
1 – Já escrevi um pequeno texto sobre a costa poente do concelho da Lagoa. Essa área é aplanada desde Ponta Delgada até à sede do município e depois eleva-se para o lado nascente. Na baía de Santa Cruz, como escrevi, já se evidenciam as sucessivas camadas de pedra-pomes, de paleossolos e de ignimbritos, bem como a topografia de antigas ribeiras e grotas.
2 – As pedra-pomes são ora esbranquiçadas, ora amareladas, e algumas contêm pequenos restos de carvão, assim permitindo conhecer as suas idades.
Os paleossolos correspondem a períodos de repouso do Vulcão do Fogo, a períodos em que foi possível gerar-se “terreno arável”, onde se desenvolveu flora como o pau-branco, a urze e a faia.
Paleossolo espesso corresponde a longo período de repouso. Paleossolo delgado, pouco espesso, corresponde a curto período de repouso vulcânico.
Os ignimbritos são rochas que se situam entre os piroclastos (bagacinas) e as lavas, estão associados a nuvens ardentes, a nuvens densas, com materiais plásticos e arenosos, muito quentes, que se movimentam pela encosta do vulcão abaixo.
Os ignimbritos do Vulcão do Fogo têm um nome popular, desde o povoamento, ou seja, denominam-se “pedra-da-vila”, uma rocha macia, fácil de trabalhar, repleta de uns vidros naturais, anegrados, com a forma de olhos chineses. A pedra-da-vila só era usada em edifícios religiosos e em casas de gente abastada. Hoje em dia é difícil adquirir ignimbritos.
3 – Avançando-se para oriente, entra-se na baía da Caloura, uma zona onde as areias oceânicas, anegradas e densas, se acumularam, gerando um pequeno areal de formações geológicas magnéticas. Basta pegar num íman, encostá-lo às areias e… de repente, finos cristais de ilmenite agarram-se ao citado íman. Fica eriçado como um ouriço.
A ilmenite é um dos minerais magnéticos mais abundantes nestas ilhas.
4 – Depois da praia seguem-se as lavas basálticas da fajã da Caloura. Fajã é o termo insular que designa uma zona costeira aplanada que sobe suavemente para o interior duma ilha.
Se esse tipo de relevo é constituído por materiais resultantes de desmoronamentos da costa, a fajã diz-se de vertente ou fajã detrítica.

Se a zona aplanada é de lavas, a fajã diz-se lávica. A fajã da Caloura é lávica. E as lavas foram emitidas pelo pico que domina Água de Pau e por outros piquinhos vizinhos, alinhados e instalados em falhas geológicas.
O cone mais volumoso e os piquinhos são do tipo stromboliano, sendo constituídos por bagacinas (cascalhos) negras mas frequentemente oxidadas, tornando-se avermelhadas.
5 – A paisagem é deslumbrante visto que a fajã se constitui ao longo de muitos derrames, alguns muito fluidos e encordoados (lavas do tipo “pahoehoe”).
Contudo, à semelhança da fajã da Ferraria, o que mais se evidencia na linha de costa é a existência de enfurnamentos, de túneis, por vezes apenas submarinos.
Ali mergulhei com cientistas estrangeiros, procurando e encontrando desgasificações essencialmente de anidrido carbónico (CO2).
Nos enfurnamentos do lado nascente há lavas quase vítreas, de basalto anegrado.
A fajã vai morrer no porto da Caloura, outro geossítio importante porque se encontra em frente a um paredão vertical de traquito cinzento claro. No topo desse paredão fica o miradouro.
A baía é de águas muito claras e diversas poças e baixios murmurantes rematam a paisagem. Gosto do entardecer, em que os ventos se acalmam e o farolim vermelho se acende, espalhando-se pelos rochedos lavados pelo mar.
Além de geologicamente importante, a fajã da Caloura é ecologicamente mais importante. De facto em poças, reentrâncias e enfurnamentos, fervilha vida aquática que depois migra ou ali se mantém.
A fajã da Caloura já foi mais idílica, sem o casario que a invade. Há que a proteger dos vândalos, suevos e alanos que por aí espreitam.