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Só na América

José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático

A expressão “só na América” era muito utilizada na minha infância para descrever produtos mais “evoluídos” que não existiam por cá e que chegavam através de familiares emigrados no Canadá ou nos Estados Unidos. A chegada de um “barril da América” era um acontecimento por si só, recheado de coisas doces e apetecíveis como pastilhas elásticas Bazooka Joe, chocolates Hershey’s ou manteiga de amendoim. Com o passar dos anos, muitos destes produtos acabaram por ganhar presença no nosso mercado, ou surgiram equivalentes locais, e a expressão passou a ser usada em tom jocoso e nostálgico.

Hoje, porém, a expressão voltou a ganhar relevância, desta vez de forma mais preocupante. Refiro-me a um conjunto de produtos e serviços que praticamente só existem na América, mais concretamente nos Estados Unidos: serviços digitais ligados às tecnologias de informação, sistemas operativos, serviços de computação em nuvem (cloud), segurança digital e, mais recentemente, inteligência artificial.

Os sistemas operativos são o software que gere todo o hardware de um computador, seja ele um portátil, um dispositivo móvel ou um servidor. Sem eles, os equipamentos são inúteis. No segmento dos dispositivos móveis, os dois principais sistemas operativos são Android (Google) e iOS (Apple) que detêm cerca de 99% do mercado global. No universo dos computadores pessoais, o domínio é igualmente concentrado: Microsoft Windows e macOS (Apple) representam aproximadamente 80% do mercado mundial.

Se passarmos para a infraestrutura da Internet, o cenário repete-se. No setor da computação em nuvem, Amazon Web Services (AWS), Google Cloud e Microsoft Azure, todas empresas norte-americanas, controlam cerca de 66% do mercado mundial. No caso europeu, a dependência é ainda mais evidente: aproximadamente 70% da infraestrutura cloud na Europa está alojada nestas três plataformas, enquanto apenas cerca de 15% se encontra em empresas europeias.

Nos motores de pesquisa, a concentração é ainda mais acentuada. Empresas norte-americanas detêm cerca de 91% da quota de mercado global, com destaque esmagador para a Google. No domínio das redes sociais, embora a medição seja mais complexa, a tendência mantém-se: estima-se que mais de 65% do mercado global esteja nas mãos de empresas dos Estados Unidos, através de plataformas como Facebook, Instagram, YouTube, LinkedIn e X. A única exceção verdadeiramente relevante é o TikTok, que, pelo menos por agora, não pertence a uma empresa norte-americana.

Mais recentemente, esta dependência estendeu-se ao domínio da inteligência artificial, um setor estratégico que está a moldar a próxima geração de serviços digitais. Os principais modelos de IA generativa e plataformas de computação associadas, utilizados em motores de busca, produtividade, programação, vigilância e criação de conteúdos, são desenvolvidos e operados quase exclusivamente por empresas dos Estados Unidos.

Este domínio tecnológico é acompanhado por um enquadramento legal específico: leis norte-americanas permitem que as autoridades exijam o acesso a dados armazenados por empresas sediadas nos EUA, mesmo quando esses dados se encontram fisicamente alojados fora do território americano. Em muitos casos, essas ordens judiciais incluem cláusulas de confidencialidade (“gag orders”), que impedem as empresas de informar os seus clientes de que os seus dados foram fornecidos ao governo. Na prática, isto significa que uma parte significativa dos dados de cidadãos, empresas e instituições europeias sendo processados por serviços digitais norte-americanos podem estar sujeitos a acesso governamental sem conhecimento dos titulares, levantando questões profundas sobre soberania digital, privacidade e autonomia estratégica, e diretamente contraditórias à legislação europeia de proteção de dados.

Esta situação não é nova. No entanto, o recente reposicionamento geopolítico dos Estados Unidos face à Europa, que tem fragilizado uma relação construída ao longo de décadas, torna este tema particularmente urgente. A Europa vê-se, uma vez mais, no centro de um dilema existencial: decidir se aceita a vassalagem digital ou se investe na autonomia estratégica necessária para sustentar a base da sua própria civilização moderna.

Exposição do Diário da Lagoa viajou até aos Estados Unidos da América pelas mãos do seu mais antigo cronista Roberto Medeiros

A exposição “Diário da Lagoa – 11 anos de Jornalismo e Desafios” é composta por várias capas marcantes do jornal ao longo da última década e está patente até este mês de janeiro em Fall River, onde estão também os tradicionais presépios da Lagoa. Em entrevista, Roberto Medeiros conta como foi levar a exposição até ao outro lado do Atlântico

Inauguração da exposição na Portugalia Markeplace no dia 5 de dezembro de 2025 © DIREITOS RESERVADOS

DL: Como é que correu a exposição do Diário da Lagoa nos EUA?
A exposição correu de forma extremamente positiva e com grande impacto junto da comunidade luso-americana. A exposição “Diário da Lagoa – 11 anos de Jornalismo e Desafios” teve o seu momento mais marcante no dia 5 de dezembro, pelas 18h00, na Portugalia Marketplace, em Fall River, coincidindo com a inauguração do Presépio da Lagoa.
Este espaço emblemático, reconhecido como verdadeiro ponto de encontro da comunidade portuguesa, recebeu importantes dignitários, entre os quais o presidente da Casa dos Açores em Fall River, o cônsul de Portugal em New Bedford e representantes das sete cidades irmãs de Lagoa nos EUA: Fall River, New Bedford, Rehoboth, Fairhaven, Dartmouth, Taunton (Massachusetts) e Bristol (Rhode Island).
Marcaram também presença muitos lagoenses, emigrantes, amigos e clientes da Portugalia, bem como o artesão-bonecreiro do Museu da Lagoa, cuja deslocação foi assegurada pela SATA Air Açores. A Câmara Municipal de Lagoa esteve representada não só por este artesão, João Arruda, como ainda por uma exposição complementar constituída por seis painéis, integrando figuras moldadas pelo próprio, numa mostra sobre a História da Arte inspirada em artistas internacionais. 

DL: Que feedback teve das pessoas que visitaram a exposição?
Le feedback foi profundamente emotivo e muito gratificante. A exposição despertou especial interesse entre aqueles que se reconheceram nas crónicas expostas, muitas delas dedicadas a familiares já falecidos, mas ainda muito presentes na memória dos imigrantes.
Houve reencontros inesperados de primos, amigos e vizinhos que não se viam há décadas. Muitos visitantes fotografavam-se diante da exposição, alguns visivelmente emocionados, com lágrimas nos olhos.
Importa ainda destacar que a exposição esteve igualmente patente na Biblioteca da Casa da Saudade, em New Bedford, em simultâneo com o Presépio da Lagoa. Nesse espaço, continua a atrair sobretudo os imigrantes mais antigos, que frequentam também o Centro de Assistência ao Imigrante, instalado no mesmo edifício.

DL: Que histórias pode partilhar sobre esta sua última viagem aos EUA?
Cada deslocação aos Estados Unidos é sempre marcada por reencontros com emigrantes que não via há décadas, alguns há mais de 50 anos. Abordam-me com orgulho, dizendo que são da Lagoa ou da vila e freguesias do concelho.
Tiram fotografias junto aos presépios e às exposições, e muitos fazem questão de levar os seus patrões americanos para mostrar o que se produz culturalmente na sua terra de origem. Alguns, de forma carinhosa, passaram mesmo a chamar-me “Roberto, o senhor dos presépios da Lagoa”.

DL: Tem ideia de quantas pessoas já visitaram os seus presépios e a própria exposição?
É impossível apresentar um número exato, mas desde a inauguração até ao meu regresso a São Miguel, no dia 13, alguns milhares de pessoas já tinham visitado os presépios e a exposição do Diário da Lagoa, registando momentos em fotografias com familiares e amigos.

DL: Quantos presépios seus estão expostos nos EUA?
Atualmente existem duas grandes exposições de presépios nos Estados Unidos: Uma, na Portugalia Marketplace, em Fall River, com cerca de 500 figuras de barro; outra, na Biblioteca Casa da Saudade, em New Bedford, com cerca de 700 figuras.

DL: Porque é que continua a expor nos EUA?
Porque é um compromisso profundo e duradouro com a comunidade luso-americana, assumido desde 1999, inicialmente enquanto vereador da Cultura da Câmara Municipal de Lagoa até 2009.
A partir de 2010 até 2025, esta missão prosseguiu por minha iniciativa própria, a pedido da própria comunidade, formalizada através de um protocolo de colaboração cultural, assinado por 54 instituições luso-americanas, garantindo a continuidade da realização dos Presépios da Lagoa nos EUA.

DL: Vai continuar a expor os seus presépios nos EUA?
Sem dúvida. Desde 2014, o Presépio da Lagoa está patente na Portugalia Marketplace, em Fall River, onde ganhou uma dimensão muito significativa, atraindo milhares de visitantes todos os anos.
A família Fernando Benevides detém hoje a “Embaixada do Presépio da Lagoa nos EUA”, tornando a Portugalia um verdadeiro espaço de representação cultural lagoense.
Porque, onde houver um Presépio da Lagoa na América, haverá sempre um pedaço da Lagoa, da sua memória, da sua cultura e da alma lagoense.