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Açores – Onde o Marketing Político Tenta Esconder a Necessidade do Reforço Policial”

António Santos
Lic. Ciências Sociais
Presidente do Sinapol – Açores

Portugal acordou recentemente em choque com o cenário que mais parecia igual a um “filme de terror”, uma vez que a imprensa destacava o caso a uma mulher agredida e abandonada à sua sorte em plena A8.

Mas, enquanto o país se indigna com este e outros tantos casos mediáticos, assistimos noutras frentes a anúncios triunfalistas sobre a “baixa” da criminalidade. Como Presidente do SINAPOL e alguém com formação académica e policial para analisar estes fenómenos, sinto o dever de esclarecer, o que se celebra como vitória é, na realidade, uma verdadeira e perigosa armadilha estatística.

Exige-se, antes de mais, um maior profissionalismo político na apreciação e apresentação destes números. Ora, analisemos como exemplo, os crimes de violência doméstica (VD) na região, os quais não se resolvem com tabelas de Excel como muitos assim o pensam. A descida de 1061 para 989 ocorrências nos Açores, segundo o RASI, não espelha uma redução da violência, mas sim, “quiçá”, uma erosão da confiança no sistema. Quando os Açores apresentam uma taxa de criminalidade de 39,7‰ 1 (muito superior aos 26,5‰ da Madeira), celebrar uma descida residual é ignorar a “cifra negra” dos crimes que a APAV estima sere relativamente aos números que aparecem no papel, e isto porque, ao analisarem-se  os registos policiais e os pedidos de ajuda solicitados à APAV, verifica-se que o número de registos é inferior, contudo, as associações de apoio como APAV, registaram um aumento do número de pedidos de apoio, revelando que a estatística indica que o crime não baixou, apenas a confiança nas autoridades judiciais ou a capacidade de resposta diminuiu.

Os Açores não podem, uma vez mais, ser relegados para a condição de apêndice estatístico ou de nota de rodapé no Terreiro do Paço. A nossa geografia arquipelágica, de descontinuidade territorial reconhecida, impõe desafios logísticos e operacionais que Lisboa teima em ignorar sistematicamente. É inaceitável que a Região continue a ser penalizada por um cálculo político cínico, que prioriza a densidade eleitoral em detrimento da necessidade efetiva de segurança.

Não sejamos ingénuos, este viés economicista já se reflete no anúncio feito relativamente ao reforço das Polícias Municipais de Lisboa e Porto, onde o peso dos círculos eleitorais dita a prioridade do investimento. O que o SINAPOL exige é que a segurança dos açorianos deixe de ser aferida pelo coeficiente de deputados eleitos e passe a ser garantida pela vulnerabilidade real do terreno. A proteção de uma vida em Santa Maria ou no Corvo deve ter o mesmo valor político que uma vida em qualquer avenida das cidades de Lisboa ou Porto. A segurança não é um privilégio de quem tem mais votos, é sim, um direito soberano de quem vive em toda a sua extensão de Portugal.

Se o Governo reconheceu, em 2025, a necessidade efetiva de um reforço do efetivo policial, é tempo de passar das palavras aos atos. O fluxo turístico crescente, que em ilhas como São Miguel exacerba as tensões sociais e o custo de vida, exige uma polícia robusta, formada e presente. Na Madeira, o turismo mais consolidado estabilizou indicadores nos Açores, o crescimento desregulado sem o correspondente reforço policial é um convite à insegurança.

O SINAPOL tem sido claro, o otimismo dos gráficos não coincide com o sentimento de quem vive nas ilhas. É preciso parar de usar a segurança como ferramenta de propaganda, já que os números oficiais são apenas a ponta de um icebergue de sofrimento que continua a crescer fora do alcance das métricas.

A insularidade não pode servir de desculpa para o abandono. Exigimos o cumprimento da promessa de reforço de efetivos feita em 2025 e reforçada na Lei do Orçamento de Estado de 2026, garantindo que os agentes nos Açores têm meios para responder à violência grave que atinge picos históricos desde 2015, como é o caso dos registos da VD.

Como cidadão qualificado para analisar este tipo de fenómenos, afirmo que anunciar descidas com “alegria” num território onde o crime contra as pessoas é dos mais altos do país é uma falta de respeito pelas vítimas.

Precisamos de menos comunicados de imprensa e de mais coragem para admitir a realidade. Os Açores exigem investimento, não apenas porque a lei o impõe, mas porque a dignidade das vítimas de violência que sofrem em silêncio no nosso arquipélago não tem preço, nem pode ser ignorada por conveniência parlamentar.

1 A análise foca-se na taxa por 1.000 habitantes. Foram cruzados os dados do INE com o RASI, e daí, percebe-se que, apesar da descida nominal, o risco de ser vítima de crime nos Açores (39,7‰) é quase 50% superior ao da Madeira (26,5‰).

Filarmónica Nossa Senhora das Victórias celebra 40.º aniversário com concerto solene

© ACÁCIO MATEUS

Fundada a 31 de agosto de 1986, a filarmónica Nossa Senhora das Victórias, da freguesia de Santa Bárbara, concelho da Ribeira Grande, celebra neste ano o 40.º aniversário. O início das comemorações teve lugar na noite de sábado passado, na igreja de Santa Bárbara, com a realização de um concerto solene.

Largas dezenas de pessoas marcaram presença no evento que “concretizou um sonho” de um dos fundadores, Leonardo Cymbron, como referiu o filho e atual presidente da Direção, também ele Leonardo Cymbron. Na ocasião, o responsável pela filarmónica “agradeceu a abertura do padre Tiago Tedéu para a realização do concerto num espaço há muito ansiado”.

O concerto ficou marcado por uma profunda comoção, não apenas por a filarmónica se poder apresentar num palco desejado pelo falecido fundador mas, também, por servir de homenagem a todos os músicos falecidos, em particular o mais recente antigo músico falecido, José Cristiano Barbosa de Medeiros.

A filarmónica Nossa Senhora das Victórias conta com cerca de meia centena de executantes, a maioria deles jovens de tenra idade que nutrem a paixão pela música, orientados sob a regência do maestro Carlos Alberto Cymbron, também ele filho do fundador Leonardo Cymbron.

PJ dos Açores detém estrangeira com mais de dois quilos de heroína

© DIREITOS RESERVADOS

A Polícia Judiciária (PJ), através do Departamento de Investigação Criminal dos Açores, identificou e deteve, em flagrante delito, uma mulher com 23 anos, na posse de mais de dois quilos e seiscentas gramas de heroína.

Segundo comunicado enviado às redações pela PJ, a detenção ocorreu na sequência de uma operação policial desenvolvida na cidade da Praia da Vitória, na ilha Terceira, sendo a droga apreendida suficiente para 26.724 dias de consumo médio individual.

A detida, de nacionalidade estrangeira e sem antecedentes criminais, será presente às autoridades judiciárias para aplicação das adequadas medidas de coação.

Quando uma cidade de animais nos fala sobre nós

Micaela Pimentel

Quando a Disney lançou Zootopia 2 (ou Zootrópolis 2, como lhe chamamos por cá), muita gente esperava apenas mais uma aventura divertida passada numa cidade cheia de animais que falam. E, de facto, à superfície continua lá tudo: humor rápido, personagens carismáticas e um mundo visualmente vibrante. Mas, tal como no primeiro filme, por baixo da leveza existe algo mais incómodo e mais humano. Zootrópolis sempre foi, no fundo, um espelho.

Uma cidade onde predadores e presas convivem parece, à primeira vista, uma metáfora simples sobre tolerância. Mas a história vai mais longe. Fala de preconceito, de medo coletivo e da facilidade com que criamos narrativas sobre “os outros”. Em Zootrópolis, os estereótipos parecem caricaturais até percebermos o quão familiares são.

O filme lembra-nos que a convivência não é automática. É frágil. Basta um rumor, uma suspeita ou uma crise para que a desconfiança se instale e as diferenças se transformem rapidamente em linhas de divisão. Mas há uma dimensão da história que talvez seja ainda mais relevante: a relação entre poder, dinheiro e culpa.

Enquanto alguns personagens lutam apenas para provar que merecem um lugar naquela cidade, outros movimentam-se com uma liberdade muito maior. O verdadeiro antagonista da história não representa apenas maldade individual, representa algo mais estrutural. Representa a forma como o poder económico, político ou social pode manipular perceções e direcionar suspeitas.

E é aqui que personagens vulneráveis, como a cobra, ganham um significado particular. Tornam-se símbolos de algo muito comum nas sociedades humanas: a tendência para apontar o dedo aos mais frágeis. Aos que são diferentes. Aos que têm menos voz.

É mais fácil suspeitar de quem está exposto do que questionar quem controla os bastidores.
Na ficção, essa dinâmica torna-se clara. No mundo real, muitas vezes passa despercebida. Criamos rótulos simples para explicar realidades complexas, esquecendo que as histórias raramente são tão lineares como gostaríamos.

Talvez seja por isso que filmes como Zootrópolis funcionam tão bem. Porque colocam questões profundamente sociais num contexto aparentemente inocente. Uma coelhinha polícia, uma raposa trapaceira, uma cidade onde cada espécie tenta encontrar o seu lugar. Parece distante da nossa realidade até percebermos que não é.

No contacto com pessoas reais, percebe-se rapidamente que os rótulos quase nunca contam a história inteira. Há vidas marcadas por circunstâncias que não cabem em categorias simples. Há desigualdades invisíveis que moldam escolhas, oportunidades e até a forma como cada pessoa é vista pelos outros.
Zootrópolis não resolve esses problemas. Nenhum filme o faria. Mas lembra-nos de algo importante: a empatia não deve terminar quando a história acaba.

Porque, no fundo, aquela cidade de animais não é apenas fantasia. É uma versão ampliada das tensões, dos medos e das injustiças que continuam a existir entre nós.

No final, saímos do filme com a sensação de que aquela cidade de animais é menos fantástica do que parece. Porque, no fundo, Zootrópolis não é sobre coelhos, raposas ou predadores. É sobre nós e sobre a forma como escolhemos viver juntos.

Lagoa celebra 25 de abril com programa intergeracional

© CM LAGOA

O município da Lagoa promove, no próximo dia 25 de abril, entre as 10h00 e as 12h30, na Praça Nossa Senhora do Rosário, uma manhã de celebração da democracia, com um programa diversificado que envolve várias forças vivas da comunidade e convida à participação de todas as gerações.

Sob o mote “Manhã de Abril: Há Festa na Praça!”, a iniciativa pretende assinalar a Revolução dos Cravos num ambiente festivo, participativo e cultural, valorizando a liberdade, a memória coletiva e a expressão artística.

O programa tem início com a marcha da Liberdade, que contará com a participação das filarmónicas Lira do Rosário e Estrela d’Alva e do grupo de teatro “A Faísca”, que percorrerão a rua 25 de abril até à Praça Nossa Senhora do Rosário.

Ao longo da manhã, o público poderá assistir a diversos momentos culturais, como a performance “Desata a Voz: #Podias; #Era preciso”, pelo grupo de teatro, o concerto “Vozes que florescem”, pelo Grupo de Cantares Tradicionais de Santa Cruz em conjunto com a Associação Musical da Lagoa, e ainda um flash mob musical dinamizado pela Biblioteca Municipal Tomaz Borba Vieira com a Casa do Povo de Água de Pau.

Estará, também, patente uma mostra expositiva de trabalhos alusivos ao 25 de abril, desenvolvidos pelas valências dos CATL’s do concelho, bem como a iniciativa “Árvores decoradas: Ramos de Lã, Folhas de Abril”, com a participação de centros de dia e instituições locais, e a colocação de mandalas nas varandas da avenida 25 de abril, trabalhos realizados pelas avós do projeto “A avó veio trabalhar”.

Paralelamente, decorrerão várias atividades abertas à comunidade, incluindo pintura de rua (Arte Viva), feira do livro em segunda mão, atelier intergeracional do projeto “A avó veio trabalhar”, oficinas de expressão plástica para crianças, espaço de leitura “Histórias que Contam”, pinturas faciais e insufláveis.

Durante o evento, será ainda feita a distribuição de cravos pela Associação Jovem Lagoense, símbolo maior da Revolução de Abril, e estarão disponíveis barraquinhas no recinto.

Aula aberta aborda serviço social em catástrofes

© DIREITOS RESERVADOS

A Universidade dos Açores promove, no próximo dia 22 de abril, uma aula aberta dedicada ao tema “Intervenção do Serviço Social em Catástrofe: Desafios e Constrangimentos”, integrada nas comemorações do Dia Mundial da Terra.

A sessão terá lugar entre as 09h00 e as 10h30, no anfiteatro D.007, e contará com a participação do especialista espanhol José María Morán Carrillo, professor doutorado em Serviço Social e referência internacional na área da intervenção psicossocial em contextos de crise e catástrofes.

A aula aberta propõe uma reflexão aprofundada sobre o papel do serviço social em cenários de catástrofe, abordando temas como a intervenção em contexto de emergência, os primeiros socorros psicológicos e os desafios colocados aos profissionais no terreno, designadamente na articulação com mecanismos de proteção civil.

Esta reflexão assume particular relevância no contexto dos Açores, território marcado por riscos naturais diversos, como movimentos de vertente, chuvas intensas e fenómenos geológicos e vulcanológicos. Espaços como o trilho da Janela do Inferno, em que a UAc está a intervir, requer um outro olhar para o território, em particular para a vulnerabilidade das paisagens naturais e a necessidade de gestão de risco, mas também para os desafios associados à prevenção, resposta e recuperação em situações de catástrofe.

Nestes contextos, a intervenção do serviço social revela-se fundamental, não apenas no apoio às populações afetadas, mas também na promoção da resiliência comunitária e na articulação com entidades de proteção civil.

Com um percurso académico e científico consolidado, José María Morán desenvolveu a sua carreira na Universidad Pablo de Olavide, em Sevilha, onde lecionou e investigou nas áreas da intervenção psicossocial em catástrofes, epistemologia do serviço social e serviço social com indivíduos e famílias.

Ao longo do seu percurso, desempenhou funções de destaque, nomeadamente como coordenador da Comissão de Emergência do Conselho Andaluz da Ordem dos Assitentes Sociais Espanhoeis, cargo que ocupa desde 2021.

O investigador conta ainda com uma vasta experiência internacional, tendo sido professor convidado em várias instituições de ensino superior na Europa e na América Latina, incluindo a própria Universidade dos Açores.

Lira do Rosário homenageia maestro Humberto Subica

© LÚCIA TAVARES

A Praça do Rosário, na Lagoa, foi palco da segunda edição do Festival Maestro Humberto Subica, iniciativa promovida pela filarmónica Lira do Rosário e que, este ano, contou com a presença da filarmónica Imaculada Conceição, da freguesia da Lomba da Fazenda, concelho do Nordeste.

O evento, inserido nas comemorações do 106.º aniversário da Lira do Rosário, contou com um momento especial, nomeadamente quando o maestro Humberto Subica tomou a batuta para reger uma das peças, ele que no final do evento ouviu a filarmónica da casa interpretar a marcha “Saudação à filarmónica”, por ele escrita.

Entre as peças do concerto de homenagem a Humberto Subica conta-se as interpretações de Sinfonia da ópera Tancredi, Domingos Barros (pasodoble de Vítor Resende, Space Trip (com arranjo de Tiago Martins) e Português Suave (de Carlos Marques).

Câmara da Lagoa e Governo regional alinham prioridades para o desporto no concelho

Reunião entre o executivo municipal e o diretor regional do Desporto focou-se na requalificação de infraestruturas escolares e no apoio ao movimento associativo, com a autarquia a reiterar a disponibilidade para assumir a gestão de equipamentos estratégicos

© CM LAGOA

O presidente da Câmara Municipal da Lagoa, Frederico Sousa, e o vice-presidente, Nelson Santos, reuniram-se ontem com o diretor regional do Desporto, Ricardo Matias, para definir as prioridades estratégicas do setor desportivo na Lagoa. Segundo nota enviada pela autarquia, o encontro serviu para analisar as carências das instalações desportivas locais, os mecanismos de apoio ao associativismo e os principais desafios enfrentados pelos clubes e dirigentes do concelho. Durante a sessão, Frederico Sousa sublinhou o investimento contínuo do município, destacando a intervenção desenvolvida “quer no apoio regular às coletividades, quer na disponibilização de meios e equipamentos”, reforçando a importância do movimento desportivo local e da plena utilização das infraestruturas municipais.

Um dos pontos centrais da discussão prendeu-se com a necessidade urgente de qualificação de espaços que apresentam limitações de praticabilidade e problemas estruturais, com particular enfoque nos equipamentos desportivos da Escola Secundária da Lagoa e da Escola de Água de Pau. O executivo municipal aproveitou a ocasião para reiterar a sua posição quanto à gestão do Pavilhão da Escola Básica Integrada Padre João José do Amaral. A autarquia manifestou-se novamente disponível para assegurar diretamente a conservação e manutenção daquele pavilhão, defendendo que tal medida não só faz sentido por “razões de racionalidade económica”, como é fundamental para a “prática desportiva na ilha, permitindo reforçar a capacidade de resposta existente e promover uma distribuição mais equilibrada das diferentes modalidades”.

Para além das infraestruturas gerais, a reunião abordou temas específicos como a melhoria das condições para a prática do judo no concelho, modalidade que requer uma articulação conjunta entre as entidades para garantir o seu crescimento. No encerramento dos trabalhos, os responsáveis municipais reafirmaram a total disponibilidade para colaborar com a Direção Regional do Desporto, visando a valorização do desporto como um pilar estruturante na vida dos lagoenses e na coesão social do concelho.

Os Açores não estão condenados a serem pobres

Álvaro Borges

A Constituição da República Portuguesa confere à Região Autónoma dos Açores um regime político-administrativo próprio, assente na autonomia e na necessidade de responder às especificidades da insularidade. Essa autonomia existe para promover desenvolvimento, reduzir desigualdades e garantir condições de vida dignas.

O princípio fundamental de qualquer Estado de Direito é a dignidade da pessoa humana. As políticas públicas devem assegurar condições mínimas que permitam a cada cidadão construir a sua vida com autonomia e liberdade. É a partir deste princípio que importa olhar para a realidade açoriana, em especial para a minha geração.

Hoje, muitos jovens enfrentam dificuldades sérias para viver de forma autónoma. Os salários baixos, o custo de vida elevado, e o preço da habitação tornam cada vez mais difícil construir um projeto de vida na Região, levando muitos a sair não por escolha, mas por falta de alternativas.

É neste contexto que os dados recentes sobre a pobreza nos Açores ganham particular relevância. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, a taxa de risco de pobreza após transferências sociais situou se em cerca de 17,3% em 2024, acompanhada por melhorias na desigualdade de rendimentos, na privação material severa e na intensidade laboral. No entanto, a dimensão desta descida surpreendeu vários investigadores e continua por explicar de forma clara.

O sociólogo Fernando Diogo, da Universidade dos Açores, refere que não existe ainda uma justificação evidente para uma redução tão acentuada, nem um fator único identificado nos dados capazes de explicar esta evolução. A descida foi transversal a vários indicadores, mas não elimina a incerteza sobre as suas causas e sobre a sua sustentabilidade.

Também o sociólogo Francisco Simões, da mesma universidade, admite que o aumento das transferências sociais, como pensões, reformas e outros apoios, pode ter contribuído para que muitos agregados ultrapassassem o limiar de pobreza fixado nos 8 679 euros anuais. Ainda assim, sublinha que esta melhoria estatística não elimina fragilidades estruturais profundas, como baixos níveis de qualificação, desigualdade persistente e elevada incidência de trabalho pouco qualificado, fatores que mantêm a região vulnerável a choques económicos.

Ambos os investigadores alertam para a necessidade de prudência na leitura destes dados, recordando que reduções anteriores da pobreza não se revelaram duradouras. Sem uma compreensão clara dos fatores que explicam esta descida, não é possível garantir que se trata de uma transformação estrutural.

É precisamente aqui que se impõe uma reflexão mais profunda. Se os indicadores económicos são ambíguos na sua explicação, o problema deixa de ser apenas económico e passa também a ser estrutural, nomeadamente ao nível da educação e da qualificação.

Neste sentido, torna se essencial olhar para modelos que conseguiram responder a desafios semelhantes. 

O modelo educativo alemão, desenvolvido desde o final dos anos 60, assente no sistema dual de formação profissional, combina ensino teórico com experiência prática em contexto de trabalho. Estruturado pela lei Berufsbildungsgesetz, este sistema liga a escola ao tecido económico, valoriza competências técnicas e reduz o abandono escolar ao oferecer percursos mais ajustados às realidades do mercado de trabalho.

Os Açores precisam de refletir seriamente sobre a adaptação de soluções deste tipo, capazes de reforçar o capital humano e alinhar a formação com os setores estratégicos da economia regional.

Como dizia Nelson Mandela, a educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo. Que tenhamos a coragem e a determinação política para a utilizar, porque os Açores não podem estar condenados, eternamente, a ser uma das regiões mais pobres da Europa.

Grupo Oriental sob aviso de chuva e agitação marítima

A previsão meteorológica para este domingo aponta para um cenário de céu muito nublado e a ocorrência de aguaceiros em todo o arquipélago, com o vento a ganhar intensidade e o mar a tornar-se cavado ao final do dia nas ilhas de São Miguel e Santa Maria

© DIÁRIO DA LAGOA

De acordo com as previsões enviadas pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), os lagoenses e do restante Grupo Oriental devem contar com um domingo marcado por períodos de céu muito nublado, com abertas, mas onde a ocorrência de aguaceiros será uma constante ao longo do dia. Embora o dia comece com vento do quadrante sul, entre o bonançoso e o moderado (10/30 km/h), deverá surgir uma alteração significativa para o final do dia, com a rotação do vento para o quadrante norte e um aumento da sua intensidade para fresco (30/40 km/h), podendo registar-se rajadas na ordem dos 50 km/h.

Esta alteração nas condições atmosféricas terá um impacto direto no estado do mar na costa sul da ilha. O IPMA prevê que o mar de pequena vaga evolua gradualmente para cavado, com as ondas de sudoeste de um a dois metros a passarem a norte, aumentando a sua altura para os dois a três metros. Para quem frequenta a orla costeira do concelho, importa notar que a temperatura da água do mar se mantém nos 16ºC, enquanto as temperaturas do ar em Ponta Delgada deverão oscilar entre uma mínima de 13ºC e uma máxima de 18ºC.

Nos restantes grupos do arquipélago açoriano, o cenário de instabilidade é semelhante, embora com maior vigor no Grupo Central, onde as rajadas de vento podem atingir os 70 km/h durante a tarde. No Grupo Ocidental, os aguaceiros serão mais frequentes durante o período da manhã, acompanhados por vento fresco a muito fresco.

Esta informação meteorológica de proximidade reforça a necessidade de precaução nas atividades ao ar livre e na navegação recreativa, num domingo que dita o regresso da agitação marítima à orla costeira das nossas ilhas.