radiante de felicidade, e n\u00e3o sabendo como teria a porca ido ali parar, come\u00e7ou a descer Pico abaixo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 vila, gritando, por entre a multid\u00e3o forasteira que se encontrava na festa:<br \/><br \/>&#8211; A porca furou o Pico! A porca furou o Pico!<br \/><br \/>O animal regressou ao p\u00e1tio com a sua enorme prole e tudo voltou \u00e0 normalidade. Afinal a porquinha simplesmente tinha procurado condi\u00e7\u00f5es melhores do que as que tinha para aumentar a sua fam\u00edlia. J\u00e1 o franzino do rapazote pensara ter a porca furado o Pico, para passar do p\u00e1tio para o caldeir\u00e3o.\u201d<br \/><br \/>O Pereira e o Silva olharam de boca aberta e queixo ca\u00eddo para patr\u00e3o Ign\u00e1cio, incr\u00e9dulos!<br \/><br \/>Passaram-se os tempos, mas a frase, ingenuamente pronunciada e repetida, nunca mais foi esquecida e, durante muitos anos, at\u00e9 ao fim do s\u00e9culo XIX e por todo o s\u00e9culo XX, as pessoas que ali passavam de carro ou de camioneta, principalmente excursionistas, perguntavam ironicamente:<br \/><br \/>&#8211; Foi aqui que a porca furou o Pico?<br \/><br \/>Os habitantes da vila, sentindo-se apelidados de ing\u00e9nuos ou parvalh\u00f5es, reagiam, soltando pragas e fazendo gestos de revolta e f\u00faria.<br \/><br \/>Atualmente, esta hist\u00f3ria faz parte do folclore local e tem sido aproveitada pelo grupo de Folclore \u201cJovem Pauense\u201d. Eis uma das suas quadras mais conhecidas:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">I<br \/>Eu fui a \u00c1gua de Pau<br \/>Onde o pobre parecia rico<br \/>E o vinho n\u00e3o era mau<br \/>Diga-me l\u00e1 Tia Maria<br \/>Se foi nessa freguesia<br \/>Que a Porca furou o Pico?<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Cr\u00f3nica publicada na edi\u00e7\u00e3o impressa de <span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/DL_2021.07.pdf\">julho de 2021<\/a><\/span><\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c(\u2026) \u201cpatr\u00e3o\u201d Ign\u00e1cio de regresso ao Brasil, contou a in\u00e9dita hist\u00f3ria de uma porca que tinha furado o Pico, em \u00c1gua de Pau, enquanto l\u00e1 estivera no gozo das festas da Senhora dos Anjos\u2026\u201d Corriam os dias, nos sub\u00farbios do Rio de Janeiro, e naquela manh\u00e3 de segunda-feira, do m\u00eas de maio de 1897, o [&hellip;]<\/p>","protected":false},"author":2,"featured_media":109966,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v20.10 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Hist\u00f3ria da Porca que furou o Pico chegou ao Brasil no s\u00e9c. 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