
A lenda de São Valentim nasceu do amor proibido.
Conta-se que, no Império Romano, os jovens soldados eram proibidos de ter parceira, por se acreditar que o amor diminuía a sua performance bélica. Valentim, sendo frade — e frade numa época em que amar era também um ato de desobediência — discordou e celebrou inúmeros casamentos em segredo.
Já se sabe que ninguém apaga a chama do amor.
Mas também se sabe que, ao longo da história, ela surge quase sempre acompanhada de dramas, cenas e mártires.
Talvez por isso Valentim tenha ficado associado à valentia.
Porque o amor não é para todos.
É só para quem aguenta.
É precisamente por isso que este artigo começou por se chamar A Fórmula do Amor e acabou por falar, na prática, de relacionamentos amorosos. A diferença está na distância entre a química idealizada do início e a prática quotidiana partilhada. Se a primeira exigia valentia, a segunda exige, com certeza, criatividade — e outras coisas mais — que são o mote desta formulação.
Vamos, então, dar início à escrita do problema.
Ao formular o problema — digo, o do amor, melhor dizendo, o das relações amorosas — resta determinar se ele é solucionável, indeterminado ou impossível.
A questão que se coloca é simples apenas na aparência: o que estaríamos dispostos a aceitar como solução?
Considere-se uma relação amorosa como um sistema instável, sujeito a variações constantes e a fatores externos inesperados, como cansaço acumulado, decisões financeiras tomadas “em boa fé” ou discussões recorrentes sobre quem deixou a luz da casa de banho acesa.
Para efeitos práticos, adotam-se as seguintes variáveis:
C — Cuidado
T — Tempo
S — Escuta
E — Ego
Parte-se do princípio de que uma relação não se sustenta na intensidade do início, mas na repetição. Não é o jantar romântico ocasional que garante continuidade, mas o cuidado diário — como perguntar “como correu o teu dia?” e não desaparecer a meio da resposta para ir ver o telemóvel.
Na ausência de cuidado, o sistema começa a falhar, mesmo quando tudo parece bem nas fotografias.
Nenhuma relação se mantém sem tempo.
Tempo real, não apenas partilhado no mesmo sofá enquanto cada um vê uma série diferente.
É aqui que surgem dilemas clássicos: ver a série juntos ou avançar “só um episódio”, jantar fora ou pedir comida, ir dormir cedo ou prolongar a conversa que começou por nada e acabou em tudo. O tempo só conta quando há presença.
Define-se escuta como a capacidade de ouvir sem interromper, corrigir ou preparar mentalmente a resposta.
Muitos conflitos conjugais não resultam do tema em si — seja a loiça por lavar ou o tom de uma mensagem — mas da sensação persistente de não estar a ser ouvido.
Introduz-se o ego como variável instável e expansiva.
Ao contrário das restantes, o ego não soma: ocupa espaço.
Manifesta-se na necessidade de ter razão, na dificuldade em pedir desculpa ou na convicção de que “não era preciso avisar” antes de uma decisão importante. Em excesso, o ego consome energia que faria falta ao resto do sistema.
Não é preciso gostar de matemática para compreender: quanto mais cuidado, tempo e escuta, maior a relação. Quanto maior o ego, menor o resultado.
Os relacionamentos não se resolvem.
Ajustam-se.
Duram mais quando há energia disponível, manutenção regular e a capacidade de trocar as pilhas antes de tudo se desligar — de preferência antes da próxima discussão sobre o ar condicionado.
Talvez por isso seja curioso que, ainda hoje, em contexto profissional, se continue a perguntar se alguém pensa engravidar nos próximos tempos ou se está numa relação, como se isso fosse um indicador de desempenho.
Talvez a pergunta relevante fosse outra.
Mais simples.
Mais honesta.
És feliz na tua relação?
Ou, pelo menos, tens uma relação estável?
Porque relações estáveis — afetivas, emocionais, humanas — não retiram energia ao trabalho. Pelo contrário: dão-lhe base, foco e continuidade. E talvez seja tempo de perceber que a maturidade emocional não é um risco profissional, mas um ativo silencioso.
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