
José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores
A notícia de que São Miguel já representa 60,8% do PIB dos Açores não me espanta. O que me espanta é a rapidez com que alguns transformam o crescimento de uma ilha num problema político, quase como se produzir mais riqueza fosse um pecado a expiar.
Entre 2021 e 2023, São Miguel passou de 59% para 60,8% do PIB regional, com o seu produto a subir de 2.581,6 milhões para 3.271 milhões de euros. No mesmo período, o PIB total da Região passou de 4.374,6 milhões para 5.374 milhões.
Isto tem uma leitura séria: São Miguel cresceu e os Açores cresceram. O que não aceito é que se queira fazer de São Miguel a culpada do seu próprio esforço.
Eu repudio o bairrismo. Sempre repudiei. Não embarco nessa política rasteira de meter ilhas umas contra as outras, como se o problema dos Açores fosse São Miguel ter empresas, iniciativa, capacidade económica e gente que trabalha. São Miguel não pode ser castigada por crescer. Era o cúmulo da estupidez política: punir quem puxa, só para disfarçar a incapacidade de fazer os outros crescer também. Isso não é justiça. Isso é nivelar por baixo. E nivelar por baixo nunca salvou nenhuma terra.
Mas convém não fugir ao essencial. Defender São Miguel não é fechar os olhos aos desequilíbrios da Região. São coisas diferentes. Uma coisa é dizer, com frontalidade, que São Miguel não tem de pedir desculpa pelo seu dinamismo. Outra é exigir ao poder político que governe os Açores como um arquipélago de nove ilhas e não como um mapa onde basta gerir a maior e ir entretendo as outras com discursos de circunstância.
Tenho defendido exatamente isso: a verdadeira coesão territorial não se faz em guerrilhas de ilha para ilha, faz-se olhando para a totalidade do arquipélago, povo a povo, freguesia a freguesia. E tenho também insistido que a coesão económica, social e territorial não pode continuar a ser apenas uma frase bonita para constar em intervenções oficiais; tem de se traduzir em investimento estratégico, acessibilidades, oportunidades e equilíbrio real. O CHEGA Açores tem ligado essa coesão à necessidade de melhorar acessibilidades em todas as ilhas, com um pacote que estimou em 26,3 milhões de euros.
É aqui que muita gente se engana, ou finge enganar-se. Os números não mostram que São Miguel esteja a “tirar” riqueza às outras ilhas. Mostram, sim, que São Miguel cresceu mais. A Terceira, por exemplo, desceu em peso relativo de 21,46% para 20,31%, mas subiu em valor absoluto de 938,7 milhões para 1.091,3 milhões de euros. O Faial passou de 276,2 milhões para 323 milhões, apesar de ter perdido algum peso percentual. Portanto, a questão séria não é travar São Miguel. A questão séria é perceber porque falham as políticas que deviam estar a criar condições para que outras ilhas acompanhassem esse crescimento com mais força.
E é aqui que eu não alivio o Governo Regional. Porque o mais fácil é deixar correr, olhar para São Miguel a crescer e vender isso como se fosse prova automática de sucesso regional. Não é. Uma Região não está equilibrada só porque a sua maior ilha está forte. Uma Região está equilibrada quando a sua força principal serve de motor ao conjunto, e quando o poder político usa essa força para corrigir fragilidades, não para aprofundar dependências.
O que eu recuso é este truque barato: sempre que se fala de coesão, aparecem logo os especialistas do ressentimento a insinuar que São Miguel tem demais. Não. O problema não é São Miguel ter demais. O problema é haver ilhas que continuam a ter de menos. E isso não se resolve tirando músculo a quem o tem. Resolve-se criando músculo onde ele falta. A política séria faz crescer. A política medíocre redistribui desculpas.
São Miguel tem peso. Muito bem. Então use-se esse peso com responsabilidade regional. Não para a enfraquecer, não para a penalizar, não para a transformar em bode expiatório de décadas de falhanços estratégicos. Use-se esse peso para alavancar os Açores como um todo. Porque uma São Miguel forte numa Região fraca é um sucesso pela metade. E um arquipélago onde se castiga quem cresce é um arquipélago que desiste de si próprio.
A minha posição é simples e não tem truque nenhum: não aceito o discurso anti-São Miguel e não aceito o comodismo de quem usa São Miguel para esconder o desequilíbrio regional. Quero São Miguel a crescer mais, sem complexos e sem pedir licença. Mas quero também Terceira, Faial, Pico, São Jorge, Graciosa, Santa Maria, Flores e Corvo com condições reais para crescerem com ambição. Isso é que é coesão. Isso é que é governar. O resto é conversa para dividir os Açores e desculpar quem nunca os soube unir.
No fim do dia, o ponto é este: crescer não é crime. Crime político é querer que São Miguel pague a fatura do seu próprio sucesso, em vez de obrigar quem governa a fazer o que devia ter feito há muito — criar condições para que o progresso de uma ilha ajude a levantar todas as outras.
Laisser un commentaire