
Patrícia Miranda
Deputada pelo PS na ALRAA
Há momentos na política em que uma imagem diz tudo.
Um secretário regional, de fato e gravata, em cima de um cavalo, num cenário cuidadosamente preparado, perante uma plateia atenta. É uma imagem forte. Evoca tradição, identidade, ligação ao mundo rural.
Mas também expõe um contraste difícil de ignorar.
A coligação garante que a agricultura nunca esteve tão bem. Mostram gráficos. Dizem que “é só seguir a barra”. Uma posição confortável para quem defende o Governo e o seu partido, mas não defende o setor.
Porque enquanto a política se mostra montada, literal e simbolicamente, a agricultura vai ficando para trás, a suportar o peso de decisões que não chegam, de respostas que não aparecem e de custos que não param de subir, a cavalo é que vamos bem.
O gasóleo agrícola sobe de 1,27€ para 1,63€. Mais 36 cêntimos por litro. Um aumento abrupto, brutal, que atinge os agricultores no pior momento possível, quando estão no terreno, em plena época de sementeiras.
A Federação Agrícola dos Açores não teve dúvidas: é uma “subida escandalosa”.
E não está sozinha. Também a Associação de Jovens Agricultores Micaelenses veio a público alertar para o impacto devastador desta subida, sobretudo para quem está a começar.
Para muitos, isto não é apenas mais um aumento. É o ponto de rutura.
E tudo isto acontece num contexto já pressionado: fertilizantes caros, mercados instáveis, preço do leite ao produtor a descer.
E perante esta realidade, o que temos do Governo?
Justificações. Explicações. Transferência de responsabilidades. Bruxelas. A PAC. As regras europeias.
Mas nada disto é novo. É, aliás, o guião a que este Governo já nos habituou: quando os problemas apertam, este Governo não age, justifica-se.
E assim se vai governando à distância da realidade, e a cavalo é que vamos bem.
Durante os últimos anos, sempre que o preço do combustível subia, o PSD apressava-se a defender o Governo com dois argumentos: que, apesar de tudo, o gasóleo agrícola nos Açores continuava mais barato do que no continente (como se isso servisse de consolo quando a fatura chega) e que tinha sido eliminado o plafon, permitindo aos agricultores consumir sem limite.
Mas hoje, nenhuma destas “bandeiras” resiste à realidade.
O gasóleo agrícola é, pela primeira vez, mais caro do que no continente.
E o fim do plafon? De pouco serve quando o problema não é a quantidade que se pode usar, mas o preço que se tem de pagar.
E quando os argumentos desaparecem, mas os problemas ficam, a cavalo é que vamos bem.
Do lado da República, a resposta também não chega.
Devem aos agricultores dos Açores cerca de 23 milhões de euros de apoios que estavam previstos no âmbito da crise provocada pela guerra na Ucrânia, apoios que faziam falta ontem e fazem ainda mais falta hoje.
Diz o Ministro da Agricultura que esse apoio já veio. Que já foi pago.
Mas o que sabemos é que esse dinheiro não chegou aos agricultores como devia.
Ficou pelo caminho. Serviu para o Governo Regional tapar buracos, o mesmo Governo que desviou 14 milhões de euros da agricultura para outros setores da governação.
E, ao mesmo tempo, acumulam-se os problemas dentro de portas.
Atrasos no pagamento dos apoios regionais.
Prazos que não são cumpridos.
Milhões de euros por aprovar e executar no PEPAC.
Dinheiro que existe no papel e nos discursos, mas não chega aos agricultores.
Mas a cavalo é que vamos bem.
Entretanto, a inflação enche os cofres públicos.
Mais 25 a 30 milhões de euros em receita fiscal adicional.
E a pergunta impõe-se: vai o Governo continuar a arrecadar à custa da crise ou vai devolver esse esforço a quem produz?
Há dinheiro da inflação, mas não há decisão. Há discurso, mas não há resposta. Há presença, mas não há ação.
E voltamos ao início.
O cavalo. O fato. O cenário.
Sem dizer uma palavra, a imagem explica tudo: é o retrato de um momento.
Um setor em crise.
E quem governa… a cavalo.
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