
Antigamente, em Água de Pau, na Travessa da Arrochela, a tia Escolástica Maria Sombrinha da Costa Prenda que era mãe da Evangelina Arrepiada, mulher do tio António Carreiro Torolé, estava sentada na soleira da sua porta, e comentou dessa maneira, uma vizinha que tinha a porta da rua sempre aberta:
– “Parece a porta da mulher honrada!” Esta expressão é muito antiga desde o tempo do antigo concelho da Vila de Água de Pau.
A “porta da mulher honrada” ficava perto da casa da tia Escolástica e era de uma prostituta que recebia os seus “fregueses”. Vigiando, abria a porta, olhava de sobrolho para os dois lados da rua e num ápice puxava o “freguês” para dentro quando ninguém passava na rua.
Ora a mulher honrada queria manifestar-se contra a vizinha, mas não entrava em “brigas nem caçoadas”. Agia de forma para se demarcar da vizinha… e “deixava a sua porta aberta escancarada” todo o dia.
Por isso é que ela dizia, “a minha porta, «parece a porta da mulher honrada!», enquanto estava à sua porta sentada na soleira vendo passar as pessoas e fazendo trocadilhos com elas.
O tempo passa… Mas certas coisas não esquecem nesta terra quando se trata de duvidar também da honradez de gente que luta pela vida, não interessa qual seja a profissão. Já quase não resta ninguém para contar a história, mas é possível mergulhar no tempo e localizá-la após a revolução dos cravos de 25 de abril em 1974.
Quem não se lembra da oficina de serralharia e carpintaria do mestre Antero Pacheco Amaral na rua da Trindade, paredes meias com a casa do sapateiro-à-porta mestre Cristiano Afonso Rocha?
Um dia estava o mestre Antero junto de uma máquina de desengrossar ou limpar madeira, empurrando com as duas mãos descompassadas meio metro uma da outra, se tanto, um barrote de criptoméria. Tinha, como sempre, a sua cigarrilha no canto da boca e, talvez por isso mantinha um olho fechado devido ao fumo, pensa-se. A chiadeira daquela máquina podia ouvir-se nas ruas próximas, mas nunca incomodou ninguém porque o povo habituou-se.

Nisso, na Praça apeou-se da camioneta do Varela, conduzida pelo José Prata da Vila Franca, um indivíduo todo vestido de preto, de chapéu, óculos e até mala, tudo da mesma cor. Tinha uma aparência de alguém, como dizemos em Água de Pau, de “lêvedo de gordo, coberto de mosca” que é como quem diz, muito magro.
A sinistra figura assim que pôs o pé no largo da praça, mirou à sua volta e ouvindo o barulho da desengrossadeira da serragem, encaminhou seus passos para lá. Ali chegando, olhou para o seu interior, reparou no mestre e entrando aproximou-se dele tocando-lhe no ombro para dar a saber da sua presença ali. Queria falar-lhe.
O mestre Antero, olhou de soslaio para o indivíduo e fez-lhe sinal que aguardasse, fazendo sinal que ia desligar a máquina primeiro para depois se ouvirem melhor. A máquina ia vagarosamente reduzindo o som, enquanto o mestre Antero nem se dignava a olhar o dito cujo senhor de preto, mantendo-se de costas. O som já havia baixado o suficiente, mas quando o homem de preto ia começar a falar, foi-lhe pedido sempre que esperasse nas duas tentativas em que ia começar a falar.
Por fim, o homem pôde falar:
– Caro senhor, eu sou fiscal do trabalho e vinha aqui para…
Mestre Antero interrompeu-lhe a conversa de forma brusca sem pejo nem demoras.
– Você vinha? Você é fiscal? Quem lhe autorizou a entrar nesta oficina? Isso aqui é meu. Passe lá para fora, já!
O homem meio atrapalhado, virou as costas, e de empurrão caminhou para fora da oficina. Do lado de fora, no passeio, virou-se para o mestre Antero, zangado, e quando ia começar a explicar o motivo da sua ação fiscal à oficina, empolgou-se todo e em tom de voz autoritária, começa assim:
– Ouça lá, eu sou um representante da autoridade e venho aqui para…
Não chegou a dizer mais nada, porque mestre Antero já de costas para o fiscal, metera a chave à porta da oficina, fechará-a e meteu-se a caminho da rua da Trindade acima a caminho de casa, respondendo entre dentes ao cavalheiro:
– Está na hora de eu ir almoçar, agora não tenho tempo.
Desapontado, mas não dado por vencido, o fiscal manteve-se colado à porta da oficina, aguardando a sua reabertura.
Uma hora depois, mestre Antero vem descendo o passeio em passo ligeiro e quem o conhecia notava a sua passagem por causa do barulho dum mancho de chaves que se lhe pendia numa das algibeiras de trás dos alvarozes.
Quando o fiscal o viu aproximar-se predispôs-se a enfrentá-lo saindo da frente da porta da oficina para que a pudessem abrir. É o abres! O mestre Antero, passou pelo fiscal como se nem o visse ali à porta da oficina e dando um passo, saiu do passeio ultrapassando o fiscal e seguindo em direção à Praça, entrando para o café do Guilherme D’Árruda.
– Ó Guilherme dá-me um café e diz-me lá se daí vês uma nuvem preta á porta da minha oficina?
– Referes-te a um indivíduo de chapéu e mala preta? Se é essa a nuvem preta, ainda paira lá!
E sem mais conversa, pede para telefonar dali para casa, para a mulher, ao que lhe concederam sem problema.
– Leonilde, ó mulher, apronta-me um saco com um par de calças, duas camisas, peúgos e cuecas e manda o Mário Jorge vir-me trazer aqui ao Guilherme D’Árruda porque vou hoje para Lisboa. Assim foi e instantes depois o carro de praça do Artur dos Reis saía da Praça de Água de Pau para o aeroporto perante os olhos incrédulos do fiscal que se dirigiu então ao café.
– Diga-me senhor, conhece o dono daquela oficina.
– Conheço sim senhor, porquê? A que carga d’águas isso lhe interessa?
– É que eu sou fiscal e vinha verificar o seu quadro de pessoal e horário de trabalho, mas ele descartou-se que só atenderia depois da hora do almoço e acabo de vê-lo entrar e partir num táxi. Sabe se ele vai voltar para a oficina?
– O senhor me desculpe a franqueza, mas o que ele me disse e repito é que “não tinha paciência para lhe sofrer”!
– Homem eu sou uma autoridade, mereço mais respeito, veja como fala.
– Não me perguntasse… e já agora, isso aqui não é nenhum posto de informações! Temos serviço de café, taberna e restaurante!
– Bom, não se zangue homem, já agora diga-me que petiscos tem o senhor para acompanhar um copo de vinho?
– Petiscos? Só figos de figueira e tremoço. Mais o que é?
– Olhe se o vinho que vende aqui é como esses petiscos nem vale a pena, eu vou, mas é procurar melhor pinga e…
– Eu, se fosse a si, ia mesmo aqui, ao lado da porta, ao fontanário da praça beber água fresca para lhe refrescar a môrra (cabeça). E olhe que é de graça e corre fresca há mais de 100 anos, 24 horas por dia.
O fiscal, não sei se desiludido ou aborrecido, apanhou a camioneta do Varela e saiu de Água de Pau. Metera-se com a pessoa errada.
O mestre Antero foi politicamente evoluído. Emigrou para Angola. Ali não se adaptando regressou. No regresso o barco parou em S. Tomé e Príncipe. Encontrou Mário Soares, ali exilado. Conheceram-se quando este lhe pediu um cigarro e passadas algumas horas ganhou informação política para depois em Água de Pau os amigos pensassem que endoidecera ao chamar-lhes “fascistas” antevendo uma mudança de regime. Alguns anos depois o 25 de abril confirmou as teorias de mestre Antero.
Crónica publicada na edição impressa de março de 2023
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