
Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Uma década é muito tempo, são dez anos, mas uma década de serotonina pode parecer tempo a mais na vida de um jovem – na verdade, é o tempo necessário.
Nem por acaso, há uma década que operacionalizo a minha vida pessoal, e profissional, através de ajuda clínica especializada, ajuda que é principalmente para alguém que, devido a problemas de saúde diversos, permanece numa demanda – muitas vezes, bastante solitária – de mudar de vida.
Se não mudarmos de vida, a vida muda-nos. Então, toda a ajuda é bem-vinda
Quando fiz 18 anos, em 2016, devido a vicissitudes várias na vida, comecei a ser seguido clinicamente, e, mais tarde, por outro clínico, com quem estou desde 2018, devido sobretudo à prevalência de problemas ligados à ansiedade bastante desregulada, a episódios recorrentes de depressão, bastante cíclicos e incapacitantes, entre outros fatores que se devem, entre outras causas diversas, a um défice meu na produção do neurotransmissor essencial para a regulação do humor, do sono, do apetite e da digestão, e que pode ter um impacto significativo na saúde física e também mental – a Serotonina.
A falta de Serotonina, ou a sua redução, está intimamente ligado a problemas de saúde mental adjacentes, como: depressão, ansiedade, transtono obsessivo-compulsivo; transtorno de pânico; problemas no sono ou dificuldades digestivas.
Devido a essa “falta” permanente, a esse défice natural, comecei a tomar vários medicamentos, que me compensaram essa lacuna, entre outras – uns mais grandes e mais potentes do que outros, inclusive, e que tornaram, gradualmente, uma pessoa mais saudável mentalmente, mais operacionalizável, mas que, outrora sem peso a mais, ganhou um aumento abrupto de peso e excesso de problemas de saúde física, devido ao seu peso, até atingir mesmo a Obesidade (grau I).
Embora a minha saúde mental tenha melhorado imenso – e até estabilizado de forma positiva -, o que tenho é, contudo, crónico – a Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC), esta resultante por exemplo de um défice de serotonina. É algo que, na minha vida, tem sido recorrente e só tem sido efetivamente controlado, mas não definitivamente curado.
Hoje, 10 anos depois, com 28 anos, assinalo 10 anos de ajuda mental, de acompanhamento clínico especializado – de uma acompanhamento que, na verdade, acompanha tanta gente por esse país, que não se reconhece ou que se reconhece como precisando de ajuda.
Um conselho que dou a quem, como eu, tem algo crónico, para a vida, e que provavelmente precisará de alguma medicação, é este: faz por ti, cuida de ti, ajuda-te muito, quando sentires que precisas dessa ajuda tua, também.
Todavia, nem tudo é por via de medicamentos solucionável, apenas, embora ajudem. Uma coisa que a experiência, e a prática, me ensinou é que podemos regular os níveis de serotonina também fazendo exercício físico regular; atividades ao ar livre e com luz natural; controlando o stress; e comendo, por exemplo, alimentos ricos em triptofano.
Uma reflexão pessoal que deixo a todos os leitores: apenas há 1 mês, em dez anos inteiros de tratamento, é que comecei a trabalhar, realmente com vontade e afinco, na regulação da minha serotonina, não apenas por via medicamentosa, que já o faço há dez anos, mas por via também natural, ou seja, recomecei, de forma permanente, as caminhadas ou corridas ao ar livre, dois a três quilómetros por dia, bem como recomecei a comer de forma mais equilibrada e saudável.
Tudo leva o seu tempo a acontecer. E, agora, tento manter uma postura mais saudável, mais rica, menos dolorosa – também para mim, como para os outros que gostam de mim.

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Soube da infeliz morte de António Lobo Antunes, um magnífico ser humano, que viveu intensamente, e recebi a «sua» morte, via noticiário, com a óbvia tristeza de quem vê um «distante» escritor lusitano, um dos melhores de Portugal, a desaparecer do mapa dos vivos, e que, agora, finalmente, voa como um pássaro livre na cauda das nuvens soltas, cabendo, por vezes, quase na palma das nossas próprias mãos através dos seus livros e do resgate que fazemos da sua boa memória e das suas leituras.
Na verdade, e desculpem-me por isso, mas nunca li nada dele, confesso. Li algumas entrevistas avulsas, notas bastante soltas; sei, por alto, quem foi, sei o que escreveu; mas não compreendo realisticamente a sua narrativa densa, a sua obra – mas compreendo a sua geração.
Não se ensina António Lobo Antunes na escola, nem ele foi feito para uma descoberta apertada ou forçada; temos de ir de frente com ele, voluntários, que ele não vai sozinho connosco, e ainda bem. E temos de estar preparados para nos afundarmos nele, na sua narrativa.
Ninguém é sobretudo coletivamente irreparável, porque toda a gente tem de morrer e de partir, tem de desaparecer, logo toda a morte tem reparo na substância do mundo.
Não obstante, a única coisa que podemos aprender uns com os outros, por isso, é que todos nós somos uma perda substancial na vida de alguém em particular, e isso não é de se desmerecer; somos sem reparo, sobretudo dos mais próximos, de facto; mas muito pouco relevantes na vida e na circunstância da Vida, ela mesma, na sua mecânica, nas dinâmicas do Sol e da Lua, do vento e da maré, se quisermos.
Afinal, do que sei, o que podemos aprender com a morte é como não compreendê-la: é precisamente ignorando, de facto, a morte que seguimos, justamente, bem vivos na vida. O que podemos aprender com a morte é como não compreendê-la, de todo.
A infeliz, mas necessária, partida de qualquer ser humano, nas nossas vidas, deixa, nalgum lugar, um vazio branco, inesquecível e irreparável; eu chamar-lhe-ia o barulho do irreparável.
Deixa rasto num coração dormente, mais envelhecido, e por vezes assustado. A sensação de impotência e de pesada solidão num cadeirão, cheio de raízes e de memórias, mas agora despojado do seu dono, revela um eco de vazio irreparável, de qualquer coisa sozinha, agora despojada, um despovoamento e a sensação sólida de um desaparecimento subtil, mas incerto.
Depois da morte de um amigo, de uma pessoa, seja familiar ou conhecida, que é muito importante para nós, a vida muda, fica mais forte, mas, ao mesmo tempo, fica mais vazia e menos significativamente importante – e é esse peso irreparável que não se substitui, ele é substancialmente grande o suficiente para durar a vida toda, tanto que a morte é um peso doloroso.
Recordo, com saudade, figuras icónicas, e ilustres, da minha freguesia, por mero exemplo, e delas, e através delas, vejo não elas mesmas, na sua imagem, mas um tempo que se foi definitivamente embora.
Vejo a minha infância e juventude, as que já não voltam mais, e vejo uma geração diferente que foi substituída, irreparavelmente substituída por outra.
Com tudo isso, sinto que algo morreu pelo caminho; mais do que a morte de alguém, morreu uma geração uniforme, morrem gerações mais ou menos concisas, gerações de costumes, de tradições, de práticas, de vivências, de memórias, de aspereza, de dureza e de dificuldades vividas.
A geração que conheceu os pés descalços e a fome está a desaparecer. Por um lado, é bom, excelente sinal; por outro, pode ser impactante o suficiente no nosso futuro e na forma como vivemo-lo; pode ser imprudente desvalorizar isso.
Afinal, como não compreender a morte senão através da vida? Olhemos os álbuns do passado, alguns bem feitos, e reviremos a história, compreendamos gerações de trabalho inteiras, e prestemos homenagem a quem, desaparecendo, levou consigo uma geração de enormes dificuldades e desafios.
A morte de António Lobo Antunes, mais do que a importância da sua rica narrativa, provoca-me essa sensação de viva impotência: de que algo muito importante está-se a ir embora de nós, de que algo já não volta mais – não a pessoa, mas uma fibra de gerações inteiras que, substituindo-se no Tempo, estão vagamente, e lentamente, a sair do palco.

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Faz, este mês de fevereiro de 2026, um ano e três meses sobre a partida do meu avô Sargento António Tavares, que vi morrer, após uma longa apneia, nos Cuidados Paliativos, a 26 de novembro de 2024.
Para quem duvida e desvaloriza o sacrifício que tantos militares portugueses, antigos combatentes, fizeram no Ultramar, digo-vos que a guerra não se acaba, mesmo após terminada: deixa marcas, profundas e indeléveis, traumas e um «stress» que tirou noites de sono, entre infinitas insónias e graves pesadelos, ao meu Avô, que os pude presenciar na primeira pessoa.
O meu avô, à época, não teve a oportunidade de assistir ao funeral dos seus pais, porque estava em África; sequer teve uma chance de se despedir deles. Estava embarcado, e só recebeu a notícia, por telegrama, muitos dias após o seu falecimento.
A guerra ceifou, mais do que vidas, gerações inteiras, entorpeceu saudades e gerou pesadelos e distância.
Gostaria, portanto, de aproveitar este «espaço» no Diário da Lagoa, para confessar, relativamente ao Sargento Tavares, um pouco do seu percurso militar e de combate.

É de forma grata, e expressiva, que recordo o meu Avô Sargento-Ajudante António Tavares, ou o Furriel e Sargento Tavares, lagoense nascido a 25 de abril de 1940, e é de forma reconhecida, e também grata, que recordo o brilhante aluno, de Santa Cruz, o primeiro estudante do sexo masculino, natural de Santa Cruz, à época, a ir estudar para o Liceu Nacional de Ponta Delgada.
É de forma grata, e expressiva, que recordo o meu Avô, que foi um dos primeiros açorianos a integrar contigentes militares destinados ao combate ativo; a incorporar Companhias militares preparadas e destinadas a lutar em solo africano, onde travariam a detestável Guerra Colonial, estando, ele, e nomeadamente, integrado numa companhia de Portugal Continental.
É de forma grata, e expressiva, que o recordo: com o seu sorriso terno, o seu sentido de humor e, acima de tudo, com uma palavra de apreço pelas coisas simples da Vida: um café, um pastel de nata, uma colher de gelado de baunilha.
O meu avô António Tavares foi dos poucos combatentes portugueses que travaram quatro comissões de serviço no Ultramar Português. De 1962 a 1975, interpoladamente durante oito anos efetivos, em zonas de alto risco e de perigo para a sua vida e da sua família, o meu Avô António combateu e lutou pela Pátria, seja em Angola, seja na antiga Província da Guiné.
Para além disso, recordo-o, ao meu Avô António, como um herói de combate, em zonas de alto sacrifício e de vida, que sacrificou, inclusive, a própria vida pela vida dos seus amigos e dos seus camaradas militares: assim o foi a 5 de julho de 1963, quando, e indo junto com outros camaradas em socorro urgente após uma emboscada, o seu jipe militar pisou uma chamada «mina anti-carro», que vitimou vários soldados e um Capitão, mas poupou o meu Avô, e a sua vida, por milagre.

Incorporado, à altura, em Bessa Monteiro, Norte de Angola, no Batalhão de Artilharia 400 – com o cognome de “OS GATOS” -, ao meu avô foi-lhe sugerido, por razões de saúde e traumáticas, nessa altura, que regressasse à Metrópole, em Lisboa, algo que ele, na hora, recusou, preferindo continuar a acompanhar os seus camaradas militares.
No final da sua vida, o grande sonho do meu avô era ver-me, a mim, seu neto, Licenciado. Tal veio a suceder, sim, e precisamente, conforme atesta o diploma emitido pela Universidade dos Açores, a 5 de julho de 2024, precisamente – e quem diria… – também precisamente 61 anos após essa emboscada fatal, que poderia ter mudado tudo, destinos, rumos e vidas.
A vida tem dons infinitos e infinitos mistérios para nos contar.
A seu tempo, fazendo uma brilhante carreira militar, no ramo de Artilharia, do Exército Português, o meu avô, inúmeras vezes louvado militarmente, foi, nos anos oitenta, condecorado com a Medalha de Mérito Militar, uma das mais altas honras militares em Portugal.
Devemos-lhe, como devemos a todos os antigos combatentes, as maiores honras, memórias e tributos.

O jovem autor e professor lagoense Júlio Tavares Oliveira, de 28 anos, prepara-se para lançar a sua mais recente obra poética, intitulada «Por ser Árvore». O evento de lançamento terá lugar no próximo dia 30 de maio, pelas 18h30, na Sala de Leitura da Biblioteca Municipal Tomaz Borba Vieira, e contará com a apresentação do poeta e escritor Pedro Paulo Câmara.
Após um interregno de três anos sem eventos literários presenciais, o autor, que soma já dois prémios de poesia, regressa com uma obra sob a chancela da editora Reticências. O livro congrega uma seleção de poemas inéditos e alguns dos seus melhores textos já publicados.
Segundo o autor, em declarações ao Diário da Lagoa, a obra “reflete uma atitude de aceitação perante o mundo e as circunstâncias pessoais de cada um”, descrevendo-a como o espelho de uma vida jovem, mas “repleta de luzes e de sombras”. A capa, que ilustra uma flor de outono a cair sobre a palma da mão, simboliza essa “aceitação plena e grata do nosso Destino”.
Com prefácio da escritora florentina Gabriela Silva, antes do lançamento oficial haverá uma pré-abordagem apresentacional a 17 de abril, na Escola Básica Integrada de Água de Pau, em contexto escolar, também com a presença de Pedro Paulo Câmara.
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses, pós-graduado em Português Língua Não Materna (PLNM) e atualmente mestrando em Estudos de Língua Portuguesa pela Universidade Aberta de Lisboa, Júlio Tavares Oliveira possui uma vasta formação em áreas como Escrita Criativa, Educação Não Formal e Inclusão. Após ter exercido funções como docente de PLNM no Colégio do Castanheiro, em Ponta Delgada, no ano letivo 2024/2025, o autor dedica-se atualmente à certificação de estrangeiros em diversos pontos do globo, promovendo a Língua e Cultura Portuguesas para fins de obtenção de nacionalidade.

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Sou colaborador, subscritor e parte ativa da história e da vida do Diário da Lagoa desde a sua fundação. Talvez poucos se recordem, ou mesmo saibam disso, mas essa colaboração quase nunca foi paga ou teve dividendos nenhuns – e, se o foi, foi um pagamento meramente simbólico.
Durante um ano, colaborei, em regime de voluntariado com o Diário da Lagoa, diretamente na sua redação.
Conheci o Norberto Silveira, picaroto de nascença, como poucos, na sua faceta de jornalista: escrevi, aliás, sobre ele; ouvi-o, escutei-o, caminhei com ele, trabalhámos várias vezes juntos e, acima de tudo, aprendi muito com ele sobre o princípio do jornalismo. Conheci, também, as suas dores e anseios – e as ideias que tinha para o futuro do seu sonho: para o jornal Diário da Lagoa.
Noutros tempos, colaborei, de novo, com o Diário da Lagoa, ao abrigo de um programa de empregabilidade que existia à altura, de onde recebia um pagamento de metade do salário mínimo à época – trabalhando quase a tempo inteiro e fazendo a revisão gramatical e ortográfica de todas as edições impressas, escrevendo artigos, metendo notícias na Internet, e afins.
Tenho todos os jornais guardados, desde a sua fundação, e, desses, em inúmeras edições impressas, muitos artigos escritos por mim: páginas e páginas, deste jornal ‘Diário da Lagoa’ com a sigla “JTO’.
Nunca tive qualquer acesso a carteira de colaborador. Foi-me proposta, pelo seu antigo diretor, mas, na altura, recusei e não houve essa oportunidade.
Da mesma forma que, quando Norberto Silveira, o fundador e antigo diretor do Diário da Lagoa, me anunciou a sua saída, fazia eu parte da redação, e metia as notícias no site, todos os dias, selecionando os e-mails e a informação, ele me propôs, duas a três vezes que ficasse com a direção do jornal. Proposta que recusei as duas e as três vezes.
Hoje, o jornal Diário da Lagoa está bem muito bem entregue – ao Clife Botelho, atual diretor, meu bom amigo, meu companheiro e que me dá, sempre, a oportunidade de continuar a colaborar como cronista.
Hoje, termino, antecipadamente, a minha história com o Diário da Lagoa, na função de cronista – para passar apenas a ser um mero leitor e atento subscritor.
Sou grato pela continuidade deste jornal, entregue a boa gente, entregue a gente humilde e capaz de continuar a sua história, o legado do Norberto Silveira, e capaz e de ombrear com os grandes jornais regionais.
Auguro todos os bons sucessos ao Diário da Lagoa.
Ficará, sempre, no meu coração e na minha memória.
Obrigado.

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
A Licenciatura. Esse grau, do espírito e da valentia, da virtude e da honra, que nos deveria meter num local de orgulho e lisonja, nos catapultar para o estrelato dos deuses, para o Olimpo do “grande” conhecimento académico. Ou para o primeiro degrau, aceitável, do Olimpo dos deuses, do qual o último talvez seria um conhecimento acima da média para mediana inteligência dos homens “banais”.
Faz um ano que me Licenciei, mas nos últimos anos, passei todos os Bojadores, os Mostrengos e as Boas Esperanças. As Tormentas, assim, renomeadas em Boas Esperanças que, sem fé, se renomearam, de novo, em Tormentas e, de novo, em Boas Esperanças. Fui, eu mesmo, Vasco da Gama; fui um Infante sem vento que me soprasse as velas apagadas, sem mar que me valesse para o casco frágil da vontade de continuar seguindo na turbulência dos dias e dos acontecimentos e da ausência.
Li livros, escrevi outros; rascunhei, fiz exames, frequências às várias dezenas e dezenas, ansiei saber mais do que soube; menos do que sabia e, tantas vezes, percebi que sabia menos do que pensava saber. Ou, às vezes, que saber muito só me fazia mal à cabeça, também. A Licenciatura, em qualquer curso, não é um grau, é um degrau – e podemos tropeçar nele, se não formos bons e humildes o suficiente para não enxergar o degrau no tamanho do seu tamanho.
Sou, hoje, licenciado, certo, mas sem esquecer, hoje também, que o que fica das nossas maiores conquistas são as nossas maiores derrotas. As derrotas fazem, fizeram a pessoa que sou hoje. A ansiedade, a nervosura imensa de um dia passado a contar as horas lentas, tantas vezes, fez com que nada, já, me assuste de morte.
A licenciatura não é, assim, um relevo de superioridade, nem um superlativo. A licenciatura é um (de)grau que nos capacita, dá licença, ao trabalho numa área, mas, e isso garanto, não nos torna melhores pessoas, nem mais humanos do que ninguém. Não é a credenciação que nos dá mais lustro ou brilho; é o nosso imenso coração. É a maneira como agimos, diariamente, perante as adversidades, perante o nosso irmão, que faz toda a diferença.
Os “envernizados” pelos créditos do conhecimento, assim se dizem, podem seguir sozinhos. Eu seguirei o mesmo, seja quando for: o Júlio, sempre igual a mim mesmo, sem honras, sem pompas, sem festas, nem roqueiras. E eu sugiro, leitores, que façam o mesmo. Não se deslumbrem. A vida é tão pequena, tão frágil, tão inconsequente, para nos distrairmos com pequenas coisas materiais que, afinal de contas, não nos adiarão a morte nem, tampouco, prolongarão a nossa vida junto dos nossos amigos.
O conhecimento é fundamental, sim. Os graus também. A educação é a base da sociedade. Mas nem tudo, nem todos, são frutos da mesma árvore. Da minha parte, só quero que a boa pessoa dentro de mim se revele hoje e sempre. Que a criança que eu fui nunca se desiluda da pessoa que eu sou hoje.

Júlio Tavares Oliveira
Escritor
Só se ama uma vez
Outro amor é fantasia
Só se ama em quem crês
Que o amor é noite e dia
Bem que o teu amor te dizia
«Quem vier depois não te diz
o que o anterior te dizia»
Que o depois não te condiz
O que o dantes te condizia
Pois não tem comparação
Só se ama uma vez
Uma vez só – sem exceção
O resto é demagogia
Quimera, sonho e espuma
Banho imerso na farsa bruma
Outro amor é fantasia.

Júlio Tavares Oliveira
Já, por vezes, nos questionámos, tantas vezes, em casa ou no café, ou mesmo ao relento na nossa cama, sobre o sentido «de tudo isto» – sobre as tantas vezes, mesmo, que errámos redondamente, sobre as mesmas tentativas falhadas, as inúmeras chamadas não atendidas, as mensagens ignoradas ou as relações falhadas; as mesmas ilusões sobre sonhos degradados; as mesmas dispendiosas desilusões amorosas sobre as mesmíssimas paixões atípicas não correspondidas.
Já, por vezes, com certeza, e ainda bem, nos questionámos, com angústia e desamparo, sobre a pessoa que amamos, e que se casou, no fim, com outro alguém – do porquê de tudo isto assim, sem conserto ou afeto; sobre aquele jogo que perdemos no último minuto da partida; sobre o penalti falhado ao poste; sobre o prato que caiu das nossas mãos e que se partiu no chão em mil bocados; sobre um mau dia no trabalho… Sobre tudo o que de mau (nos) acontece, e que sempre (nos) acontece só a nós.
Com certeza, caros leitores, e amigos, já vocês se questionaram, inúmeras e inúmeras vezes, sobre o propósito de estarmos todos aqui – juntos – a contar e a descontar os dias para um só dia: o da nossa morte.
Da minha curtíssima, e tangencial, vida – no meu recato de “estar” e de “ser” – apenas posso explicar e ecoar, discretamente, o som de outros que, como eu, e vocês, se preocuparam com estas questões e que, sobre elas, escreveram e pensaram.
Da minha vista ainda bem «curta» sobre estas coisas, posso dizer-vos abertamente que a vida, ainda que injusta, por vezes, tende a ser um quadro magnífico, e belíssimo, se encarado pela perspetiva mais bem enquadrada – ou mais certa. É como o magnífico ensinamento que nos convoca, sempre, a «dançar na chuva», reciclando, ou reaproveitando, uma circunstância difícil ou inglória e fazendo, dela, uma belíssima chance de criação magnífica e proporcionalmente bela.
Talvez o mais belo, tal como o vivemos, seja, hoje, tão menosprezado, seja tão mal-encarado como um fardo pesado, um mistério sem fim, um dom, uma tristeza deambulante, ou um meio sem princípio ou fim seguros e sem fio condutor que não seja senão intermitente; porque, apesar de estarmos todos corridos de destino e carregados de uma energia, boa ou má, e cheios de tempestades, e incógnitas sobre o nosso futuro ou de pensamento, lembremo-nos que a vida é uma breve passagem – e que a passagem é flexível e maleável às nossas próprias percepções e à forma como, pessoalmente, encaramos a própria viagem que fazemos.
A vida, em suma, é sempre uma pequena viagem pessoal que temos de fazer sozinhos – mas não é sobre a viagem da vida que vos escrevi aqui (cada um, aliás, tem a sua própria viagem a fazer, e todos somos diferentes e em alturas diferentes da nossa vida, também). É, antes, sobre como viajamos: se com excesso de bagagem, se sem. Se com medo, se sem. Se com confiança, se sem. Se com esperança, se sem. Se olhando a paisagem, e aproveitando o que o caminho nos dá, fruindo a beleza das coisas, se sem.
A vida é mais, muito mais, sobre como escolhemos viver – e se escolhemos, de facto, viver; é mais sobre as forma como estamos e encaramos a mesma. É uma escolha que tem de partir só de nós e não de mais ninguém.
A viagem poderá ser dura – por vezes turbulenta ou, quiçá, longa, demasiado alongada ou triste na demanda, ou procura, de um lugar verdadeiramente feliz. A viagem até poderá ser inglória, e, na tua cabeça, sem qualquer sentido. Nesse momento, confia no poder (e na responsabilidade que aloca uma oportunidade) que te foi dado: o poder da escolha. De escolheres, não a tua vida, mas a forma como a queres encarar.

Júlio Tavares Oliveira
É comum os psicólogos falarem de «perturbações de vinculação», sendo que, hoje, muitas pessoas debatem-se com diversos problemas como conflitos, inseguranças, ciúmes, possessividade ou até mesmo comportamento controlador. Muitos desses problemas têm origem no nosso tipo de vinculação ao outro.
O conceito da teoria da vinculação foi introduzido pelos psicólogos John Bowlby e Mary Ainsworth na década de 70 e, desde então, tem sido feita imensa pesquisa sobre o assunto – sendo o modo específico como alguém se relaciona com alguém nas suas relações particulares, sendo algo que, porventura, já fora moldado na infância em resposta à relação com os nossos cuidadores (em bebés).
Da mesma forma que alguém aprendeu (ou não) a amar, também aprendeu até que ponto se deve apegar, ou não, a outra pessoa. De acordo com a Teoria da Vinculação, existem quatro tipos diferentes de vínculos: Seguro, Preocupado, Evitante-desligado e Evitante-receoso, sendo que esses vínculos, todos eles, aplicam-se a todas as nossas relações e não apenas às românticas.
O que é importante perceber é que nenhum tipo de vinculação, aqui, é bastante pior do que o outro – a maioria baseia-se na insegurança, no medo e na falta de amor – dado ou recebido. Por exemplo, ser deixado ou deixar uma relação amorosa pode magoar imenso, mas até que ponto não será esse o fim natural, o desfecho natural da tua relação? Até que ponto não precisaste de dizer «adeus»? O hábito de criar, sempre, uma narrativa ficcional e inorgânica em torno daquilo que te aconteceu e acontece aumenta, sempre, a tua vinculação e a identificação com a situação – só estás, pois, a reforçar as perceções negativas quando dizes coisas «Claro que se foi embora, vão sempre». Só estás a aumentar, a alimentar, a tua dor.
A minha sugestão, caro leitor, é que comeces, já, a apontar a tua bússola para uma nova direção – para hoje! Concentra-se, antes, no que queres, não no que já tiveste. Por exemplo, é muito difícil ressuscitar um amor morto, mas podes usar o teu passado para te impulsionar para a frente, em vez de deixares que ele te arraste para o fundo.
Acima de tudo, observa que o teu desgosto, seja ele de que ordem for, está intimamente ligado à forma como vês o mundo. Esta visão pode ser definida por desconfiança, medo, autossabotagem, sentimento de importência ou vitmização. Contudo, tens, e deves, sempre, acreditar no teu potencial.
Prepara-te, também, caro leitor, para fazer algo fundamental na tua vida: perdoa e esquece. Quero terminar aqui fazendo uma pequena pergunta: podes perdoar o teu amigo, parceiro, familiar pelos seus erros, falhanços, fraquezas e esquisitices? Prepara-te, sim, para aceitar, perdoar, esquecer e, finalmente, para seguir em frente com compaixão e amor. Quando o fizeres, criarás espaço para que algo maravilhoso aconteça. Já sabes, não te atrases!

Contar isto, de uma maneira ou de outra, trará, aos presentes leitores, uma ligeira sensação de abandono. Ainda assim, este conto passa-se no Verão de 2001, na casa dos meus avós maternos, por baixo de um Sol abrasador. Situando-me, eu, no espectro temporal de me ver, assim, de súbito, desprovido das mais vivas sensações soalheiras, fui, por força, impelido, pelo meu Avô António Tavares a caminhar rua abaixo – e, por entre passeios, vi-me sozinho. O objetivo – dizia, repetidamente, o meu Avô – era o de chegar ao STOP, e de parar aí. Mas, naquele lugar a meio caminho, a minha súbita abstração numa qualquer sensação de insegurança impôs-se e tive de fugir, rapidamente, para trás – para os braços do meu Avô. Tentaremos noutra altura; noutro dia, de novo.
E chegou, passados dois dias, a chance de voltar a tentar: o objetivo, esse sempre o mesmo, era o de chegar, sozinho, sem mão ‘amarrada’ à minha, ao sinal de trânsito mais próximo, no final da rua. Seria uma vaga esperança, que me inundava o peito e se confundia com o chilrear dos melros nas árvores, que me fariam anuir a outra tentativa. Ninguém mais o faria por mim, senão o meu avô António; afinal, quem é que perde o seu precioso e magnânimo tempo a tentar fazer alguém chegar ao sinal de trânsito mais próximo? Ninguém no seu perfeito juízo; só o meu Avô, suficientemente “louco” para isso. Seria, de novo, nessa noção de que as pessoas são os momentos; e os momentos fazem as suas, as nossas, pessoas que me voltaria de novo para o meu Avô, a meio do trajeto, e correria para os seus braços. A chorar e com medo da solidão daquele trajeto de abandono. O meu Avô, apertando-me os braços com as duas mãos e pondo-se de joelhos, firme pronunciava que, no dia seguinte, voltaríamos a tentar. E lá, a meio da tarde, daquele Verão de 2001, voltávamos a tentar; a falhar e a ruir o nosso próprio caminho, entre um trajeto tão inseguro. E foram assim, continuamente, com mais ou menos choro, e muitas ansiedade, se passando dias e dias. Afinal, a maioria, naquele tempo e lugares, e perante aquele contexto, já havia desistido. Mas o meu Avô não, ele continuava, sempre, seguro na sua de que, um dia, haveria sozinho de chegar ao sinal de trânsito ao final da rua. Seria a uma sexta-feira que, voltando da escola, o meu Avô me propôs, calmo e com muita serenidade, que tentássemos de novo. Com a mão – a minha – segura à dele, propôs, então, que fosse, passo a passo, como quem se não segurava a nada e caminhava sobre uma ponte quase a ruir, até ao sinal de STOP, no fim da rua. Parecendo-me, quase a desistir daquela missão, um objetivo nada palpável, nem real, fui, interiormente, passo a passo, até dar o primeiro passo daquele longo trajeto. A meio dele, senti uma sensação, lá está, de solidão despovoada, de abandono e de insegurança que, num clima de ansiedade precipitando-se sobre os meus braços, pernas, peito, garganta e, sobretudo, a minha mente, consistiam no cenário de tentação absoluta em voltar para os braços do meu Avô. Mas não voltei. Segui, passo a passo, um passo de cada vez, em frente. E, aí, a escassos dois metros de distância do STOP (um recorde mundial já batido, para mim), e quase a desmaiar de ansiedade, parei. Pensei, para mim, que aquilo, ali, não teria significado nenhum para ninguém, senão – ao menos – para o meu Avô, que o queria deixar contente e orgulhoso de mim. E dei mais um passo sobre a corda ténue e trémula do destino. Aí, tornei a parar, parecendo-me tarde de mais para conseguir, e alternando na incerteza, nova, daquele sucesso tão perto, ouço o meu Avô ao longe: – “Está quase, só mais um bocadinho!” Fecho os olhos. Tremo. E prossigo. Cheguei, ao fim de dois meses de tentativas, ao STOP. O meu avô, ao meu toque no sinal, corre ao meu encontro e, com um forte abraço, selámos a nossa eterna amizade.
Fiquei a conhecer o meu avô nesse momento, e, agora, quero que todos o conheçam como eu o conheci também. Um homem absolutamente confiante no seu neto e que, talvez, e não desistindo dele, o tivesse feito avançar tanto no seu Caminho.
Com o seu falecimento, no passado dia 26 de Novembro de 2024, ficou um vazio difícil de preencher na minha vida. Terei, como ele me ensinou, de caminhar sozinho daqui para a frente. Mas na certeza, absoluta, de que ele me continuará, sempre, a guiar.