
“Enquanto a gente jogava à bola ouvíamos as lavadeiras a cantar enquanto esfregavam a roupa no escorredouro da soada da ribeira.”
Quem eram as lavadeiras dalgum tempo? Das ribeiras, do Santiago, da rua da Ribeira, do Paul e até da Praça e dos Barrancos! Muita roupa se lavava à mão e muita outra em caçoada sobre a vida de uns e doutros. Também fazia parte, já se sabe e bem entendido!
Eu era criança e tinha ido com a nossa equipa de futebol da rua da Trindade jogar para o largo do Santiago, contra a equipa da rua do Boqueirão, do Victorino (Bizarro) e do Botelho. Lembro-me melhor destes dois, por serem os melhores do seu grupo. Jogávamos ao lado do campo de Cricket que ali havia na década de 1960. De vez em quando a bola ia parar à ribeira que correia ao lado, e, lá ia um de nós lá dentro apanhá-la. Enquanto a gente jogava à bola ouvíamos as lavadeiras a cantar enquanto esfregavam a roupa no escorredouro da soada da ribeira. De vez em quando uma gritava para nós, marcando sua presença na nossa atividade. Apoiavam as crianças do Boqueirão já se sabe! O Victorino era o seu preferido, pois fintava que se fartava! Entre as lavadeiras estavam as três irmãs “alforras”, Eduarda, Fátima e a Lurdes. Eu ainda não as conhecia bem, mas sabia pela mãe, a Tia Maria Alforra, que elas, tal como ela, também lavavam roupa para fora.
A Tia Maria Alforra era a lavadeira “diária” da antiga benemérita Marquinhas do Amaral, que tem rua com o seu nome na vila de Água de Pau. Quando a mãe não podia ir era a Lurdes que a substituía, contou-me a neta da senhora Maria dos Anjos Amaral, conhecida por toda a vida apenas por Marquinhas do Amaral. Ou, pela “Amaral de Água de Pau” como lhe chamava o Dr. Augusto Simas de Vila Franca quando aconselhava aos seus pacientes com membros deslocados ou fraturados a recorrerem a ela, desde as décadas de 1930 a 1960. Reconhecia-lhe ter raio X nas mãos e sensibilidade única na ilha para com um toque subtil recolocar ombros deslocados ou caídos pelo esforço de carregar cestos de batata, uvas e outros produtos da terra, no tempo das colheitas.
Voltando às lavadeiras, e à Tia Maria Alforra, que recordo mais dela na nossa casa, mas, não como lavadeira, connosco não exercia essa função.
Lembro-me dela com imensa saudade e estima do tempo da minha infância nas nossas matanças de porco, como cozinheira e nas festas de família onde havia muita gente para partilhar boa comida à volta duma mesa com bons e felizes momentos que gosto de recordar.
Aquela senhora era uma santa, tão boazinha e sempre meiguinha comigo e com toda a gente. E não digo isso apenas porque uma vez ela me escondeu debaixo das suas saias enormes rodadas que varriam o chão, para eu não apanhar alguma palmada de meu pai. Estava a brincar à bola no quintal com os meus amigos e partiu-se uma lâmpada fluorescente das maiores. Tínhamos sido avisados para ir brincar “à bola” para outro lado do quintal e tínhamos feito “orelhas moucas”.
Assim que se ouviu o estrelouço “pá!!” fugiram todos, pelos muros abaixo da quinta do vizinho António Batista “cão-da-rua” e eu fugi porta a dentro da “cozinha-de-derreter” porcos onde estava a Tia Maria Alforra junto do lar e das panelas.
Quando ela me viu entrar, adivinhando que coisa boa eu não tinha feito, ia eu esconder-me debaixo de uma mesa onde seria facilmente descoberto, mas ela puxou-me para debaixo das suas enormes e rodadas saias pretas que rasavam o chão. No imediato, meu pai entrou de rompante e perguntou por mim. Estava zangado.
– Para aqui não veio senhor Manuel! – Respondeu-lhe, sem cruzar olhos com ele para não se descair, mexendo agarrada a uma pá com as duas mãos o que estava dentro da enorme panela de ferro de três pés no canto do lar. Safou-me de uma boa reprimenda com safanão ou “bolacharia”, não sei.
Eu nem sabia se ela era viúva, mas à distância destes anos todos, acredito que devia ser pois eu desde que me lembro, sempre a conheci de roupa e lenço preto. Todos a adoravam na nossa casa, principalmente, minha mãe.
Muitas vezes quando as mulheres estavam juntas a encher chouriços e eu aparecia na cozinha e interrompia o trabalho delas, a Tia Maria Alforra levantava-se logo e sem eu bem saber ainda o que devia pedir, ela mandava-me sentar à mesa e colocava na minha frente, um pratinho com “merrinhos” de porco, que eram os pedacinhos de carne de porco que enchem os chouriços. Fritava-os para mim, enquanto o diabo fechava um olho. Muitos anos depois, por vezes eu fazia conversa com as suas três filhas, mas era com a Fátinha que mais recordava a sua querida mãe e as dificuldades que ela passara para criar a sua casa de família em tempos de pobreza e miséria franciscana. A sua querida mãe, contava-me ela, houve dias em que estavam em casa esperando por ela e por uma “escaldadinha” de pão de milho que ela trazia para matar a fome a toda a gente.
Se eu tenho razões para nunca a esquecer, quantas razões não terão as suas filhas Eduarda, Fátima, Lurdes e teve o falecido filho José Elias… e muita ou toda a gente que a conheceu?
Tal como esta santa, bondosa e humilde senhora Maria Alforrinha, muitas outras houve que atravessaram momentos difíceis e horas de amargura para sustentar a família com parcos recursos, muitas como ela, viúvas e com uma casa de gente para comer.
Eu cresci brincando e depois trabalhando na mercearia de nosso pai. Por isso, conheci, muitas dessas viúvas, velhinhas, quando iam á nossa antiga mercearia A Cova da Onça comprar, só aquilo que era indispensável para passar o dia. Uma serrilha de chá, dezoito vinténs de cloral, uma pataca de tessura (farinha) e era assim que iam distribuindo o pouco que tinham conseguido juntar. Vendia-se meia ou um quarto de barra de manteiga de vaca, o açúcar também se vendia na proporção da medida para o sal, mas na balança; uma maquia de açúcar (125grs=1$10), uma quarta de açúcar (250grs=2$20), meio quilo de açúcar(500grs=4$40) e 1kg de açúcar custava 8$70, durante toda a minha infância e juventude, até à revolução dos cravos em 25 de abril de 1974.
Nesse tempo, não havia ainda subsídios de “abono de família”, muito menos, de “rendimento-mínimo” ou outros apoios que hoje existem e que só os “pobres-de-espírito” ignoram que a eles também têm direito.
Cada fotografia antiga, como esta, tem tanta história. Quem me dera conhecer suas histórias todas. Gente que muito fez e deixou à nossa Vila de Água de Pau. Gente também ligada ao mundo de antigos ofícios e artes tradicionais desta terra, com destaque para a da cestaria, uma das mais antigas profissões, desde o seu povoamento. Quando penso que já vi muita fotografia antiga, e já vi centenas sobre as nossas gentes, cada dia que passa tem sido uma descoberta, então vou à procura da história de cada uma destas antigas fotos. É um enorme desafio, porque tenho aprendido e partilhado depois com as novas gerações de pauenses, através de crónicas, em livro, jornais, revistas e no Facebook, como foi e era a vida das gentes que proporcionaram aquilo que hoje temos em Água de Pau. Aquilo que o futuro nos reserva, graças ao seu esforço, décadas e décadas atrás, antes de nós. Obrigado e bem hajam os nossos antepassados pauenses. Honra e glória para eles.