
Rui Tavares de Faria
Professor e investigador
Tendo desrespeitado a ordem estabelecida por Teofrasto para os seus Caracteres na última edição, passando cerca de meia dúzia de tipos humanos, pelas razões que assinalámos, hoje propomos uma releitura do XVII carácter: o Eterno Descontente. Trata-se do único retrato apresentado nestes moldes, isto é, além do determinante artigo definido “o” e do nome comum “descontente”, a tradutora da obra de Teofrasto opta pela inclusão do adjetivo “eterno” com o intuito de reproduzir o impacto semântico que o termo grego μεμψιμοιρία encerra. Segundo Maria de Fátima Silva, referindo ao título deste carácter em língua grega, “etimologicamente μεμψιμοιρία é o comentário desfavorável (μέμφομαι) à parte que cabe a cada um (μοῖρα), no que respeita à própria vida ou destino, ou seja, no quotidiano do indivíduo. O eterno descontente de Teofrasto é um indivíduo sem iniciativa, que se lamenta a cada benefício que o seu círculo social lhe proporciona.”
Assim, contrariamente ao que possa pensar o leitor contemporâneo, o descontentamento não é aqui sinónimo de ambicioso. Muito se ouve, ora como reforço pedagógico, ora como voto de estímulo, ora como mera “pancadinha nas costas”, a frase “tens de ser descontente”, porque isso permite ir mais longe, concretizar novos objetivos. Já Fernando Pessoa, no poema “O Quinto Império” da sua obra Mensagem, enuncia que “ser descontente é ser homem” (v. 13), mas não é neste sentido que se constrói o retrato do carácter teofrástico. Talvez por isso a tradutora tenha recorrido ao adjetivo “eterno” para qualificar o tipo caracterizado pelo autor grego, deixando no ar um certa ironia: se alguém é naturalmente descontente, sê-lo-á sempre; considerá-lo um “eterno descontente” é expô-lo ao ridículo e é isso o que pretende Teofrasto. Por isso – e como é habitual em termos estruturais –, o autor refere que “o eterno descontentamento é uma depreciação injustificada dos benefícios que nos cabem em sorte.” (Char. 17. 1).
Transpondo para os nossos dias o conceito apresentado, podemos afirmar que o eterno descontente é aquele que, tendo tudo para estar contente e ser feliz, insiste em queixar-se, não hesita em contrariar tudo e todos com a finalidade de manifestar que a (sua) vida é, afinal, um “eterno descontentamento” num sentido negativo. Estando tudo bem, para o eterno descontente falta sempre qualquer coisa; havendo sucesso pessoal e profissional, para o eterno descontente há sempre uma falha a apontar. E assim sucessivamente. O eterno descontente do nosso tempo é aquela nuvem negra e espessa que persiste no céu azul e não se importa com o desconforto em que vive e que causa aos que o rodeiam.
Do conjunto de traços elencados por Teofrasto para o retrato deste tipo humano, detenhamo-nos em, pelo menos, dois ou três. O eterno descontente “queixa-se de Zeus, não porque chova, mas porque a chuva veio tarde demais” (Char. 17.4) ou, então, “compra um escravo por um preço em conta, depois de muito marralhar com o vendedor: ‘Admirado ficava eu’ – comenta ele – ‘se, por este preço, tivesse comprado uma coisa de jeito’.” (Char. 17.6). Estamos certos de que, depois da leitura destes dois exemplos, já o meu caro leitor se terá recordado dos eternos descontentes com quem se cruzou e ainda continua a cruzar-se. São uns “chatos” de primeira categoria! Chiça! Nunca estão bem onde estão, nem com quem estão, nem por causa da razão por que estão. São a imagem do indivíduo que não está bem nem com a vida em geral, nem com nada do bom e do bem que a vida lhe deu e dá. Normalmente são pessoas sisudas, pouco sorridentes, aparentam uma tensão visível até fisicamente, sobretudo no modo como mantêm os ombros retraídos. Bem-sucedidos no trabalho, bem relacionados familiar e afetivamente, o semblante dos eternos descontentes reflete o contrário, uma apatia e falta de iniciativa que se tornam evidentes e desagradáveis. Nós, os que não nos tomamos por “eternos descontentes”, porque não o somos de facto, ficamos mesmo sem saber como abordar este tipo de gente…
Noutros casos, o eterno descontentamento estende-se a circunstâncias inusitadas. Teofrasto assinala que “chega alguém com a boa nova: ‘O teu filho nasceu!’ E ele: ‘Pois podes acrescentar que o património se me reduziu a metade, que não mentes!’” (Char. 17. 7) ou “depois de ganhar, por voto unânime, um processo, ainda censura quem lhe escreveu o discurso por ter passado em claro muitos argumentos de peso.” (Char. 17.8). Quem é que, no seu perfeito juízo, não explode de alegria com o nascimento de um filho? Quem é que não manifesta um alívio depois de ganhar um processo judicial? Ao que se pode deduzir dos Caracteres, há efetivamente um certo tipo humano que constitui a resposta negativa às duas questões colocadas. Haja paciência!
Tenhamos em mente que o descontentamento existe e que pode ser visto numa ótica positiva, quando associado à ambição comedida, à busca de algo que torna o indivíduo mais feliz ou contente; evitemos, pois, conceber o descontentamento como sinónimo de eterna insatisfação, tal um queixume ou uma lamúria incessantes. Afastemos a nuvem negra dos nossos círculos. Assim, cremos que não se torna possível o contágio de tamanha negatividade quanto à forma como vivemos e concebemos a nossa vida.