
Contar isto, de uma maneira ou de outra, trará, aos presentes leitores, uma ligeira sensação de abandono. Ainda assim, este conto passa-se no Verão de 2001, na casa dos meus avós maternos, por baixo de um Sol abrasador. Situando-me, eu, no espectro temporal de me ver, assim, de súbito, desprovido das mais vivas sensações soalheiras, fui, por força, impelido, pelo meu Avô António Tavares a caminhar rua abaixo – e, por entre passeios, vi-me sozinho. O objetivo – dizia, repetidamente, o meu Avô – era o de chegar ao STOP, e de parar aí. Mas, naquele lugar a meio caminho, a minha súbita abstração numa qualquer sensação de insegurança impôs-se e tive de fugir, rapidamente, para trás – para os braços do meu Avô. Tentaremos noutra altura; noutro dia, de novo.
E chegou, passados dois dias, a chance de voltar a tentar: o objetivo, esse sempre o mesmo, era o de chegar, sozinho, sem mão ‘amarrada’ à minha, ao sinal de trânsito mais próximo, no final da rua. Seria uma vaga esperança, que me inundava o peito e se confundia com o chilrear dos melros nas árvores, que me fariam anuir a outra tentativa. Ninguém mais o faria por mim, senão o meu avô António; afinal, quem é que perde o seu precioso e magnânimo tempo a tentar fazer alguém chegar ao sinal de trânsito mais próximo? Ninguém no seu perfeito juízo; só o meu Avô, suficientemente “louco” para isso. Seria, de novo, nessa noção de que as pessoas são os momentos; e os momentos fazem as suas, as nossas, pessoas que me voltaria de novo para o meu Avô, a meio do trajeto, e correria para os seus braços. A chorar e com medo da solidão daquele trajeto de abandono. O meu Avô, apertando-me os braços com as duas mãos e pondo-se de joelhos, firme pronunciava que, no dia seguinte, voltaríamos a tentar. E lá, a meio da tarde, daquele Verão de 2001, voltávamos a tentar; a falhar e a ruir o nosso próprio caminho, entre um trajeto tão inseguro. E foram assim, continuamente, com mais ou menos choro, e muitas ansiedade, se passando dias e dias. Afinal, a maioria, naquele tempo e lugares, e perante aquele contexto, já havia desistido. Mas o meu Avô não, ele continuava, sempre, seguro na sua de que, um dia, haveria sozinho de chegar ao sinal de trânsito ao final da rua. Seria a uma sexta-feira que, voltando da escola, o meu Avô me propôs, calmo e com muita serenidade, que tentássemos de novo. Com a mão – a minha – segura à dele, propôs, então, que fosse, passo a passo, como quem se não segurava a nada e caminhava sobre uma ponte quase a ruir, até ao sinal de STOP, no fim da rua. Parecendo-me, quase a desistir daquela missão, um objetivo nada palpável, nem real, fui, interiormente, passo a passo, até dar o primeiro passo daquele longo trajeto. A meio dele, senti uma sensação, lá está, de solidão despovoada, de abandono e de insegurança que, num clima de ansiedade precipitando-se sobre os meus braços, pernas, peito, garganta e, sobretudo, a minha mente, consistiam no cenário de tentação absoluta em voltar para os braços do meu Avô. Mas não voltei. Segui, passo a passo, um passo de cada vez, em frente. E, aí, a escassos dois metros de distância do STOP (um recorde mundial já batido, para mim), e quase a desmaiar de ansiedade, parei. Pensei, para mim, que aquilo, ali, não teria significado nenhum para ninguém, senão – ao menos – para o meu Avô, que o queria deixar contente e orgulhoso de mim. E dei mais um passo sobre a corda ténue e trémula do destino. Aí, tornei a parar, parecendo-me tarde de mais para conseguir, e alternando na incerteza, nova, daquele sucesso tão perto, ouço o meu Avô ao longe: – “Está quase, só mais um bocadinho!” Fecho os olhos. Tremo. E prossigo. Cheguei, ao fim de dois meses de tentativas, ao STOP. O meu avô, ao meu toque no sinal, corre ao meu encontro e, com um forte abraço, selámos a nossa eterna amizade.
Fiquei a conhecer o meu avô nesse momento, e, agora, quero que todos o conheçam como eu o conheci também. Um homem absolutamente confiante no seu neto e que, talvez, e não desistindo dele, o tivesse feito avançar tanto no seu Caminho.
Com o seu falecimento, no passado dia 26 de Novembro de 2024, ficou um vazio difícil de preencher na minha vida. Terei, como ele me ensinou, de caminhar sozinho daqui para a frente. Mas na certeza, absoluta, de que ele me continuará, sempre, a guiar.

A «Revista Ofélia: A Nova Voz dos Jovens Poetas Portugueses com tertúlia», vai ser apresentada na Biblioteca Municipal Tomaz Borba Viveira, no próximo dia 18 de outubro, pelas 18h30, com a presença da coordenadora da revista, Simone de Carvalho Martins. A apresentação vai estar a cargo do escritor Pedro Paulo Câmara.
Trata-se de um evento organizado pelo escritor lagoense Júlio Tavares Oliveira, com o apoio da câmara municipal da Lagoa, com o objetivo de divulgar a revista Ofélia, os jovens poetas, a poesia nacional e os seus principais talentos na revista em questão.
Simone Martins nasceu em Almada em 1998. Tirou licenciatura em «Literatura Inglesa e Filosofia», pela Universidade de Hertfordshire, Inglaterra e mestrado em «Edição de Texto», pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas de Lisboa. É uma apaixonada pelos livros, pela palavra, pela comunicação, pela poesia, pelo desenvolvimento e pela complexidade humana. Trabalhou com crianças desde os 19 anos e, aos 26 anos, decidiu dedicar-se, totalmente, ao seu projeto «Ofélia em Poesia», que de sonho passou a realidade, com o propósito de dar voz acessível aos poetas e publicar os mesmos.
A «Revista Ofélia» tornou-se uma editora poética, estando presente no mundo digital e dando voz em podcast a vários poetas semanalmente. Tornou-se lugar de eventos poéticos e vivenciais de poesia, procurando sempre abrir espaço às novas formas de sentir poesia e desenvolver a mesma. Foi ainda transformado num projeto levado às crianças e aos mais jovens, através de oficinas de poesia.

O escritor lagoense, Júlio Tavares Oliveira, está a comercializar e a publicar, este mês de julho, o livro de reflexões pessoais e ensaísticas «Não se encontra o que se procura».
O escritor, de 26 anos, vê agora concretizado mais um título, depois de «Presidências» e de «O Sargento Tavares – As Memórias do Meu Avô».
Segundo o autor lagoense, o livro, agora tornado público em Edição do Autor, “tem por base a máxima de que o Amor, esse sentimento, não é um lugar de encontro; mas um lugar que vem sempre ao nosso encontro”, complementando que “este livro, de reflexões sobre o Amor, sentimento antitético e contraditório por natureza, base inspiracional de inúmeras metáforas/recursos estilísticos e de uma poética secular generalizada, é tanto nosso quanto dos outros, numa partilha que deve ser sempre total e consentida, nunca forçada ou imposta”.
Em nota de imprensa enviada à redação, Júlio Tavares Oliveira fala do processo de “virtualização amorosa”, enquanto conceito novo, precedendo sempre um processo de “desvirtualização ou de desilusão amorosa”. O autor refere que neste livro introduz conceitos que considera inovadores, como os de “necessidade coletiva” ou do elemento intitulado de “perturbador” na relação amorosa.
“Este, em suma, é um livro de reflexão sobre um sentimento: o amor. O amor-romântico, por base tido, mas também pegando noutras sub-tipologias. Porque, por definição, só podemos amar quem nos pode amar também – ou tem, justamente, essa capacidade de nos amar -, parto desse princípio, que explico no livro/artigo, e faço toda uma obra em torno de um conjunto de conceitos, uns novos e, outros, já trabalhados”, aponta o escritor.
Júlio Tavares Oliveira tinha anunciado em janeiro “uma pausa” nas suas lides “literárias”. Pausa que decidiu agora “dar por terminada”. O autor explica, ainda, que regressa porque “foram várias, e por várias formas, as motivações, internas e externas, para que voltasse a publicar mais um livro, facto que agora ocorre”.

Júlio Tavares Oliveira
Escritor
Quando comecei a pensar neste artigo não queria, nem pretendia, que fosse um artigo única e exclusivamente focado num espectro religioso, independentemente da religião em causa de cada um. A verdade é que, no campo da «Fé», podemos ter dimensões diversas; vários tipos de «Fé» e, portanto, várias dimensões de crença, de Fé, de espiritualidade, seja num Deus, seja num profeta, seja num símbolo ou numa marca puramente comercial ou desportiva.
Pretendia, antes, focar-me, não no sentido religioso da «Fé», mas no sentido puramente restrito e estrito da palavra «Fé», e redimensionar este meu artigo para a orientação puramente ideológica da palavra: que sentido tem a Fé, seja ela qual for e para onde for direcionada, nas nossas vidas?
A fé é uma força. Impele quase sempre em frente; nunca vimos uma fé impelir alguém a dar um passo atrás, senão para a sua própria salvaguarda, ou prudência, ou segurança, talvez. A fé é, talvez, um instinto, um âmago de emoções, ou, diria eu, quando a nossa inteligência emocional não consegue percecionar ou capitalizar, de forma eficiente, a eternidade e torna-se incapaz de filtrar o divino, entrando no campo do puro, e insondável, mistério.
A fé não pode ser senão um mistério que nos faz mover num sentido ascendente. A fé torna-nos maiores; nascentes; e torna-nos melhores. A origem da fé somos nós mesmos, não está na origem dos símbolos, das religiões ou dos magmas em torno da qual se move e se simboliza ou idealiza. Ela nasce de dentro e de nós, e de dentro de nós se torna semente, fruto e se cristaliza.
Nas horas de maior provação, na vida ou na doença, na dor e na perdição, a fé aguenta-se como uma lamparina, um pêndulo de luz, um sorriso por dentro da noite, um sol nascente, um último andaime, que nos faz ter esperança num dia novo. Isso, precisamente, porque, essencialmente, e como disse, a fé é sempre ascendente; vem de entro, torna-nos maiores e melhores.
Ter fé é capitalizar uma dívida. É prometer que se cumpre. E, na maior parte dos casos, quem tem fé não perde o caminho da fé; apenas adianta-se cada vez mais nele, pois a sua fé só tende a aumentar com o aumento das provações que a fé acomoda e enfrenta.
A fé salva-nos. Não é mentira nenhuma; e, porquanto tenhamos ainda fé, seja no Senhor Santo Cristo dos Milagres, no Sport Lisboa e Benfica, ou no Amor, o importante é que não percamos, de facto, essa luz nas nossas vidas, e que sejamos sempre fiéis a ela, independentemente do seu vértice de importância. A fé ocupa um espaço, um espaço intransmissível e inexorável. Que reconheçamos a sua importância nos dias, na pesada herança das noites, e que possamos, enfim, acomodar-nos com a sua esperança, com a sua alegria e com a sua luz.

Júlio Tavares Oliveira
Escritor
O que é que o dia 25 de Abril de 1974 e o meu avô António Tavares têm em comum? Muito pouco, na verdade, quase nada. Na verdade, até ao 25 de Abril de 1974, nada havia de especial entre esses dois binómios – data e nome -, avô e tempo; espaço e lugar. O meu avô, em 1974, não estava em Lisboa, não era Capitão, nem derrubou – ou ajudou a derrubar o regime marcelista.
O meu avô não era, nem jamais foi, um homem revolucionário. Nem era, digo com toda a certeza, um fascista, nem era tampouco um democrata absolutamente convicto naquele tempo. O meu avô, como militar, não podia ser, senão, um simples, e humilde, militar – isso mesmo, sem outra conduta que não fosse a de cumprir ordens. O meu avô não é, nunca foi, uma peça do 25 de Abril de 1974, mas foi – sim – um combatente que procurou, na sombra dos que fugiam e se refugiavam, ou buscavam outro exílio, assumir um país em guerra consigo mesmo e absolutamente amordaçado, com um défice de gente para combater numa guerra que era de «todos» – muitos dos quais fugiam.
Em 1974, o meu avô cumpria o desígnio de cumprir – e fazer cumprir – as ordens militares, e políticas, que lhe eram dadas pelos seus superiores hierárquicos – coisa que toda a vida fez com dedicação e elevação -, tanto para sustentar a sua família, como para viver, e ter de viver, designadamente, defendendo a sua nação numa guerra totalmente «perdida», à partida, mas nunca absolutamente abandonada à sua imensa sorte pelos que a ainda combatiam do seu suor, sangue e lágrimas em África. Alguém havia de combater, ainda que perdida, a guerra; alguém havia de existir, no terreno, de arma em riste, para defender, e honrar, a Pátria despedaçada. Um deles, um dos últimos combatentes a abandonar África num avião civil, em 1975, seria o meu avô.
No dia 25 de Abril de 1974, o meu avô não teve um cravo na mão; nem andou a marchar pelas ruas de Lisboa ao som da Liberdade. Se tinha, era a distância estonteante da sua casa, dos Açores, para se mover, e vivia, à tangente, em Angola, com a sua família, nas condições possíveis à beira de uma guerra civil. Se tinha algo na mão, com certeza não era um cravo; era a espingarda apontada aos arbustos. O meu avô, contudo, nasceu a 25 de Abril de 1940.
O 25 de Abril é um dia de celebração da Liberdade: o meu avô não participou nessa conquista; mas, hoje, é parte de uma Nação livre, que ajudou a defender, no seu tempo mais negro de sempre, e que, com orgulho imenso, devemos honrar, respeitar e valorizar. O meu avô pensa como um Homem Livre. Age como um Homem Livre. E, posso dizer, ajudou-me a ser, também, um Homem de pensamento e ação Livres. Terei sempre orgulho no homem que me fez ter noção das responsabilidades mais duras. Da vida. Da importância do combate; que me educou e reeduca constantemente num sentido de pura orientação cívica e social. Um homem que – com stress pós-traumático, pesadelos imensos e traumas de guerra – conseguiu convencer o neto de que toda a guerra, tendo participado nela, é um crime contra a Humanidade.