
A saudade é tema central no novo livro infantil de Beatriz Moreira da Silva, o primeiro da autora de “Uma família açoriana”.
“A saudade ensina-nos, o livro é a prova disso. Não se trata de ser fácil, trata-se de fazê-lo com amor e dedicação. Escrever, corrigir, ouvir muitos “nãos” fizeram parte do percurso. Ninguém acreditou mais do que eu e, sobretudo, mais do que quem cá já não está – o meu avô”, explica a autora micaelense, natural da Ribeira Grande, sobre o seu mais recente livro.
A sessão de apresentação da obra, que decorreu na Livraria Letras Lavadas, em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, no passado mês de novembro, contou com a presença da autora, do diretor do Diário da Lagoa (DL), Clife Botelho e da lagoense Marta Ferreira, mãe e amiga de Beatriz Moreira da Silva.
“Já saí dos Açores para acompanhar o meu marido em várias peripécias, aventuras que me levaram a morar no Médio Oriente com dois filhos pequenos sendo que um deles é autista. E também eles com duas nacionalidades, tal como a Violeta [personagem do livro]”, começa por contar Marta Ferreira.
“Este livro aborda um tema muito atual que é a emigração. E para o qual toda a gente tem sempre uma opinião. Mas somente quem tem coragem, carrega uma mala com os poucos pertences e vai em busca de um futuro melhor, somente quem é audaz sabe o que é deixar o conforto do nosso lar, das nossas raízes, da nossa comida, amigos, família, da nossa casa vivermos distantes ultrapassando obstáculos infinitos e muitas vezes para um bem necessário, longe do nosso marido dos nossos filhos”, diz a amiga da autora.
Marta vive atualmente em São Miguel mas conta que já viveu no Iraque, na Turquia, no Uruguai e no continente português. “O meu marido é jogador de futebol profissional e nós andamos sempre a mudar de país. Foi muito complicado porque o Noah tendo recebido um diagnóstico de autismo – e ele tem autismo clássico já comprovado – não foi fácil encontrar as terapias e as condições necessárias para o nosso filho. Fui para o Iraque e não achei que o país ou aquela cidade nos desse as melhores condições para o desenvolvimento do meu filho e há cerca de dois anos que eu vivo sozinha com os meus dois filhos e o meu marido trabalha no Iraque. Portanto, eu sei bem o que é saudade e os meus filhos também sabem” contou Marta Ferreira na sessão de apresentação do livro.

“Muitas vezes nós dizemos que a palavra saudade não tem tradução para outras línguas e em português temos dificuldade em explicar o seu significado mas acho que o título deste livro traduz muito bem: «Uma família açoriana». Qual é o açoriano que não tem um familiar longe ou que não passou por uma experiência de saudade?”, questiona o diretor do DL.
E prossegue: “acho que é o que nos une a todos e faz com que estes pontinhos aqui no meio do mar tenham algo em comum. Podemos não conhecer alguns de nós aqui presentes, mas todos temos algo em comum e que será exatamente isto, a saudade por alguém. E o livro traduz isso numa linguagem adequada à idade dos nossos filhos”, considera.
“Acredito que serão mais os adultos a precisarem deste livro do que necessariamente crianças”, diz Beatriz Moreira da Silva, uma vez que “os adultos, na sua maioria, ainda estão presos a uma infância. Libertá-la e abraçá-la fará com que os nossos descendentes não sofram o peso do passado e sejam livres no futuro” considera.
E “porquê falar de sentimentos ou emoções?” questiona a autora na entrevista que deu ao DL. “Uma criança com três anos tem cerca de 80 por cento do seu cérebro desenvolvido, não tem capacidade para saber gerir frustrações. Dar a conhecer é tão importante como respirar, portanto não nos devemos coibir de permitir sentir, demonstrar compreensão, abraçar, ficar apenas ali no chão a dar o conforto”.
E é ao filho de quatro anos e ao avô que dedica a sua primeira obra, que se encontra à venda em diferentes livrarias online e na loja da Letras Lavadas, no coração de Ponta Delgada.
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