
Rui Tavares de Faria
Professor e investigador
O leitor que tem seguido, com regularidade, esta coluna e que, até provavelmente, já foi ler Os Caracteres, de Teofrasto, esperaria que, por razões lógicas, ao décimo segundo carácter – o inoportuno – se seguisse o décimo terceiro. Mas, eis que optei por adulterar a ordem. Explico: os três tipos humanos que vêm descritos depois do retrato comentado no mês passado – XIII. O Intrometido; XIV. O Estúpido; XV. O Autoconvencido – caem um pouco na repetição de características das personagens sobre as quais tenho vindo a escrever. Para não entediar o meu leitor, passei para o décimo sexto carácter da lista teofrástica, XVI. O Supersticioso, porque se reveste de novidade e não torna – creio eu – repetitivo nem aborrecido este espaço do Diário da Lagoa, que se quer a priori leve e descontraído.
De acordo com o autor grego, “a superstição é simplesmente o temor do sobrenatural” (Char. 16.1.). À primeira leitura, não nos parece haver uma ligação direta ou explícita com o conceito que hoje temos de supersticioso. Maria de Fátima Silva esclarece, em nota à tradução portuguesa, que a “deisidaimonía [i.e. a superstição] exprime etimologicamente o temor dos deuses ou do sobrenatural e é, na justa medida, uma atitude de piedade, embora o risco de exagero a encaminhe para um temor ou subserviência exagerada perante o divino. A superstição leva à adoção de uma série de práticas fúteis ou a apelos constantes à divindade, como profilaxia contra um receio permanente de sinais de perigo que se inferem até das situações mais comezinhas.” O esclarecimento da tradutora de Teofrasto vem, pois, ao encontro, em larga escala, daquilo que consideramos superstição, nos dias de hoje. Contudo, esta atitude não se circunscreve, como bem sabemos, ao domínio religioso ou do culto sobrenatural. Atualmente, há muitas situações corriqueiras que manifestam receios que traduzem o carácter supersticioso do indivíduo.
Teofrasto diz que o supersticioso “é um sujeito que lava as mãos em três fontes, encharca-se em água benta, mete uma folha de louro na boca e assim fica preparado para começar o dia.” (Char. 16.2) ou “se um gato lhe atravessa o caminho, ele não dá mais um passo antes que alguém por ali passe, ou sem atirar três pedras pela rua fora.” (Char. 16.3.). Assim descrito, o leitor moderno já se revê ou já revê em alguém os traços de carácter motivados pela superstição. Quem é que ainda não recorre às folhas de louro e as guarda em recantos da casa ou na carteira, para garantir prosperidade, porque terá lido num blogue que é recurso do “tira e queda”? Quem, ao ver um gato preto que pode ou não cruzar o respetivo caminho, não pensas no mau agoiro que o episódio lhe poderá trazer? Quem não acredita que o treze é o número do azar e que a sexta-feira, calhando em dia treze, pode ser um dia fatal?
O temor que sente para que nada de mal aconteça leva o supersticioso a encetar um conjunto de rituais para se sentir protegido e abençoado. No Instagram, por exemplo, proliferam mensagens que alimentam esse temor. Frases do tipo “Se não digitar SIM, algo de maléfico irá acontecer nos próximos sete minutos…” ou “Há alguém que não deixa de pensar em você. O nome desse alguém começa pela letra do seu segundo contacto do partilhar em WhatsApp…”, enriquecidas por músicas de fundo que lembram casas assombradas ou cenas de filmes do Hitchcock. Estes jogos – que é, no fundo, do que se trata – estimulam a superstição que, por sua vez, se torna em crença, assumindo a forma quase de uma psicopatia.
Contudo, há outras superstições mais engraçadas que persistem. “Se passares por debaixo daquela escada, não cresces mais…”, avisa a avó que não quer que o neto de sete anos se afaste muito de si; ou “Se brindares com água, não terás sexo durante sete anos…”, adverte o conviva que quer é emborcar mais uns copos. Sempre penso no que dirá um(a) prostituto(a), que faz da prática sexual o seu ofício profissional, se for confrontado(a) com uma advertência dessas. E muitas mais superstições poderiam ser aqui listadas, às quais se juntariam aquelas em que pensa o meu caro leitor.
Mas, estando eu a escrever este texto na Sexta-feira Santa (uso a maiúscula como convenção ortográfica e em sinal de respeito pelos fiéis), creio que se me impõe um breve apontamento relativamente a um assunto que, por desconhecimento de muitos crentes, se tornou não numa manifestação de fé – mortificação voluntária –, mas numa superstição tola. “Em dia de Sexta-Feira Santa, não se come carne!”, alertam os supostos entendidos, pastores de rebanhos, para recordar o tom metafórico das Sagradas Escrituras. Não explicam, porém, a razão dessa prática! Há mesmo quem pense que não deve comer carne, porque é o dia em que Cristo morre, e estaria a “comer o seu corpo!” Não é disso que se trata. A Igreja Católica sugere a prática do jejum e da abstinência na Sexta-Feira Santa, o mesmo é dizer que o crente deve evitar tudo quanto dê prazer ao seu corpo, no dia da morte de Cristo. Deve começar pelo que come, portanto. Ora, antigamente, a carne era um alimento bem mais caro do que o peixe. Assim, na Sexta-Feira Santa, deve optar-se pelo jejum alimentício ou pela ingestão de alimentos que não traduzam o supérfluo ou o luxo. Hoje, está o peixe pela hora de morte! Como fazer, então, se a carne é bem mais em conta do que o peixe? Passar-se a vegetariano ou vegano?
Os supersticiosos continuarão, pois, a comer peixe, para não incorrer na desonra do pecado. Esquecem-se, ironicamente, de que há famintos pelo mundo inteiro para quem os ossos de uma costeleta de porco seriam um pitéu para fazer um caldo capaz de alimentar quatro crianças e dois adultos, fosse em que dia fosse de um qualquer calendário religioso. Assim sendo, que não se parta do ato genuíno de ter e expressar fé para o zelo desenfreado que desemboca na futilidade do excessivo “temor do sobrenatural”.