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“A rádio não é para ouvir, é para sentir as pessoas comigo”

Sidónio Bettencourt, jornalista com quase meio século de rádio, é figura e voz que dispensa mesmo apresentações. Ficámos a saber que tem um novo livro, prestes a sair para o mundo. Mas antes disso, quisemos conhecer um pouco mais do mundo de um dos mais icónicos comunicadores açorianos no mundo

Sidónio tem 68 anos e é voz na rádio há 49 anos © ACÁCIO MATEUS

DL: É um açoriano de quantas ilhas?

De todas as ilhas e comunidades açorianas espalhadas pelo mundo. Sou ilhéu. Um ilhéu que tem orgulho nisso porque a condição de ser português ilhéu é diferente. Obrigam-nos a ter uma perspetiva a partir do Atlântico em todos os sentidos. Como a profissão também o exige, nós acabamos por ter que perceber bem cada uma das ilhas. São diferentes, há comportamentos diferentes, há origens diferentes do povoamento e essa paixão pelas ilhas, essa relação com a realidade, com a história e com a geografia.

DL: A sua origem é a causa dessa paixão?
Eu nasci na freguesia dos Arrifes, em casa, porque o meu pai era militar, estava cá, e a minha mãe também. Depois, aos cinco anos, com a ida do meu pai para a guerra, em Angola, em 1961, não fazia sentido ficar aqui, não tínhamos cá ninguém de família. Fomos para casa do meu avô, com a minha mãe, morei com o meu avô nas Lajes do Pico, onde criámos as primeiras amizades, na catequese e na escola. Ainda hoje tenho essa imensa paixão pelas Lajes do Pico. Na ilha do Pico aprendemos o que era o isolamento, o que era fugir à guerra. Tive os meus primos que a determinada altura fugiram para o Canadá, outros para a Califórnia. Emigraram, também, muito cedo. Isso obriga-nos a perceber o que é não ter luz, o que é não ter comunicações, o que é a subsistência, o que é criar os porcos, o que é ter o milho e as terras.
O meu avô era baleeiro, era um homem do mar e da terra. Habituei-me a ter uma paixão por essa gente de subsistência. O fator de estar longe do meu pai obrigou-me a ter um carinho especial pelas pessoas que lutavam por igualdades. Isso ajudou-me, talvez, a ser jornalista, a ser voz e a questionar. Ainda hoje, ao fim destes anos todos, continuo a tentar aperfeiçoar e perceber o que é que nós somos. Nos Açores ainda temos umas lacunas enormes ao nível do desenvolvimento, quer no todo das ilhas, quer ao nível da pobreza, ao nível da desertificação das ilhas, dos postos de trabalho e da produção.

DL: Como regressa a São Miguel?
Pela via militar do meu pai. O meu pai não podia estar no Pico. Quando vem de África, vem para São Miguel para o quartel general. Eu faço ainda dois anos de escola, mas depois ele vai para a escola de sargentos para ser oficial e vamos todos para Águeda. Lá crio uma relação também diferente. Uma criança fica deslumbrada com a televisão, com a rádio e com os jornais. Como os meus amigos estavam longe de Águeda, eu ia para o liceu, aos 10 anos, todos os dias de comboio e quando chegava a casa o meu deslumbramento era ver os programas de televisão, porque eu era um ilhéu que nunca tinha visto televisão. Esse prazer criou gosto em mim.

DL: Como surge o jornalismo?
Primeiro vem a rádio, a paixão pela rádio e gostar de ouvir a rádio. Sou ouvinte de rádio. A televisão, apanho uma televisão muito forte na altura. Tudo isso ajudou a cultivar em mim uma ideia do que é trabalhar naquele meio. Aos 17/18 anos vim pedir para fazer um programa de rádio e fiz uns testes. O jornalismo vem porque sempre gostei de política. Eu era filho de militar, questionava muito os “porquês”. Quando entro na rádio, mediante concurso público, é na altura em que o jornalismo radiofónico começa a ser reconhecido. Não havia na rádio, nessa altura, jornalistas. Embora estivesse na redação a fazer notícias. Portanto, nós fazíamos um pouco de tudo. Essa visão plural de quem gosta de rádio, deu-me a visão da produção radiofónica e a visão do jornalismo. Quando entro de facto, há uma primeira formação em jornalismo, começa a haver o jornalista de rádio e eu optei por ficar na redação, sem nunca descurar aquilo que é a paixão pela rádio no seu todo. A informação foi a minha especialidade durante anos e anos.

DL: De 1996 a 2000 dedica-se à política. Porquê?
Não há nenhum jornalista que não goste de política. Eu não quero ser político, nem tenho preparação para o ser provavelmente. Mas acho que a política é uma atividade nobre. Há um lado cívico que é a defesa da nossa terra. A determinada altura fui convidado, comecei como independente nas listas de um partido, acabei por aceitar. Havia desafios para a rádio e para o futuro da rádio e da televisão e do desporto. Sempre estive ligado ao desporto e havia matérias que estavam no parlamento que por mais que eu pregasse cá fora, nunca mais resolvia. Então aceitei e disse: “vamos à sede própria discutir essas coisas”. Dei o meu contributo cívico. Não fez mal nenhum. Não é a minha vocação estar lá permanentemente porque sempre quis continuar a vida de jornalista. Hoje tenho uma visão muito mais séria e abrangente do que é a atividade e o que é a vida institucional açoriana. Não me tirou nada, acrescentou-me mais alguma coisa.

DL: Fundou a Semana dos Baleeiros na ilha do Pico. Como correu essa experiência?
Eu que não nasci lá, hoje sou munícipe honorário das Lajes do Pico porque fiz a Semana dos Baleeiros durante 12 anos. Fundamos a Semana dos Baleeiros e isso dá-me uma grande alegria. Foi uma experiência muito rica. Foi talvez o maior curso de produção que alguma vez podia ter. Ainda hoje pergunto como é que fiz, eu e a equipa. Eu era no fundo o produtor e organizava as coisas. Levava um ano inteiro a preparar aquilo que podia ser do ponto de vista cultural, criativo e musical. Nós criamos uma semana que tocasse nos itens todos que tivessem a haver com a essência da baleação. A baleação é religiosidade, é economia, é etnográfica, é biologia. Criámos uma semana que tivesse a haver com as ilhas. Foi uma experiência fantástica. Deu-me imenso trabalho, mas talvez foi das coisas que mais alegria me deu. Marcou e ainda hoje existe.

Sidónio apresenta os programas “Inter-ilhas”, na rádio de serviço público e “Atlântida” na RTP Açores, RTP Madeira e RTP Internacional © ACÁCIO MATEUS

DL: Trabalha para a rádio e para a televisão. Qual é a que mais gosta?
Eu sou da rádio, um apaixonado pela rádio. Acho que na rádio domino a matéria, posso não desempenhá-la bem ou melhor, mas acho que domino os segredos da rádio. Na televisão, fui sempre um colaborador, uso aquilo que sei da rádio e a sensibilidade ao serviço da televisão. Se me tirarem a rádio, tiram-me a vida. A rádio não é para ouvir, é para sentir as pessoas comigo. Eu adoro estar fechado num quarto e sentir que na Alemanha, em Boston, dentro de um carro ou quem está a bordo de um navio me manda mensagens. Ainda há pouco tempo, recebi uma mensagem de um senhor, um cientista, que estava fora de Moçambique, num barco da universidade. Ele tinha estado na Horta cinco anos e passados dois, três anos, ainda ouvia o Inter-ilhas. E, então, não resistiu, sentiu-se comovido e mandou-me uma mensagem de Moçambique, em mar alto, dentro do barco a dizer quem era e que apreciava o trabalho e que sempre que podia era no Inter-ilhas que sintonizava. Tenho a história, também, de um senhor que nunca veio aos Açores, que vive e trabalha no centro de Lisboa, naqueles escritórios em que sai do metro e entra no escritório, e que a rádio dele é o inter-ilhas. Ele diz que consegue viajar, ver várias coisas, imaginar o que são os Açores e porque tem música portuguesa e música açoriana que ele não conhecia. Ele põe a RTP Açores através da internet e fica a ouvir o Inter-ilhas. Uma pessoa que nunca veio cá. Isso para mim é chegar ao ponto mais alto. Fazer pessoas, que não têm nada a haver com isto, serem fiéis ouvintes do Inter-ilhas.

DL: No programa Inter-ilhas como surgem “Os olheiros do tempo”?
O olheiro do tempo nasce naturalmente porque um dia alguém me enviou uma fotografia e disse: «olha, aqui em São Miguel, à minha janela, está um dia de mau tempo, espero que nas outras ilhas estejam bem». E alguém mandou: “aqui não está a chover” e eu disse “nas Lajes do Pico está a chover”, outro disse “na Terceira está sol”. De uma coisa tão espontânea lancei o repto e começaram a mandar mensagens, enquanto dizia o nome das pessoas. Eu disse que se quisessem podiam mandar uma mensagem para o telefone tal. Foi tão simples assim. Por causa dos olheiros do futebol, eu disse “vocês são verdadeiros olheiros do tempo”. A expressão já dura anos sem fim. Já não consigo fazer um Inter-ilhas sem os olheiros do tempo. 

DL: Qual é a viagem que mais o marcou?
Muitas. As eleições americanas, a chegada de Bill Clinton, onde fiz uma reportagem que foi distinguida pela Fundação Luso-Americana. Fiz “A América e as arquipelações”. Essa marcou-me muito porque estava em direto para a antena nacional. Como me marcou, por exemplo, ir fazer um recital de poesia em Luanda no Dia de Portugal, de Camões, no meio dos militares a convite da embaixada. Ir ao Uruguai, que era um sonho antigo, fazer um recital de poesia a convite do presidente do governo. No dia da criação do comité das regiões, em Bruxelas, eu estava lá, eu vi toda a tramitação no interior daquele comité para saber quem era o porta-voz e como é que aquilo politicamente se desfez. A ida à Finlândia e à Suécia, para ver as televisões europeias de serviço público e depois estar com a malta da BBC. As idas a Washington, estar com o senador Kennedy no gabinete dele, estar em grandes jornais norte-americanos.
Depois há as viagens inter-ilhas como no Corvo estar a escrever um poema enquanto chove, à luz da vela, numa casa onde só se vê o farol ao longe das Flores. Também é uma alegria imensa. Tudo isso é marcante.

DL: Já lançou vários livros. Está a escrever algum neste momento?
Tenho coisas já escritas que tenho que reorganizar para escrever. Tenho dois livros para sair. Um é o “Baleeiros em terra”, que é a reportagem vencedora do prémio que foi representar Portugal em Barcelona, a reportagem de rádio que nós transformamos agora em livro. Para mim é a consolidação de um projeto, porque é uma homenagem àquelas pessoas que eu já ouvi e que já morreram quase todas e que falam em discurso direto. E tenho um livro com o meu sobrinho, Dr. Sérgio Ávila, que é um com quem já fiz “A balada das baleias”, agora é uma coisa sobre os Açores no seu todo, é uma viagem pelas ilhas a partir do Corvo. Vai-se chamar — já está basicamente feito, já existe e está impresso, faltam pormenores de edição — “Açores, o poema da luz”.

DL: Pelas contas do Estado, já podia estar reformado. O que é que o faz continuar?
Pois… esta foi toda a minha vida. Isto é muito intenso [emociona-se]. No dia seguinte, quando fecharem as luzes todas, como é que eu vou aguentar? É que foi a vida toda, desde pequenino, a querer ser isto. Agora eu sinto que muitas coisas são por estarem no fim. Claro que há coisas para fazer, mas eu enquanto puder conciliar a rádio, sobretudo a rádio, a televisão, quando entender, tudo bem. Mas se deixar de entrar o dia, se deixar de ver os e-mails, se deixar de ver os CDs, se deixar de ouvir as pessoas… Eu quando ficar sozinho lá no meio dos livros que tenho em casa — eu tenho muita coisa — vou sentir um vazio e uma solidão que não sei se vou ter energia para acabar aquilo que preciso fazer. Eu preciso deste reboliço todo e de não ter tempo. Se calhar para o ano, em que faço 50 anos de rádio e 69 de idade, será a altura de dar lugar a outro. A lei também não permite mais do que os 70. Vamos com calma e sair serenamente.

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Clife Botelho

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Comentários

  1. avatar Larue 08-08-2023 09:24:32

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