
DL: O que o fez aceitar o convite para concorrer à presidência da Junta de Freguesia de Rabo de Peixe, como independente apoiado pelo Partido Socialista?
É uma história engraçada. Como é sabido, em 2013, fui o número dois da lista encabeçada pelo atual presidente da Câmara da Ribeira Grande. Fiz o primeiro mandato e ganhei o gosto pela política. Desta vez, fui desafiado por algumas pessoas a liderar um movimento cívico e comecei a perceber o que seria necessário, os custos, etc. Recebi apoio de muitas pessoas, mas tive que parar para pensar porque, para Rabo de Peixe, um movimento cívico com todas as mudanças que acarreta, poderia não ser devidamente identificado/reconhecido pelas pessoas. Por outro lado, um movimento cívico acarreta despesas e não estava em condições de investir dinheiro do próprio bolso. Assim sendo, desisti dessa ideia.
Na interrupção letiva da Páscoa, a Lurdes Alfinete foi à minha casa e sabendo da minha vontade desafiou-me a concorrer como independente com o apoio do PS-Açores. Após ponderação em família, acabei por aceitar.
DL: E não está arrependido…
Não, mas estes primeiros meses foram particularmente difíceis porque levei para casa muitos dos problemas da população. Na primeira semana recebi muitas pessoas aflitas devido a ordens de despejo, famílias com menores a seu cargo…
DL: Mas são ordens de despejo emanadas por quem?
São pessoas que estão a ver os seus contratos de arrendamento terminar e os proprietários não querem renovar os contratos, uns porque querem vender os imóveis, outros porque estão em situações de herdeiros e querem fazer as partilhas, outros ainda pretendem investir em alojamentos locais.
DL: Esta transição de passar a figurar numa lista do PSD para outra independente com o apoio do PS… Como foi para si esta mudança e que feedback recebeu das pessoas que lhe são mais próximas?
No início, nas redes sociais, houve alguns comentários do costume. Mas tanto na primeira situação, como nesta, candidatei-me na qualidade de independente. E quando fui convidado a encabeçar a lista à Junta de Freguesia de Rabo de Peixe, a única condição que coloquei foi: a lista será totalmente feita por mim. E assim foi: escolhi o número dois, nós os dois escolhemos o número três e assim sucessivamente. Aliás, se prestarem atenção, a maioria das pessoas que aceitou integrar a nossa lista já tinha constado em listas do PSD. Mas são pessoas que se reveem na nossa forma de ser e de estar, nas nossas ideias, e isso é muito importante. Para liderar uma junta de freguesia, mais importante que a questão partidária, é a proximidade com as pessoas.
E a verdade é que eu, na rua, sempre senti o apoio das pessoas. Sou um filho da terra e para além de morar e trabalhar aqui, já fui escuteiro, pertenço aos movimentos da igreja e as pessoas souberam retribuir.
DL: Obviamente que ninguém se candidata para perder, mas acreditava que era possível ganhar?
Quando me candidatei, numa fase muito inicial, o meu discurso foi de contenção. Estava a candidatar-me contra dois adversários: contra Jaime Vieira que estava a sair da junta de freguesia e era o candidato à Câmara e contra a Anália que era a número dois do Jaime Vieira e candidata à presidência da junta de freguesia. Mas à medida que fomos saindo para a rua, senti que as coisas poderiam correr bem.
Somente entre o final da primeira semana de campanha e o início da segunda é que senti que poderia não ganhar porque as pessoas deixaram de nos acompanhar na rua, não via bandeiras do PS na rua, nas janelas, não via os miúdos. Notei um afastamento das pessoas na rua, mas felizmente não foi assim nas urnas.
DL: Qual a explicação para esse afastamento súbito das pessoas?
Havia medo! As pessoas vinham ter comigo e diziam: “estou noutra lista, mas vou votar em ti”. Ou “não posso estar contigo na rua, mas vou votar em ti”. Senti, e não foram poucas, que as pessoas estavam com medo. Mais parecia uma ditadura. Senti muito isso.
DL: Olhando para trás, revendo o percurso de meses até à noite eleitoral, qual foi a sua reação quando soube que tinha ganho as eleições?
No dia das eleições… aquilo é um ambiente horrível nas secções de voto. E sem fugir à questão, gostaria muito de retirar as eleições daquele espaço. Percebo que é próximo das pessoas, mas também é próximo de cafés, de oferta de álcool, e numas eleições com esta proximidade senti alguma tensão. Quando fui levar a minha esposa para integrar as mesas de voto atiraram-me uma pedra ao carro. Depois fui levar a minha mãe a votar e nem saí do carro. Quando fui votar à tarde, fiquei numa zona mais afastada e ouvi comentários a favor, outros contra, mas senti o ambiente muito tenso. Decidi ir embora pensando que estava perdido.
Ao final do dia, quando começaram a sair os resultados, estávamos com uma vantagem de duzentos votos por mesa. E o que era uma tristeza inicial foi-se transformando numa alegria imensa. Fiquei muito feliz, mas à noite, em casa, depois de tudo, veio o peso da responsabilidade.
DL: E que junta de freguesia encontrou no primeiro dia?
Foi caricato… Combinamos vir todos juntos. Quando chegamos já tínhamos oito senhoras à porta a dizer que íamos “oferecer casas”. Isto foi um sinal daquilo que encontrei, ou seja, as pessoas estavam sedentas de uma mudança e, também, de respostas. Respostas a questões que alguém andou a espalhar.
Encontramos uma junta de freguesia com poucos recursos humanos e no presente ainda são menos. Confrontando o executivo cessante o que nos foi explicado foi que as pessoas foram convidadas a ficar, mas a maioria quis regressar à câmara, pois são funcionários camarários que estavam ao serviço da junta de freguesia. Outros, porém, estavam a fazer programas de emprego e também regressaram à câmara.
Tínhamos quatro varredores, um jardineiro e um roçador. Naquela mesma altura, e isto aconteceu, é o que é, foram colocadas seis pessoas ao abrigo de um programa ocupacional. E após o apuramento dos resultados eleitorais, essas mesmas pessoas foram chamadas à câmara e recolocadas noutros locais. Algumas delas vieram fazer força junto de nós para regressarem a Rabo de Peixe e dessas seis, quatro voltaram. Neste momento temos dois varredores, um jardineiro e um roçador.
DL: E administrativos?
No registo do quadro de pessoal a Junta de Freguesia de Rabo de Peixe chegou a ter oito pessoas. Neste momento são três.
DL: Houve algum “mau perder” na base destas mudanças?
Não sei se foi mau perder. Sei que terminamos a passagem de pastas após a hora do expediente e já não havia funcionários ao serviço. Na manhã seguinte fiz questão de voltar à junta e já não encontrei o mesmo número de funcionários. O que sei é que eles dizem que foram chamados de volta à câmara, o presidente diz que voltaram por vontade própria. Foi vingança? Não sei! O que sei é que há histórias diferentes. O que sei é que há doze anos a casa continuou cheia apesar da mudança de executivo. Desta vez não senti isso. Não sei o futuro, mas no dia que sair da junta de certeza que não irei deixá-la como a recebi.
DL: E a nível financeiro, como encontrou a Junta de Freguesia de Rabo de Peixe?
O financiamento funciona por duodécimos, ou seja, as verbas são transferidas mensalmente. No dia 5 de novembro tínhamos cêntimos para combustível e alguns euros para apoio social. As verbas foram chegando e à medida que iam entrando já tinham para onde ir. Também, por esse motivo, optamos por não investir muito nas celebrações de Natal e passagem de ano. O pouco dinheiro que tínhamos foi para apoiar famílias com alimentos.
Tomamos essa decisão porque houve responsáveis de supermercados que nos telefonavam a dizer “tens de apoiar esta família porque veio comprar pescoços de galinha para fazer a ceia de Natal”. Não poderia investir em fogo-de-artifício na passagem de ano sabendo que havia pessoas a passar fome. Sei que não vou acabar com a fome, mas com o pouco dinheiro que tínhamos colocamos algum alimento na mesa de quem precisava.
O orçamento da Junta de Freguesia de Rabo de Peixe é elevado. São cerca de 800 mil euros. É muito dinheiro. Metade desse valor transita de 2025, na medida em que são verbas de contratos com o governo e a câmara que ainda não foram transferidas na totalidade.
Resumidamente: tínhamos um saldo de 300 mil euros de dívida, mas que correspondem aos valores que falta receber por parte da câmara ou do governo.
DL: A curto/médio prazo quais são as prioridades? Ou seja, o que é que é emergente acudir no imediato e o que pode aguentar mais uns tempos com um penso rápido?
A nossa grande aposta tem sido a limpeza. Só numa semana fizemos trinta e cinco transportes de lixo. Se somarmos a isso os verdes, ultrapassou os quarenta. Com os poucos recursos disponíveis, creio que demos um sinal claro do que pretendemos em termos de limpeza.
O executivo anterior candidatou a junta de freguesia ao programa Eco-Freguesias. E de acordo com o programa, à nossa entrada, estávamos num nível muito baixo e dificilmente conseguiríamos chegar ao nível 10. Não só o alcançamos, como o superamos. Atingimos os objetivos, o que significa que em pouco mais de dois meses fizemos mais do que havia sido feito nos dez anteriores. Mas não basta limpar. É preciso investir muito na parte pedagógica/educativa. Esta será uma das prioridades.
Com o apoio da Câmara da Ribeira Grande e do Governo Regional dos Açores, a habitação é outra das nossas preocupações. A Junta de Freguesia de Rabo de Peixe não tem meios para fazer rigorosamente nada no que concerne à habitação. É triste, mas é mesmo assim. Cabe-nos encaminhar, ser o rosto da população, mas só com o apoio da câmara e do governo é que poderemos apoiar as famílias.
A autarquia tem a medida dos 35 mil euros anunciada em campanha e que espero seja colocada em prática para apoio na aquisição de primeira habitação. A autarquia também pediu que ajudemos a procurar terrenos que se possam lotear, mas sem o PDM aprovado fica difícil qual o terreno a indicar porque não sabemos se terá viabilidade para construção.
Obras urgentes, e para arrancar quanto antes, é a requalificação do coreto, a resolução da questão do passo quaresmal que se arrasta há dez anos, o muro de proteção que não se percebe se está pronto ou não e dar alguma dignidade ao espaço sem esquecer as casas de banho que só pela sua localização já são polémicas porque encontram-se numa zona nobre em frente a igreja e poderiam estar noutro local; mas também por estarem em cima de uma falésia. Se estamos a retirar as moradias da orla costeira devido ao risco que apresenta, que sentido faz construir casas de banho junto à orla costeira? Tenho algumas dificuldades em perceber se aquelas casas de banho estão realmente seguras. Para além disso, aquando das mais recentes chuvadas, foi necessário fechar as casas de banho porque entrava água por tudo o que é lado. Uma construção com apenas dois anos, deficiente, que já sofreu obras de adaptação porque não tem acesso a pessoas com mobilidade reduzida.
Inicialmente, o acesso para as casas de banho de homens e mulheres era o mesmo. Numa comunidade como Rabo de Peixe, que se calhar ainda não está preparada isso, foi necessário alterar o interior para que se criassem acessos exclusivos. Conclusão: é uma obra que não oferece a dignidade que Rabo de Peixe merece.
É nossa vontade dar início ao processo de procura de um local onde se poderá instalar a Casa das Associações, um espaço que dê repostas necessárias ao nível da pernoita de romeiros, intercâmbios culturais entre filarmónicas, escuteiros, etc. E podem perguntar: mas uma vila tão grande não tem casas para arrumar romeiros? A resposta é simples: neste momento não porque as casas estão sobrelotadas, com quatro ou cinco famílias a viver no mesmo espaço.
Depois há o estacionamento que em Rabo de Peixe é o que é. A rua do Rosário é o que se sabe. Os parques estão sempre cheios e os que não enchem é porque não têm videovigilância e ninguém quer ver o seu carro vandalizado. A variante à rua do Rosário talvez seja uma solução, mas isso está nas mãos do governo regional.
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