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A Fórmula do Amor: Pilhas Duracell

A lenda de São Valentim nasceu do amor proibido.

Conta-se que, no Império Romano, os jovens soldados eram proibidos de ter parceira, por se acreditar que o amor diminuía a sua performance bélica. Valentim, sendo frade — e frade numa época em que amar era também um ato de desobediência — discordou e celebrou inúmeros casamentos em segredo.

Já se sabe que ninguém apaga a chama do amor.

Mas também se sabe que, ao longo da história, ela surge quase sempre acompanhada de dramas, cenas e mártires.

Talvez por isso Valentim tenha ficado associado à valentia.

Porque o amor não é para todos.

É só para quem aguenta.

É precisamente por isso que este artigo começou por se chamar A Fórmula do Amor e acabou por falar, na prática, de relacionamentos amorosos. A diferença está na distância entre a química idealizada do início e a prática quotidiana partilhada. Se a primeira exigia valentia, a segunda exige, com certeza, criatividade — e outras coisas mais — que são o mote desta formulação.

Vamos, então, dar início à escrita do problema.

1. Enunciado

Ao formular o problema — digo, o do amor, melhor dizendo, o das relações amorosas — resta determinar se ele é solucionável, indeterminado ou impossível.

A questão que se coloca é simples apenas na aparência: o que estaríamos dispostos a aceitar como solução?

Considere-se uma relação amorosa como um sistema instável, sujeito a variações constantes e a fatores externos inesperados, como cansaço acumulado, decisões financeiras tomadas “em boa fé” ou discussões recorrentes sobre quem deixou a luz da casa de banho acesa.

Para efeitos práticos, adotam-se as seguintes variáveis:

  • C — Cuidado

  • T — Tempo

  • S — Escuta

  • E — Ego

2. Hipótese inicial

Parte-se do princípio de que uma relação não se sustenta na intensidade do início, mas na repetição. Não é o jantar romântico ocasional que garante continuidade, mas o cuidado diário — como perguntar “como correu o teu dia?” e não desaparecer a meio da resposta para ir ver o telemóvel.

Na ausência de cuidado, o sistema começa a falhar, mesmo quando tudo parece bem nas fotografias.

3. Condição necessária

Nenhuma relação se mantém sem tempo.

Tempo real, não apenas partilhado no mesmo sofá enquanto cada um vê uma série diferente.

É aqui que surgem dilemas clássicos: ver a série juntos ou avançar “só um episódio”, jantar fora ou pedir comida, ir dormir cedo ou prolongar a conversa que começou por nada e acabou em tudo. O tempo só conta quando há presença.

4. Variável frequentemente ignorada

Define-se escuta como a capacidade de ouvir sem interromper, corrigir ou preparar mentalmente a resposta.

Muitos conflitos conjugais não resultam do tema em si — seja a loiça por lavar ou o tom de uma mensagem — mas da sensação persistente de não estar a ser ouvido.

5. O fator de perturbação

Introduz-se o ego como variável instável e expansiva.

Ao contrário das restantes, o ego não soma: ocupa espaço.

Manifesta-se na necessidade de ter razão, na dificuldade em pedir desculpa ou na convicção de que “não era preciso avisar” antes de uma decisão importante. Em excesso, o ego consome energia que faria falta ao resto do sistema.

6. Formulação provisória

♥ = ( C + T + S ) ÷ ( 1 + E )

Não é preciso gostar de matemática para compreender: quanto mais cuidado, tempo e escuta, maior a relação. Quanto maior o ego, menor o resultado.

Nota final

Os relacionamentos não se resolvem.

Ajustam-se.

Duram mais quando há energia disponível, manutenção regular e a capacidade de trocar as pilhas antes de tudo se desligar — de preferência antes da próxima discussão sobre o ar condicionado.

Talvez por isso seja curioso que, ainda hoje, em contexto profissional, se continue a perguntar se alguém pensa engravidar nos próximos tempos ou se está numa relação, como se isso fosse um indicador de desempenho.

Talvez a pergunta relevante fosse outra.

Mais simples.

Mais honesta.

És feliz na tua relação?

Ou, pelo menos, tens uma relação estável?

Porque relações estáveis — afetivas, emocionais, humanas — não retiram energia ao trabalho. Pelo contrário: dão-lhe base, foco e continuidade. E talvez seja tempo de perceber que a maturidade emocional não é um risco profissional, mas um ativo silencioso.

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