
A Câmara da Lagoa deu início à programação do mês de abril com a colocação de uma instalação literária na zona da Galera, na Caloura, em Água de Pau. A estrutura evoca um excerto da obra de Fernando Aires (1928-2010), autor que utilizou recorrentemente este cenário nas suas prosas diarísticas. Segundo a nota de imprensa enviada pelo município, o projeto pretende colocar o texto em diálogo com o território, permitindo ao observador confrontar a escrita do autor com o espaço físico que a inspirou.
Le design da peça é da autoria de Pedro Martins, que concebeu a instalação como uma moldura sobre o horizonte. Segundo o autor do projeto, a peça funciona como um ponto de observação que convida a uma reinterpretação do espaço, utilizando cores que procuram harmonizar-se com os elementos naturais envolventes, como o mar e a luz solar. A vereadora com o pelouro da Educação e Cultura, Albertina Oliveira, afirmou que a iniciativa procura a valorização conjunta do património natural e cultural, destacando a ligação histórica do escritor àquela zona do concelho da Lagoa.
O projeto teve origem numa proposta de Onésimo Teotónio de Almeida e a sua concretização será complementada, em data posterior, com uma sessão de caráter pedagógico. Este encontro contará com a participação do proponente e de Maria João Ruivo, filha de Fernando Aires, com o objetivo de abordar o enquadramento biográfico e literário do escritor. A instalação integra-se na estratégia municipal de promoção da leitura e de sinalização de figuras relevantes do panorama cultural açoriano através da geografia do concelho.

Abril será o mês de todas as leituras na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada (BPARPD). Com o intuito de celebrar o Dia Internacional do Livro Infantil, a 2 de abril, e o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, a 23 de abril, a instituição preparou uma programação intensa que visa fidelizar leitores de todas as idades. Segundo nota de imprensa enviada pela BPARPD, o programa arranca logo nas férias da Páscoa, entre 8 e 10 de abril, com a oficina “Letras e Linhas”, dinamizada por Sofia Cabral Botelho, onde crianças e jovens entre os oito e os 15 anos poderão aprender a produzir capas para a construção de livros.
A ligação entre a escrita e as artes manuais ganha novo fôlego no dia 11 de abril, às 15h00, com a oficina “Cartas Bordadas”. A iniciativa, aberta a famílias e maiores de sete anos, utiliza o acervo de correspondência da própria Biblioteca como base para uma fusão entre caligrafia e bordado criativo, permitindo aos participantes reinterpretar manuscritos históricos através de pontos e linhas.
Para quem prefere a descoberta lúdica do espaço, o dia 18 de abril reserva o “Bibliopaper”. A partir das 15h00, equipas de até cinco elementos serão desafiadas a percorrer os circuitos da biblioteca num jogo de perguntas e percursos que estimula a autonomia na pesquisa bibliográfica. A participação é gratuita, mas limitada a oito equipas, sendo que o líder de cada grupo deverá ter idade superior a 16 anos.
Um dos momentos altos da programação ocorre a 24 de abril, às 21h00, com a estreia da peça “Quando o Mar Galgou a Terra e algumas considerações”. Trata-se de uma releitura crítica e contemporânea do clássico de Armando Côrtes-Rodrigues, figura cimeira da “Açorianidade” cujo espólio está à guarda da BPARPD. Com encenação de Eleonora Marino Duarte, o espetáculo promete uma experiência sensorial focada na resiliência feminina e na força da natureza, temas indissociáveis da identidade insular.
A fechar este ciclo comemorativo, o Clube de Leitura da BPARPD reúne-se a 18 de maio para antecipar o Dia do Autor Português. Sob a moderação da psicóloga e contadora de histórias Ana Catarina Silva, o encontro será dedicado à obra “Amores da Cadela Pura”, de Margarida Victória. A Biblioteca recorda ainda que, além destes eventos pontuais, mantém disponível durante todo o ano uma carteira de duas dezenas de oficinas para grupos e escolas, reforçando o seu papel central na promoção da literacia em São Miguel.

A escrita lusófona prepara-se para um novo fôlego com o anúncio do reforço do Prémio Literário Vitorino Nemésio. Segundo nota de imprensa enviada pela Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA), o presidente do parlamento, Luís Garcia, revelou que a próxima edição do certame terá lugar em 2027, trazendo consigo um aumento do valor pecuniário para 5.000 euros. Esta alteração ao regulamento foi aprovada por unanimidade na última sessão plenária, uma decisão que, nas palavras de Luís Garcia, permite garantir “a qualidade, o rigor e a dignidade que um prémio com o nome de Vitorino Nemésio deve ter”.
O anúncio oficial ocorreu em Lisboa, num momento de especial simbolismo para a comunidade açoriana na capital: a sessão de apresentação do romance Irma, de António Avelar, obra vencedora da edição inaugural do prémio. O evento esteve integrado nas comemorações do 99.º aniversário da Casa dos Açores de Lisboa, instituição que o Presidente da ALRAA fez questão de elogiar pelo papel histórico na “preservação, promoção e divulgação da cultura açoriana fora do arquipélago”.
A decisão de tornar o prémio bienal surge como uma resposta ao sucesso e à complexidade logística da primeira edição, que registou mais de 400 candidaturas provenientes de diversos pontos da lusofonia, incluindo Portugal, Brasil, Moçambique, Angola e Suíça. Para o Presidente da Assembleia Legislativa, “a dimensão, a qualidade e o alcance da primeira edição demonstraram que este é um projeto com futuro”, mas reconheceu simultaneamente ser “um projeto exigente em termos de organização”. Além do vencedor António Avelar, a edição de estreia distinguiu ainda Natanilson Pereira Campos com uma Menção Honrosa pelo romance As Cercanias do Silêncio.
Durante a cerimónia, Luís Garcia destacou o mérito da Casa dos Açores de Lisboa em conseguir afirmar a identidade das ilhas num contexto competitivo como o da capital portuguesa, onde inúmeras iniciativas disputam a atenção do público.

A Câmara Municipal da Lagoa oficializou, no edifício dos Paços do Concelho, a Agenda Cultural para 2026. A apresentação foi conduzida pelo presidente da autarquia lagoense, Frederico Sousa, acompanhado pela vereadora Albertina Oliveira, detalhando um plano composto por meia centena de eventos que abrangem áreas como o cinema, música, teatro, literatura e património histórico. Segundo a nota de imprensa enviada pelo Município às redações, o documento agrega os principais eventos realizados de forma regular no concelho.
Sobre a estratégia para este ano, Frederico Sousa afirmou que a agenda “mantém-se consistente, contando com a parceria e o apoio de diversas instituições e associações lagoenses”. O autarca salientou ainda que o objetivo passa por reforçar a “valorização das tradições, da identidade local e do património”, adaptando a oferta às preferências do público, especialmente no que concerne aos eventos festivos que já integram o calendário local.
No que respeita aos equipamentos culturais, o plano prevê a continuidade da exibição regular de cinema no Cineteatro Lagoense Francisco D’Amaral Almeida e a dinamização do Auditório Ferreira da Silva, em Água de Pau. Para este último espaço, estão previstos oito eventos principais, incluindo concertos de Rita Rocha, a 1 de maio, e o espetáculo “Namasté”, com Inês Aires Pereira, a 31 de outubro, além de iniciativas de caráter gratuito em parceria com associações locais e a Sinfonietta de Ponta Delgada.
O calendário de verão inclui a 10.ª edição da Festa Branca do Convento, a 22 de agosto, e a Festa de Santo António, entre 9 e 14 de junho, que retoma o modelo de arraial aberto ao público com as tradicionais marchas e atuações de artistas como Toy e Augusto Canário. O Festival Lagoa Bom Porto e as festas em honra do Divino Espírito Santo, em Água de Pau, mantêm-se na programação. Uma das novidades inseridas para 2026 é o Cabouco AgroFest, agendado para os dias 4, 5 e 6 de setembro, dedicado à promoção do mundo rural e dos produtos locais na freguesia do Cabouco.
A vertente literária e de preservação da memória encerra as prioridades da agenda, com destaque para o lançamento da obra “Memória da Cultura Desportiva da Lagoa”, de Marcelo Borges, e a apresentação da edição completa da “Etnologia dos Açores”, de Francisco Carreiro da Costa, no dia 26 de junho.

O Clube de Leitura da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada (BPARPD) está de regresso à atividade após uma pausa para reestruturação e planeamento. Segundo uma nota enviada pela instituição às redações, esta nova fase do projeto surge com uma “nova energia”, apostando num modelo mais abrangente que passará a contar com a participação de moderadores convidados, momentos dedicados à leitura em voz alta e um maior intervalo entre as sessões, garantindo assim mais tempo para a leitura individual e uma discussão mais profunda nos encontros.
A primeira sessão desta temporada renovada está marcada para o dia 23 de março, pelas 18h00, e terá um caráter livre e participativo. O convite é estendido a todos os interessados para que partilhem as suas sugestões de leitura atuais, promovendo uma troca de recomendações num ambiente informal. Este projeto coletivo assume-se como um espaço onde a “conquista da voz diante da literatura” é um dos resultados principais, utilizando a língua portuguesa como um veículo de integração e cidadania plena. Entre os objetivos centrais do clube mantêm-se a democratização do acesso à leitura, a formação de um público mais crítico e criativo, e o incentivo ao debate e à socialização do conhecimento entre os participantes.
A programação para 2026 já se encontra delineada, com encontros bimensais que abordam temáticas distintas. Depois da sessão inaugural em março, o clube celebrará os autores portugueses a 18 de maio e a diversidade na literatura a 29 de junho, ambos com moderação convidada. Após a pausa de verão, a agenda retoma a 7 de setembro com a “Rentrée Literária”, seguindo-se o tema das adaptações ao cinema a 19 de outubro e, por fim, uma sessão dedicada aos clássicos a 7 de dezembro. A Biblioteca Pública e Arquivo Regional pretende, com este calendário, ampliar o repertório dos leitores e autonomizar o clube através de um período de incubação que potencie novos mediadores de leitura na comunidade açoriana.

A Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, promoveu, no passado dia 3 de março, uma conversa com o escritor açoriano Diniz Borges, integrada no ciclo “Escritores da Diáspora”.
O encontro decorreu no auditório da instituição e reuniu participantes interessados em refletir sobre a experiência da emigração e o papel cultural das comunidades açorianas no estrangeiro.
Natural da Praia da Vitória, na ilha Terceira, Diniz Borges reside nos Estados Unidos desde os 10 anos. Ao longo da sua carreira, dedicou-se à docência da Língua e da Cultura Portuguesas junto de alunos do ensino secundário, desenvolvendo também diversos projetos pedagógicos destinados a valorizar a presença e os valores das comunidades açorianas na sociedade americana.
Durante a conversa, o autor abordou temas presentes na sua produção literária e ensaística, nomeadamente a experiência da emigração, a diversidade cultural dos Estados Unidos e a herança cultural açoriana preservada pelas comunidades emigrantes.
A sessão permitiu ainda refletir sobre o papel da diáspora na preservação da identidade cultural açoriana e no reforço das ligações entre as ilhas e as comunidades espalhadas pelo mundo.
Para além da sua atividade académica e literária, Diniz Borges tem também colaborado regularmente com a imprensa local e comunitária, contribuindo para ampliar o diálogo entre as comunidades da diáspora e os Açores.
A iniciativa integrou a programação cultural da Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro, que assinala 70 anos de atividade, promovendo eventos dedicados à literatura, à história e à reflexão sobre a identidade cultural açoriana e a presença das comunidades no exterior.

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Soube da infeliz morte de António Lobo Antunes, um magnífico ser humano, que viveu intensamente, e recebi a «sua» morte, via noticiário, com a óbvia tristeza de quem vê um «distante» escritor lusitano, um dos melhores de Portugal, a desaparecer do mapa dos vivos, e que, agora, finalmente, voa como um pássaro livre na cauda das nuvens soltas, cabendo, por vezes, quase na palma das nossas próprias mãos através dos seus livros e do resgate que fazemos da sua boa memória e das suas leituras.
Na verdade, e desculpem-me por isso, mas nunca li nada dele, confesso. Li algumas entrevistas avulsas, notas bastante soltas; sei, por alto, quem foi, sei o que escreveu; mas não compreendo realisticamente a sua narrativa densa, a sua obra – mas compreendo a sua geração.
Não se ensina António Lobo Antunes na escola, nem ele foi feito para uma descoberta apertada ou forçada; temos de ir de frente com ele, voluntários, que ele não vai sozinho connosco, e ainda bem. E temos de estar preparados para nos afundarmos nele, na sua narrativa.
Ninguém é sobretudo coletivamente irreparável, porque toda a gente tem de morrer e de partir, tem de desaparecer, logo toda a morte tem reparo na substância do mundo.
Não obstante, a única coisa que podemos aprender uns com os outros, por isso, é que todos nós somos uma perda substancial na vida de alguém em particular, e isso não é de se desmerecer; somos sem reparo, sobretudo dos mais próximos, de facto; mas muito pouco relevantes na vida e na circunstância da Vida, ela mesma, na sua mecânica, nas dinâmicas do Sol e da Lua, do vento e da maré, se quisermos.
Afinal, do que sei, o que podemos aprender com a morte é como não compreendê-la: é precisamente ignorando, de facto, a morte que seguimos, justamente, bem vivos na vida. O que podemos aprender com a morte é como não compreendê-la, de todo.
A infeliz, mas necessária, partida de qualquer ser humano, nas nossas vidas, deixa, nalgum lugar, um vazio branco, inesquecível e irreparável; eu chamar-lhe-ia o barulho do irreparável.
Deixa rasto num coração dormente, mais envelhecido, e por vezes assustado. A sensação de impotência e de pesada solidão num cadeirão, cheio de raízes e de memórias, mas agora despojado do seu dono, revela um eco de vazio irreparável, de qualquer coisa sozinha, agora despojada, um despovoamento e a sensação sólida de um desaparecimento subtil, mas incerto.
Depois da morte de um amigo, de uma pessoa, seja familiar ou conhecida, que é muito importante para nós, a vida muda, fica mais forte, mas, ao mesmo tempo, fica mais vazia e menos significativamente importante – e é esse peso irreparável que não se substitui, ele é substancialmente grande o suficiente para durar a vida toda, tanto que a morte é um peso doloroso.
Recordo, com saudade, figuras icónicas, e ilustres, da minha freguesia, por mero exemplo, e delas, e através delas, vejo não elas mesmas, na sua imagem, mas um tempo que se foi definitivamente embora.
Vejo a minha infância e juventude, as que já não voltam mais, e vejo uma geração diferente que foi substituída, irreparavelmente substituída por outra.
Com tudo isso, sinto que algo morreu pelo caminho; mais do que a morte de alguém, morreu uma geração uniforme, morrem gerações mais ou menos concisas, gerações de costumes, de tradições, de práticas, de vivências, de memórias, de aspereza, de dureza e de dificuldades vividas.
A geração que conheceu os pés descalços e a fome está a desaparecer. Por um lado, é bom, excelente sinal; por outro, pode ser impactante o suficiente no nosso futuro e na forma como vivemo-lo; pode ser imprudente desvalorizar isso.
Afinal, como não compreender a morte senão através da vida? Olhemos os álbuns do passado, alguns bem feitos, e reviremos a história, compreendamos gerações de trabalho inteiras, e prestemos homenagem a quem, desaparecendo, levou consigo uma geração de enormes dificuldades e desafios.
A morte de António Lobo Antunes, mais do que a importância da sua rica narrativa, provoca-me essa sensação de viva impotência: de que algo muito importante está-se a ir embora de nós, de que algo já não volta mais – não a pessoa, mas uma fibra de gerações inteiras que, substituindo-se no Tempo, estão vagamente, e lentamente, a sair do palco.

O jovem autor e professor lagoense Júlio Tavares Oliveira, de 28 anos, prepara-se para lançar a sua mais recente obra poética, intitulada «Por ser Árvore». O evento de lançamento terá lugar no próximo dia 30 de maio, pelas 18h30, na Sala de Leitura da Biblioteca Municipal Tomaz Borba Vieira, e contará com a apresentação do poeta e escritor Pedro Paulo Câmara.
Após um interregno de três anos sem eventos literários presenciais, o autor, que soma já dois prémios de poesia, regressa com uma obra sob a chancela da editora Reticências. O livro congrega uma seleção de poemas inéditos e alguns dos seus melhores textos já publicados.
Segundo o autor, em declarações ao Diário da Lagoa, a obra “reflete uma atitude de aceitação perante o mundo e as circunstâncias pessoais de cada um”, descrevendo-a como o espelho de uma vida jovem, mas “repleta de luzes e de sombras”. A capa, que ilustra uma flor de outono a cair sobre a palma da mão, simboliza essa “aceitação plena e grata do nosso Destino”.
Com prefácio da escritora florentina Gabriela Silva, antes do lançamento oficial haverá uma pré-abordagem apresentacional a 17 de abril, na Escola Básica Integrada de Água de Pau, em contexto escolar, também com a presença de Pedro Paulo Câmara.
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses, pós-graduado em Português Língua Não Materna (PLNM) e atualmente mestrando em Estudos de Língua Portuguesa pela Universidade Aberta de Lisboa, Júlio Tavares Oliveira possui uma vasta formação em áreas como Escrita Criativa, Educação Não Formal e Inclusão. Após ter exercido funções como docente de PLNM no Colégio do Castanheiro, em Ponta Delgada, no ano letivo 2024/2025, o autor dedica-se atualmente à certificação de estrangeiros em diversos pontos do globo, promovendo a Língua e Cultura Portuguesas para fins de obtenção de nacionalidade.

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Caro jovem poeta, de dezoito anos, Júlio,
Espero que essa carta te encontre sobremaneira bem, cheio de saúde e cheio de jovialidade.
Venho, do futuro, dizer-te que o futuro, como é, está, por ora, agora estragado; que o futuro, como seja, está adiado e, assim, para sempre, a glória que tu anseias, pela qual oras e pedes, incessantemente, de velas acesas, está perdido; não há, como querias, um pedaço deste Céu.
Caro poeta, mas não desanimes. A vida se é longa, ou curta, não importa – importa mais a sua ligeireza aos assuntos do coração – e da razão.
Diria eu, do alto do meu posto, onze anos à frente de ti, caro jovem poeta, que tudo se desfez; pouco ou nada se construiu, e, pior, a palavra mais cruel é mesmo essa, a palavra – absurda – “Vazio”, a mesma que tu adiarás constantemente, com medo e temor de uma queimadura forte, no teu coração, como que assoprando, continuamente, para a frente, um futuro, e um luto, proscrito e indefinido de mágoas.
Publicarás; é certo – mas quem não neste ermo? Isso não é critério e, falando-te do futuro, digo-te que queima escrever; que queima ler; como queima, enfim, sobretudo respirar ou viver.
Escrever versos dói – dizia Santos Barros. Eu lhe acrescentaria, à latitude desse verso, uma distância concreta entre o passado e o futuro – dói saber quem somos, e o que somos, enfim, (só) a penugem do Tempo, o pó da calçada, a espuma do mar, dissolvendo-se, vagamente, nas sobras da maré alta.
Olho-te, jovem poeta, do teu lugar de abysmo (sim – com “y”, como diria e escreveria Fernando Pessoa) para te dizer o seguinte: tu não és uma má pessoa; és uma pessoa à qual más coisas aconteceram – e, para tal, movido pela fúria da sociedade em demanda, como num carrossel apressado, foste seguindo os dias, esperançoso, demorado, ansioso, adiado …e, muitas vezes, odiado.
Espero-te, jovem poeta Júlio, que consigas perceber, do alto do teu enigma, do teu Futuro, o que não consegues enxergar com esses olhos cheios de esperança e de virilidade: fala-te quem já passou pelo que tu, inevitavelmente, vais passar; fala-te quem já viveu uma vida que, invariavelmente, vais ter de viver e de suportar.
Não basta escrever bem; é preciso ter uma boa fama no público, ser apupado e respeitado pelas elites; é necessário conter, no saldo, uns quantos trocos preparados na carteira, para comprares os teus próprios livros, a bolsa cheia de futilidades, uma pena de lugares-comuns, por vezes, e o enigma da consciência cheio de urina pálida. Sim: de escura urina, para não dizer outra palavra – porque nada mais importa do que ser verdadeiramente “importante” nesta caos social em que se o Estado falha, a mente, qual quê, também falhará.
Assim te vês, decerto, no presente: muito “importante”, inédito e especial. Deixa-me desmanchar-te esse pedestal. Pois bem, desculpa-me, ó jovem poeta, desiludir-te, mas as coisas importantes, e inéditas, deixam muito depressa, penduradas, as pessoas importantes na paragem do esquecimento eterno – prescrevem rapidamente na sua fila de espera pelo cânone ou pelo Nobel… ou pelo premiozinho literário.
Rogo-te que pares de sonhar as coisas absurdas. Que reflitas não nos futuros louvores, mas em ti. E, embora não o vás fazer, que o faças, impiedosamente..; e que, lendo esta carta, escrita onze anos depois de ti, pares um momento, e reflitas, sozinho – longe de todos: vale a poesia a pena nas mãos de um jovem poeta?
Escrevo-te para te salvar; embora já esteja perdida, de pouca absolvição, a tua nobre, e genuína, pena… Então, escrevo-te para me salvar, talvez, para me redimir, de novo, de tanta coisa. Se calhar, no fundo, esta carta servirá mais para mim, seu remetente, do que para ti, seu destinatário.
Assim o farás: porás estas letras no balde do lixo do teu quarto, depois de semilidas, como a todos os avisos e conselhos, mesmo que poucos. Ao menor conselho, de alguém verdadeiramente amigo e lúcido, terás a tua jovem consciência, virtuosa, a afirmar-te com raiva: “É um grande disparate!”. E, não obstante acompanhado de outros poetas – mais cognomizados e reconhecidos como tal -, um dia, mais tarde, eles também te deixarão à berma da estrada, por só… e só, somente sozinho com a tua consciência.
Restar-te-á, no fundo, um apelo bem fundo: voltar atrás. Mas, lamento informar-te, e desiludir-te, Júlio. Não se desfaz. Não há remédio. Nem retorno. Nem absolvição.
Mas não será, penso, de todos os homens, de todas as mulheres deste mundo, viver assim carregando uma culpa só sua?
Então, também a terás, jovem poeta, por direito, a essa culposa mancha.
Lamento contar-te, mas, de ti, verá auspicioso futuro, embora contido, e continuadamente preterido na solidão ruidosa, escura e vazia, do teu quarto frio – terminarás, ó se sim…, os primeiros degraus académicos e, por ora, não te julgues acima dos maiores textos da Humanidade, só por isso – eles foram, supostamente, escritos por gente sem curso superior, ou curso algum. Bem, pelo menos uma parte deles…
Termino, ó jovem, contando-te que somos maiores quando nos encolhemos; e, quando nos encolhemos, para caber nos outros, somos maiores: lê! Lê! Quanto, portanto, possas ler o mais que puderes.
Penso que, no fundo, como a qualquer jovem escritor ou poeta, falta-te, ainda por chegar, um amor proibido, uma causa perdida, uma perda irremediável. A seu tempo, para amadurecer o corpo, a mente, o coração e, claro, a escrita.
Com enorme estima,
o teu
Júlio Tavares Oliveira

O Cineteatro Lagoense Francisco D’Amaral Almeida vai receber um seminário intitulado «A literatura na infância», que terá lugar no dia 27 de maio, no âmbito do inicio da terceira edição da Semana da Criança.
Trata-se de uma iniciativa da Câmara Municipal da Lagoa, através da Biblioteca Municipal Tomaz Borba Vieira, num encontro dirigido, preferencialmente, a profissionais que exercem funções na área da infância e estudantes, embora possa ser frequentado por todos os interessados.
O seminário inicia-se com uma conferência «Ler na infância – a importância da leitura para o desenvolvimento da criança», a cargo da professora universitária Maria Madalena Teixeira da Silva e contará com apresentação de Paulo Bulhões.
Seguem-se três painéis temáticos: o primeiro centra-se na literatura infantil e aborda obras, técnicas de mediação e questões de diversidade na literatura infantil. O segundo explora a interligação entre literatura e outras expressões artísticas, como a música, a ilustração, e a expressão corporal; O terceiro, com uma componente mais prática, apresenta recursos educativos e estratégias para incentivar hábitos de leitura entre os mais novos. Durante o evento, será feita uma evocação especial à memória de Leonardo Sousa com a projeção de um vídeo que regista uma das suas intervenções num projeto da autarquia com excertos ainda não divulgados. Esta projeção pretende assinalar o legado e o contributo que deixou na área, homenageando, simbolicamente, a sua presença através das suas próprias palavras e agradecendo toda a colaboração prestada. Foi também um dos oradores convidados na edição formativa na I edição da semana da Criança.
Relativamente à responsável pela conferência de abertura, Maria Madalena Teixeira da Silva possui doutoramento em Literatura Portuguesa e licenciatura em Português/Francês, pela Universidade dos Açores. Publicou 14 artigos em revistas especializadas e possui 40 capítulos de livros. Organizou 26 eventos e participou em 48. Atua na área de Humanidades, com ênfase em Línguas e Literaturas, Literaturas Específicas e Teoria Literária.
Todos os restantes oradores, em diferentes áreas, têm-se destacado na promoção da leitura, podendo-se referenciar qual em cada um deles. Assim o seminário conta no I painel com: Anabela Cura, Rosa Cardoso e Mónica Domingues. No II Painel, Alda Casqueira, Alda Félix, Ana Rita Vieira. No terceiro, Sofia Fragoso, Sandra de Sousa Bairos e Miguel Esteves. A apresentação dos diferentes painéis está a cargo de Diana Oliveira (creche e jardim de infância «O Ninho»); João Oliveira (Solidaried’Arte); Vera Libório (Casa do Povo de Água de Pau).
Esta seminário carece de inscrição que pode ser feita junto da Bibilioteca Tomás Borba Vieira.