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De volta à base

Sara Sousa Oliveira
Diretora do Diário da Lagoa

Liderei o Diário da Lagoa durante 18 quentes meses de pandemia. Foram meses duros, difíceis e inigualáveis, como todos nós nos recordamos, e sublinho que escrevi três adjetivos similares seguidos, propositadamente. Anos depois, volto agora a assumir as funções de diretora deste jornal num contexto global bem diferente mas com o mesmo sentido de missão e responsabilidade. Não é uma missão fácil, liderar um jornal, já o afirmei no passado. Mas também é bom voltar a sentir de perto o pulso do papel. E, nesta nova fase, seguimos renovados: o lema “Notícias que contam” ganha mais destaque, porque de facto, é de notícias que contam que se faz o Diário da Lagoa.

Numa redação pequena, todas as ajudas contam: a contribuição consciente dos leitores que decidem ajudar, assinando o jornal e pedindo para o receber em casa, a escrita dos cronistas que decidem abraçar a causa, e a vontade de nos ler dos nossos leitores que, mês após mês, procuram a nova edição do Diário da Lagoa nos lugares por onde o deixamos, na Lagoa e fora dela. É desta matéria que somos feitos: de pluralidade, resiliência e ação. Não nos deixamos levar pelo imediatismo do acontecimento mas antes pela sua profundidade e proximidade com o açoriano comum. Levar “histórias que contam” às pessoas, a quem efetivamente pára para nos ler, contando-as, mostrando-as e na melhor das hipóteses, podendo ter o privilégio de tornar as suas vidas melhores, se isso for possível. 

A Lagoa está no centro da ilha, mas o centro da ilha não é a Lagoa. Por isso, histórias de cá e de lá são bem-vindas. Todos queremos saber quem é, o que se passa e o que traz quem nos é próximo, mas até a proximidade é relativa, no mundo global em que vivemos. Não temos todos de mostrar o mesmo, nem todos de ir atrás do mesmo. Gostamos de fazer diferente. E é isso que vamos continuar a fazer. Darei, por isso, o meu melhor para que continuemos a despertar a vontade de ler em quem nos procura.

Convento de Santo António acolhe última jornada do Torneio da Juventude em Xadrez

O concelho da Lagoa voltou a demonstrar a sua forte ligação à modalidade, num evento que reuniu jovens atletas e reforçou o estatuto dos Açores como a região do país com mais xadrezistas federados por habitante

© CM LAGOA

O Convento de Santo António, na freguesia de Santa Cruz, Lagoa, acolheu este sábado, 16 de maio, a última jornada do Torneio da Juventude em Xadrez, uma prova que movimentou o panorama desportivo local. A iniciativa foi organizada pela Associação de Xadrez da Região Autónoma dos Açores (AXRAA) e contou com o apoio estratégico da Câmara da Lagoa, segundo informou a autarquia em nota enviada à redação do Diário da Lagoa.

Presente na cerimónia de entrega de troféus, o vice-presidente da autarquia lagoense, Nelson Santos, fez questão de salientar o empenho e o dinamismo que a AXRAA tem demonstrado ao longo dos anos na promoção do xadrez. O autarca defendeu que a modalidade deve continuar a ser fomentada junto dos mais novos, destacando os seus benefícios no desenvolvimento de aspetos intelectuais e recreativos, tais como a concentração, o raciocínio, o cálculo mental, a autoconfiança, a tática e a estratégia, sem esquecer o seu papel na socialização e no respeito pelas normas.

A fechar o evento, foi recordado o estatuto de relevo que o arquipélago detém no panorama nacional: os Açores são atualmente a região do país com o maior número de atletas federados por habitante nesta modalidade. Esta forte adesão é bem visível na elevada participação que se regista nas iniciativas locais, sendo que, em 2025, a AXRAA alcançou um total de 280 atletas federados, na sua grande maioria jovens.

Governo regional anuncia apoios ao setor agrícola na abertura do Concurso Micaelense da Raça Holstein Frísia

O certame, que decorre no Parque de Exposições de São Miguel, serviu de palco para o anúncio de novas medidas de apoio aos agricultores açorianos, incluindo a amortização do gasóleo agrícola e fundos para a autonomia alimentar animal

© MIGUEL MACHADO

O presidente do Governo regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, presidiu à cerimónia de abertura do XXII Concurso Micaelense da Raça Holstein Frísia, um evento central para a lavoura micaelense que decorre no Parque de Exposições de São Miguel, na Associação Agrícola em Santana.

O líder do executivo aproveitou o momento de proximidade com a comunidade rural para destacar a relevância deste certame, promovido pela Associação Agrícola de São Miguel, afirmando que o evento se tem afirmado “pela quantidade e pela qualidade”, conquistando ao longo dos anos “credibilidade, confiança e prestígio”.

Na sua intervenção, José Manuel Bolieiro defendeu a importância do trabalho conjunto entre agricultores, associações e instituições, sublinhando que “o sucesso não se faz a pedido, faz-se trabalhando” e através da procura de soluções “em parceria”. Na ocasião, o governante aproveitou também para elogiar o Comendador Jorge Rita, a quem se referiu como “uma referência” no setor agrícola regional pela sua experiência e capacidade de representação.

No plano dos apoios concretos ao setor, que enfrenta os impactos do atual contexto internacional e o consequente aumento dos custos de produção, o governante anunciou que a Comissão Europeia avançará com a reserva agrícola destinada a apoiar os agricultores face ao encarecimento dos fertilizantes, permitindo aos Estados-membros recorrer a fundos comunitários. “Cá estaremos nós vigilantes, reivindicativos e acompanhando esta solução”, garantiu o presidente do Governo.

Adicionalmente, foi revelado que estarão abertas as candidaturas para a reconversão de explorações de produção de leite para produção de carne nas ilhas de São Miguel, Terceira e Graciosa, seguindo-se o arranque das candidaturas para o apoio à compra de sementes de milho e sorgo. Esta última medida integra a estratégia regional de reforço da autonomia alimentar animal, sendo que os Açores já atingiram os 14.500 hectares dedicados a estas culturas.

O executivo açoriano anunciou também uma majoração de 30% nos apoios previstos para compensar os impactos das intempéries na produtividade e garantiu uma resposta direta à subida do gasóleo agrícola. “O Governo assume amortizar até 10 cêntimos a subida do preço do gasóleo”, anunciou Bolieiro.

O XXII Concurso Micaelense da Raça Holstein Frísia conta este ano com a participação de 221 animais, integrando ainda no seu programa workshops técnicos, exposições e momentos de animação para toda a comunidade.

PSD Lagoa exige valorização salarial e fim da precariedade laboral na autarquia

O vereador Rúben Cabral apresentou uma proposta formal para corrigir situações de trabalhadores em regime de prestação de serviços que, há mais de uma década, asseguram funções permanentes sem direito a subsídios ou estabilidade contratual

© HUGO MOREIRA

A precariedade laboral na Câmara Municipal da Lagoa voltou ao centro do debate político pela voz do PSD, que reclama uma valorização salarial urgente para os colaboradores com vínculos instáveis. Segundo uma nota de imprensa enviada pela estrutura local do partido, o vereador Rúben Cabral tem insistido na necessidade de aproximar os rendimentos destes trabalhadores de “níveis mais dignos e justos”, alertando para o facto de muitos permanecerem, há mais de dez anos, com condições salariais inferiores às exigidas na Administração Pública.

A questão, que inicialmente foi levantada no âmbito da atividade do Aquafit, rapidamente se revelou como um problema transversal a diversos serviços municipais. De acordo com os dados expostos pelo autarca social-democrata em reunião de câmara, existem colaboradores a auferir cerca de 915 euros mensais durante 12 meses, ficando privados do direito a subsídios de férias e de Natal, apesar de garantirem funções regulares e permanentes no quotidiano do concelho. Para Rúben Cabral, esta é uma situação que ultrapassa a mera gestão administrativa: “não é uma questão técnica, é uma questão de justiça”. O vereador sublinha que o foco do debate não deve estar no modelo de gestão de equipamentos específicos, mas sim na “situação concreta das pessoas que garantem o funcionamento diário da Câmara Municipal da Lagoa”.

Na última reunião do executivo, o PSD formalizou uma proposta que visa não só identificar e corrigir estes vínculos precários, mas também promover uma atualização salarial que reflita a responsabilidade das funções desempenhadas. “São trabalhadores que cumprem horários regulares, asseguram necessidades permanentes e contribuem para o serviço público prestado à população, mas que continuam sem a estabilidade e o reconhecimento que essa responsabilidade exige”, defende o autarca. Rúben Cabral assegura que esta iniciativa é o culminar de um trabalho de acompanhamento de vários meses e que a autarquia lagoense deve ser “um exemplo de respeito pelos direitos laborais”. O social-democrata conclui reafirmando o compromisso de manter uma oposição firme e centrada nas pessoas, reiterando que “governar bem também é garantir justiça para quem, todos os dias, serve o concelho”.

Pavilhão Professor Jorge Amaral acolhe IV Festival de Dança “Som do Vento” no próximo domingo

Evento reúne oito grupos da ilha de São Miguel nos Remédios, celebrando a vitalidade do grupo anfitrião que, com 31 anos de história, continua a ser um pilar cultural na freguesia de Santa Cruz

© DIREITOS RESERVADOS

O Pavilhão Professor Jorge Amaral, nos Remédios da Lagoa, será o centro das atenções da dança regional no próximo dia 26 de abril. Pelas 15h30, o Grupo Som do Vento promove a quarta edição do seu festival de dança, um evento que promete transformar o concelho da Lagoa num palco de partilha artística e convívio. De acordo com a nota de imprensa enviada pela organização, a iniciativa contará com as prestações dos grupos Beat Breakers, ADV, Dancers Power, Venga Girls, Move Dance Crew, Hip Hop Azores e Estúdio 13, que se juntam ao grupo anfitrião para uma tarde dedicada aos mais diversos estilos de movimento.

Com mais de três décadas de existência, o Grupo Som do Vento atravessa um momento de grande dinamismo, contando atualmente com 28 elementos femininos divididos por três escalões. Sediada na freguesia de Santa Cruz, a associação mantém uma presença assídua na vida da comunidade, colaborando regularmente com a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia em festas populares, eventos de Natal e atuações de caráter social em lares de idosos. O rigor técnico das suas exibições é assegurado pela professora Vanessa Borges, do Estúdio 13, que orienta os ensaios semanais da formação.

A concretização desta quarta edição do festival conta com o apoio estratégico da Câmara Municipal de Lagoa e da Junta de Freguesia de Santa Cruz, parcerias que o grupo considera vitais para a sustentabilidade das suas atividades. Para além deste evento, a associação já se encontra a preparar a participação nas marchas de Santo António, reforçando o seu papel como agente ativo na preservação das tradições locais. O festival de domingo assume-se, assim, não só como um espetáculo de entretenimento, mas como um momento de afirmação da cultura e da expressão artística feita na Lagoa.

Lagoa celebra 504 anos de história com olhar focado na habitação e infraestruturas

O Convento de Santo António, na freguesia de Santa Cruz, foi o palco das comemorações do Dia do Município, onde Frederico Sousa traçou o roteiro estratégico para o futuro, conciliando a homenagem ao passado com novos investimentos na orla costeira e no setor social

© DIÁRIO DA LAGOA

A Lagoa assinalou, este sábado, 11 de abril, o seu Feriado Municipal, celebrando um duplo marco histórico: os 504 anos da elevação de Lagoa a vila e os 14 anos da sua ascensão a cidade. Segundo nota enviada pela Câmara Municipal à redação do Diário da Lagoa, a data foi celebrada numa cerimónia solene no Convento de Santo António, na freguesia de Santa Cruz, marcada por um balanço do crescimento sustentado do concelho e pela definição de prioridades para os próximos anos. O presidente, Frederico Sousa, destacou o percurso da Lagoa, considerando que hoje se apresenta como uma cidade moderna e dinâmica, assente na riqueza do seu tecido social e económico.

Durante a sua intervenção, o autarca lagoense fez questão de honrar o legado de quem moldou o concelho, prestando homenagem a figuras de relevo como os antigos presidentes do Governo regional, João Bosco Mota Amaral e Carlos César, presentes no evento. Frederico Sousa reconheceu o contributo decisivo de ambos na modernização da Lagoa através de investimentos estruturantes em áreas como a educação e a habitação. Outro momento das distinções locais foi a atribuição da Chave de Honra do Município a Luís Alberto Meireles Martins Mota, antigo presidente da Câmara.

Projetando os desafios, Frederico Sousa afirmou que “a identidade do concelho se constrói na preservação das tradições e do património humano e cultural”, enaltecendo a coragem dos lagoenses na ligação à terra e ao mar. O autarca elencou a habitação como uma das pedras angulares da sua estratégia, prometendo o reforço de rendas acessíveis e de loteamentos para autoconstrução. De acordo com o líder do executivo, este conjunto de medidas traduz “um caminho claro e consistente, orientado para uma Lagoa que honra o seu passado com respeito, vive o presente com confiança e projeta o futuro com ambição”.

No que respeita ao ordenamento do território, a autarquia pretende avançar com projetos como a reabilitação da Fábrica do Álcool e a requalificação da Escola Básica e Integrada Padre João José do Amaral. A valorização da orla costeira e o setor social, com o aumento de vagas em creches e a ampliação do Lar de Santo António, completam o plano de investimentos. Frederico Sousa terminou com um agradecimento coletivo, sublinhando que “é na força coletiva que reside a verdadeira grandeza da Lagoa”.

A Floresta que Cura: a jornada de renascimento de doentes belgas na natureza dos Açores

Cerca de duas dezenas de pacientes de um hospital belga escolheram os Açores para um projeto pioneiro que utiliza a natureza para promover a cura

Programa de terapias da natureza está a transformar a forma como pacientes encaram o seu processo de recuperação © CLIFE BOTELHO

No coração do Atlântico, onde o verde das criptomérias toca o cinzento das rochas vulcânicas, um grupo de cidadãos belgas percorre trilhos que são, simultaneamente, caminhos físicos e rotas de introspecção. O que os traz aos Açores não é o turismo convencional de contemplação, mas sim um projeto científico e terapêutico pioneiro que une a Universidade dos Açores ao hospital belga AZ Monica. Sob o conceito de Forest Mind (Floresta Consciente), este programa de terapias da natureza está a transformar a forma como pacientes com lesões cerebrais, burnout e traumas graves encaram o seu processo de recuperação.

O mentor desta iniciativa, o professor Eduardo Marques, da Universidade dos Açores descreve a semana como muito mais do que um intercâmbio académico. “Nós temos um momento de conexão humana, de interculturalidade”, afirma. “Temos aqui um grupo de doentes que vieram de um hospital belga aos Açores para um programa de reconexão com a natureza e terapias para encontrarem caminhos e estratégias para aumentar o seu bem-estar psicológico”.

A Ciência por trás da “Forest Mind”

Para os participantes, os exercícios serviram como espelhos das suas próprias vidas © CLIFE BOTELHO

A escolha dos Açores não foi um acaso geográfico, mas uma decisão clínica. Greet Dierckx, neuropsicóloga belga que trabalha com doentes com lesões cerebrais, explica a importância de tirar os pacientes do ambiente hospitalar. “É muito importante para eles aprenderem ferramentas para manter o cérebro o mais saudável e forte possível. A terapia baseada na natureza é um método muito forte para manter o corpo e o cérebro saudáveis”, refere a especialista.

Greet sublinha ainda que o mau tempo que assolou o arquipélago durante a semana acabou por ser uma ferramenta terapêutica inesperada: “A vida é desafiante. E esta semana foi muito desafiante em relação ao tempo. Mas aprendemos muito. Quando se faz em grupo, é ainda mais forte porque trocamos experiências e conhecimentos”, afirma.

Para os participantes, os exercícios serviram como espelhos das suas próprias vidas. Ann Willems, que se juntou ao projeto inspirada por uma amiga, utilizou elementos naturais para desenhar a sua “linha da vida”. Para ela, a natureza trouxe uma clareza necessária: “Isto representa-me. São lembretes para mim própria de que, na vida, temos de vir primeiro. Tens de estar saudável, forte e aterrada. Se estiveres segura, tudo o resto interage e a vida torna-se uma harmonia”, considera.

Essa mesma busca por harmonia é partilhada por Nadia Makrache, uma empresária que enfrentou dois episódios de burnout. Para Nadia, a surpresa foi a eficácia das dinâmicas: “tornou-nos criativos, tornou-nos calmos. Estávamos conscientes. Foi bom conectar com os locais e outras pessoas novas, sinto-me leve por partilhar”.”

Superar o trauma e a lesão

A eficácia da terapia mede-se pelo que os pacientes levam na bagagem de volta para a Bélgica © CLIFE BOTELHO

Para aqueles que lidam com sequelas físicas e neurológicas graves, a floresta ofereceu uma nova perspetiva sobre as suas capacidades. Romelia Schwarzkechel viajou como guia de uma amiga que sofreu um acidente de carro com danos cerebrais, mas acabou por se envolver profundamente no processo. “É uma jornada, claro. Tivemos a natureza bela e todo o tipo de novos exercícios como usar binóculos para testemunhar a natureza de uma forma diferente e ver como o cérebro responde ao olhar fisicamente de uma maneira distinta”, explica.

Helene Van Der Linden sofreu uma hemorragia cerebral há um ano e meio. Admite que inicialmente hesitou em participar por não querer estar num “grupo de doentes”. Contudo, a experiência mudou a sua visão: “como podem ver, não somos realmente um grupo de doentes. São apenas pessoas a encontrar uma nova forma de viver depois do que aconteceu.” Helene confessa preferir as atividades físicas: “a surpresa da natureza aqui é algo que gosto muito. Sinto que não temos apenas as quatro estações num dia, mas todos os tipos de natureza do mundo num só lugar. Parece a Escócia depois parece o Havai”, diz, referindo-se aos Açores. 

A eficácia da terapia mede-se pelo que os pacientes levam na bagagem de volta para a Bélgica. Peter Plusquin, que sofre de sintomas como “nevoeiro cerebral” e falta de concentração, encontrou nos Açores uma forma de ressignificar a sua condição. “A natureza desta ilha ajuda-nos a relacionarmo-nos connosco próprios. É como uma selva, mas uma selva fresca”, descreve. Peter leva consigo âncoras mentais dos exercícios realizados: “encontrei quatro ou cinco recursos que posso usar para me sentir melhor, são elementos-chave que nunca esquecerei. Ainda tenho os mesmos sintomas, mas acho que tenho mais formas de me relacionar com eles”. 

Um novo paradigma para os Açores

Pacientes do hospital AZ Monica de Antuérpia viajaram até aos Açores © CLIFE BOTELHO

O professor Eduardo Marques acredita que este é apenas o início de um caminho que pode transformar a região num destino de Turismo de Saúde e Bem-Estar. “Podemos utilizar a natureza, um recurso que temos espalhado por todas as ilhas, como um ativo importante em providenciar novas estratégias ao nível da saúde”, defende.

Mais do que isso, o projeto redefine o papel do assistente social moderno: “o assistente social pode assumir também uma função de terapeuta. Eu dispo-me do meu papel enquanto professor e assumo enquanto assistente social terapeuta, conduzindo sessões indutoras de renascimento individual”. 

Embora o caminho seja novo e possa gerar desconfiança, Eduardo Marques é categórico: “os resultados provam que esta experiência está a ser extremamente positiva e gratificante”. Nos Açores, entre a névoa e o verde absoluto, provou-se que a natureza não é apenas um cenário, mas poderá ser uma parte essencial da cura humana.

A passagem de testemunho: continuidade e compromisso com a Verdade e a Liberdade

Clife Botelho
Diretor do Diário da Lagoa

Em dezembro de 2019, assumimos um compromisso: dar continuidade a este projeto até que o jornal alcançasse, pelo menos, uma década de existência. Hoje, olhamos para trás com o orgulho de quem não só cumpriu essa meta, como a superou. Consolidámos um espaço de referência na nossa comunidade, somando já 12 anos de história pautados pela defesa da Verdade e da Liberdade.

A minha jornada na liderança deste periódico intensificou-se em julho de 2021, quando assumi a direção editorial. Antes disso, já trabalhava arduamente como responsável pela editora proprietária, prestando apoio à nossa jornalista Sara Sousa Oliveira e a todos os que dedicam o seu tempo a acreditar, connosco, que é possível. Da Sara, recebi um projeto alimentado por uma esperança renovada e uma visão de futuro clara: as notícias que contam.

Desde o início, o nosso trabalho tem sido um verdadeiro laboratório de media. Decidimos inovar, arriscar e, acima de tudo, aprender com os desafios que o jornalismo de proximidade nos impõe. E aprendemos que o jornalismo só é pleno quando compreendemos que ele não é, nem pode ser, um negócio, pois na verdade é um serviço público que exige altruísmo e a entrega constante de quem o faz — um compromisso para com todos aqueles que nos leem, aqui nas ilhas ou na nossa diáspora.

É, assim, com o sentimento de dever cumprido que anuncio a minha saída das funções de diretor. Passo agora o testemunho à Sara, que assume a direção para voltar a liderar os destinos editoriais deste projeto. Natural de Santa Cruz, na Lagoa, a Sara conta com mais de uma década de experiência em órgãos de comunicação social nacionais, além de estar na estrutura do Diário da Lagoa há seis anos.

Como ela costuma referir, gosta “mais de ouvir do que de falar” e “as pessoas são sempre a melhor parte das histórias” que cruzam o seu caminho. “O entusiasmo de poder contar o que acontece” à sua volta é o que a move. Assim, o jornal volta a ter a sua liderança e uma abordagem diferente, mas que, na minha modesta e suspeita opinião, só tem a ganhar.

Quanto a mim, manter-me-ei na editora, mas noutras funções. Somos uma família que luta diariamente para “pôr o pão na mesa”, como tantas outras no mundo. As nossas origens são humildes e tudo o que conquistámos foi fruto do esforço e da educação que os nossos pais nos deram — valores que transmitimos hoje aos nossos dois filhos, por isso somos responsáveis por projetos de pessoas para pessoas, porque somos, na sua essência, uma família.

Nesta nova fase, a Sara assume a responsabilidade pelos projetos jornalísticos e eu ficarei focado na área de comunicação e marketing. Embora o jornalismo seja um serviço público, o marketing garante os recursos necessários para que a nossa redação permaneça livre e totalmente independente de pressões externas. Trata-se de assegurar a viabilidade para que o rigor informativo continue a ser a nossa única bússola.

O jornal continua em boas mãos, fiel às suas raízes e adaptado aos desafios dos novos tempos. Agradeço a confiança de todos os colaboradores, leitores e amigos que me acompanharam nesta direção. Seguimos juntos. Obrigado a todos!

Carta Aberta ao Presidente do Chega Açores

Paula Catarina Andrade
Assistente Social
Cédula Profissional n.º 01018

Exmo. Sr. Deputado José Pacheco,

Na qualidade de Assistente Social, com mais de 25 anos de exercício profissional, sinto-me na obrigação de reagir às suas recentes declarações sobre o papel dos Assistentes Sociais nas escolas.

A afirmação de que “é um erro disfarçado de solução” é, convenhamos, digna de registo: revela um desconhecimento absoluto da profissão e, ouso dizer, do mundo real. Os Assistentes Sociais são, de facto, parte da solução para problemas que, talvez por distração, passam despercebidos à vista de alguns críticos de ocasião. Recordo que estamos a falar de uma profissão centenária em Portugal, com um percurso consolidado, regulamentado e reconhecido na proteção social e na defesa dos direitos das pessoas.

Permita-me começar por um ponto simples, mas elucidativo: a ideia de que poderíamos estar “com receio de perder o emprego”. Se algum dia o trabalho do Assistente Social deixasse de ser necessário, isso significaria que a pobreza, as desigualdades, a violência, a falta de habitação, as dependências, o abandono e a exclusão social deixariam de existir. Nesse dia, não haverá motivo para preocupação profissional; haveria, sim, uma conquista civilizacional extraordinária. Infelizmente, estamos ainda muito longe desse cenário na nossa Região.

A sua declaração evidencia uma compreensão limitada e um desconhecimento completo da nossa intervenção. Atuamos sobretudo na prevenção, capacitação e garantia de direitos fundamentais, e não apenas na remediação de problemas, como se o mundo fosse tão simples quanto um tweet de 280 caracteres. Trabalhamos para evitar ruturas, antecipar riscos e promover trajetórias de vida dignas e equilibradas, missão que não cabe em slogans populistas.

É importante esclarecer: qualquer pessoa, em qualquer momento da sua vida, inclusive V. Exa., pode necessitar da intervenção de um Assistente Social. Esta não é uma profissão “para os outros”; é uma profissão ao serviço de todos. Estamos presentes em escolas, hospitais, empresas, autarquias, tribunais, instituições sociais e no setor privado, garantindo respostas integradas e eficazes. Intervimos em áreas como educação, habitação, saúde, emprego, proteção social e reintegração, sempre com foco na dignidade humana e na justiça social.

No contexto educativo, a nossa intervenção é estratégica e estrutural. Numa Região com níveis preocupantes de abandono escolar precoce e insucesso educativo, as equipas multidisciplinares, compostas por psicólogos, assistentes sociais, professores e a comunidade educativa, são essenciais para compreender contextos familiares, sinalizar riscos, prevenir negligência ou abuso e criar condições para o sucesso escolar. Este trabalho conjunto não é acessório; é vital.

Ainda assim, os Assistentes Sociais nunca foram uma aposta consistente das políticas públicas regionais no setor da Educação ao longo de 50 anos de Autonomia Regional. A presença nas escolas tem sido residual. Trata-se de um erro estratégico, se se quiser usar linguagem técnica, ou de uma negligência, se se optar por linguagem quotidiana.

Também não podemos ignorar o impacto concreto de políticas sociais como o Rendimento Social de Inserção (RSI). Esta medida foi e continua a ser um verdadeiro elevador social: permite a jovens prosseguir estudos, completar formação superior e a famílias estabilizar a vida doméstica. Para quem insiste em olhar apenas para números frios, recordo que, em 2026, o RSI representa aproximadamente 0,4% da despesa total do Orçamento do Estado, uma fração muito reduzida face ao total da despesa pública, mas com um retorno social gigantesco. Poucas políticas públicas conseguem impactar de forma tão direta e transformadora. Ignorar isto seria, portanto, não apenas um erro político e social, mas também um exercício de flagrante insensibilidade estatística.

Preocupa-me, igualmente, o discurso que desvaloriza o conhecimento, simplifica problemas complexos e, em alguns casos, alimenta narrativas que promovem a divisão, o ressentimento e a estigmatização dos mais vulneráveis. A nossa Região tem um ativo extraordinário: as suas pessoas, açorianos e açorianas que todos os dias acreditam que a política serve para resolver problemas reais, e não para gerar manchetes provocatórias.

Outro ativo incontornável é a Universidade dos Açores, que há mais de 25 anos forma Assistentes Sociais com elevado rigor científico e técnico, fortalecendo o setor social e contribuindo decisivamente para a construção de respostas robustas. Desvalorizar o Assistente Social é também desvalorizar o percurso coletivo da academia no desenvolvimento regional.

A desinformação contida nas suas declarações, quando amplificada publicamente, tem consequências reais. Reforça estigmas, preconceitos e fragiliza respostas que deveriam ser fortalecidas. Se existe uma preocupação genuína com desigualdades e injustiças sociais, o debate deve ser conduzido com responsabilidade, evidência e respeito por quem intervém no terreno e não com slogans dignos de coluna de opinião de café.

O exercício profissional do Assistente Social rege-se por um Código Deontológico exigente, assente na dignidade humana, justiça social, equidade e defesa intransigente dos direitos. A nossa intervenção não se orienta por agendas políticas nem por narrativas simplistas; é técnica, fundamentada, eticamente comprometida e centrada nas pessoas.

Não tememos o escrutínio, ele faz parte da nossa prática profissional. O que não podemos tolerar é a desinformação que descredibiliza uma profissão cuja missão é garantir que ninguém fica para trás.

O essencial é o seguinte: antes de opinar, importa conhecer. Quando falamos de pessoas, desigualdades e direitos, a responsabilidade não diminui; ela aumenta.

Em jeito de sugestão, antes de se aventurar em novos diagnósticos sobre profissões centenárias, sugiro que se dedique a conhecer o terreno, ouvir quem intervém e compreender os desafios reais, e não apenas a lançar declarações provocatórias.

Com consideração institucional,

O bairrismo que está a afundar os Açores

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores

Há um problema nos Açores de que pouco se fala com frontalidade, mas que continua a condicionar decisões, atrasar o desenvolvimento e dividir aquilo que devia estar unido: o bairrismo entre ilhas.

Não falo de identidade local, essa é saudável, faz parte de quem somos e deve ser preservada. Falo, sim, de um bairrismo doentio, pequeno e muitas vezes alimentado por discursos fáceis, que transformam a realidade numa competição permanente entre ilhas. Agravado quando alguns personagens estão em lugares de decisão ou influencia.

E há uma frase que resume bem esse problema: “vai tudo para São Miguel”.

Repete-se como um mantra. Mas raramente é acompanhada de factos, dados ou análise séria. É uma frase que nasce mais da perceção do que da realidade, e, pior ainda, serve muitas vezes para justificar erros, ineficiências e falta de estratégia.

O desenvolvimento dos Açores não pode ser feito à base de slogans. Nem pode ser construído numa lógia de “tirar a uns para dar a outros”. Isso não é coesão. Isso é criar desequilíbrios.

Mas também é um erro, e convém dizê-lo sem medo, penalizar as zonas onde existe maior concentração populacional, maior atividade económica e, naturalmente, maiores necessidades. Escolas, hospitais, habitação, segurança, infraestruturas: tudo isso cresce onde há mais gente. Ignorar isto não é justiça. É negar a realidade.

Durante anos criou-se a ideia de que equidade significa replicar tudo em todo o lado, independentemente da escala, da procura ou da viabilidade. Essa visão não só é errada, como está a custar caro à Região.

Equidade não é igualdade cega. Equidade é garantir que todos têm acesso ao essencial, saúde, educação, mobilidade, dignidade, ajustando as respostas às realidades concretas de cada ilha.

E aqui começa o verdadeiro problema: exigir tudo, em todo o lado, sem assumir responsabilidades.

Não podemos exigir transportes marítimos regulares e eficientes e depois não ter capacidade de planeamento básico, como a criação de reservas quando sabemos que existem falhas.

Não podemos exigir ligações aéreas diretas para o exterior em quase todas as ilhas e, ao mesmo tempo, ignorar que muitas dessas rotas operam com baixa ocupação e prejuízos elevados. Obrigar companhias a manter rotas inviáveis não é desenvolvimento, é acumular problemas que alguém, mais cedo ou mais tarde, vai pagar. E, no fim, pagamos todos.

Curiosamente, muitos dos que mais falam em “centralismo” são, na prática, os mais centralistas de todos, não no sentido geográfico, mas no sentido mental. Defendem apenas o seu território, o seu interesse imediato, a sua ilha. Raramente os vemos com uma visão global dos Açores. Raramente os vemos defender o todo.

E é precisamente essa falta de visão conjunta que nos está a bloquear.

A realidade é simples: governar os Açores é, em muitos aspetos, como gerir uma família com recursos limitados.

Imaginemos uma família com rendimentos modestos e vários filhos. Todos querem o melhor, e é legítimo que queiram. Mas o orçamento não permite dar tudo a todos, da mesma forma, ao mesmo tempo.

Se a decisão for feita apenas com base em quem grita mais alto, a consequência é previsível: endividamento, desequilíbrio e, no limite, colapso.

Gerir bem implica fazer escolhas. Implica definir prioridades. Implica, muitas vezes, dizer “não” no curto prazo para garantir sustentabilidade no futuro.

E isso exige maturidade social e política.

Os Açores precisam dessa maturidade. Precisam de deixar para trás discursos fáceis e assumir uma visão estratégica, equilibrada e realista.

Enquanto continuarmos presos a este bairrismo pequeno, vamos continuar a desperdiçar recursos, a alimentar conflitos artificiais e a travar o desenvolvimento da Região.

A verdade é simples: ou pensamos os Açores como um todo, ou vamos continuar a perder todos, ilha por ilha.