Formação do Operário com 5 escalões e mais de 70 inscritos

Numa conversa a três, os responsáveis pela formação do clube explicam o recomeço onde os 80 sócios passaram a 400

Hugo Santos (à esquerda) acompanhado de Bruno Vieira (ao centro) e Fernando Furtado (à direita) Foto DL

Fernando Furtado tem 51 anos e é técnico de rações, mas diz que a formação é o seu grande amor e quase não há dia nenhum em que não vá à sede do Clube Operário Desportivo (COD). Até aos 17 jogou no Operário tendo depois emigrado para o Canadá. Quando regressou, ligou-se logo ao clube onde está desde 1987, com 4 anos de interregno pelo meio.
Hugo Santos é de Lisboa mas escolheu a Lagoa para viver e trabalhar logo aos 19 anos. Passou por nove clubes e hoje, aos 37, é o capitão do COD e diretor técnico da formação que é liderada por Bruno Vieira. O técnico de 33 anos tem um mestrado em Futebol de Alto Rendimento e ocupa atualmente a função de coordenador-geral da formação do Operário. Passou por sete clubes, entre os Açores, o continente e a Madeira.

DL: Bruno, o que o levou a aceitar o projeto da formação do Operário?
Bruno Vieira: Nos últimos quatro anos, a formação foi sempre decaindo, tinha 9 escalações e no ano passado abriram 3 contando com os mais pequenos. A primeira pergunta que fiz ao Presidente foi: “o que é que você pretende?” E ele explicou que queria reestruturar tudo, fazer o clube ligar-se à terra, à região, tirar os miúdos da rua, dar-lhes prática desportiva, tirar-lhes dos maus hábitos e a partir daí dar-lhes uma rotina e alguma educação que muitos em casa talvez não tenham. O nosso primeiro objetivo é ligar o clube à terra.

DL: Que objetivos traça para a próxima época?
Bruno Vieira: Reabrir o que estava fechado e gradualmente ir aumentando o nosso nível de exigência. Queremos evolução a nível desportivo mas também a nível pessoal.

DL: Os pais estão reticentes em voltar a colocar os filhos no Operário?
Bruno Vieira: Nós não conseguimos abrir o escalão de iniciados. Isso foi um grande problema porque queríamos abrir tudo. Há dois anos tínhamos miúdos que estavam no futebol de sete onde há um acompanhamento muito grande dos pais que iam com eles para todo o lado e depois eles iam vendo coisas que não faziam sentido e foram-se afastando para outros clubes. Elaboramos uma lista de todos os miúdos que iam saindo para convidá-los a regressar.

DL: Já bateram em algumas portas que não se abriram?
Fernando Furtado: Pensei muito bem antes de voltar ao Operário porque sabia como estava o clube e como ficou a formação. Ouvia muita coisa por fora que mexia comigo. Sempre vivi este clube desde criança e agora abraçamos os três este projeto. No princípio pensei que íamos abrir só três escalões mas a adesão foi tão grande.
Bruno Vieira: O senhor Fernando conhece toda a gente aqui e isso é muito importante.
Fernando Furtado: Estou surpreendido com o que conseguimos tendo em conta a forma como estava o clube. Pegamos no clube do zero. Quando levámos 46-0, no ano passado, até saiu no jornal, aquilo para mim foi uma doença autêntica, eu não me revia naquilo. E agora em duas semanas de 80 fomos para 400 sócios, é impressionante, são sócios que deixaram de pagar as cotas e voltaram a pagar.
Bruno Vieira: Num sábado eu e o diretor dos benjamins fomos bater às portas do bairro. Em duas horas conseguimos 12 miúdos, o que é impressionante.

DL: O que distingue o vosso projeto de formação dos restantes?
Bruno Vieira: Não sei o que se passa nos outros clubes mas posso lhe dizer o que se vai passar no Operário. Criamos um documento interno em que eu vou ter deveres e vou ter obrigações, temos de caminhar todos numa só direção. Vamos ter o nosso próprio gabinete de formação no campo, vamos fazer reuniões, os modelos de treino têm de ser respeitados. A nossa maneira de trabalhar tem de ser sempre trabalhar a base para rentabilizar os séniores.
Hugo Santos: Independentemente das condições que tem, o clube não deixa de ter a grandeza que sempre teve. Muito poucos clubes, para não dizer nenhum, têm as condições do Operário para se trabalhar, eu sei porque estou cá há 17 anos.

DL: O que é que um jovem pode encontrar na formação do operário?
Hugo Santos: Cheguei cá com 19 anos e apanhei jogadores lagoenses com muita qualidade. Nessa altura os jogadores identificavam-se com o fabril, um homem de trabalho, um homem guerreiro e essa componente estava instalada e neste momento não está. E nós queremos recuperar isso.

DL: O trabalho que terão em campo também vai ter em conta o sucesso académico dos atletas?
Bruno Vieira: Dentro do gabinete da formação vamos dividi-lo em três salas: de visionamento de vídeos, de trabalho dos treinadores e no meio vamos criar uma sala para os miúdos fazerem os seus trabalhos de casa. Vamos querer acompanhar as notas e futuramente queremos ter explicadores para apoiar os miúdos.

DL: Na próxima época, o que é que o operário oferece a quem chega?
Bruno Vieira: Trabalho, rigor e exigência, não prometemos mais nada. É preciso dar a disciplina que eles, muitas vezes, não têm em casa, para criarem hábitos de trabalho para o futuro, é a nossa grande premissa para este ano.

Sara Sousa Oliveira

(Entrevista publicada na edição impressa de agosto de 2020)

Categorias: Desporto, Entrevista

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