Festa. Fúria. Femina: “Não era um título sério, é um título que tem a ver com a nossa posição”

Obras da Coleção FLAD estão até setembro no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, na Ribeira Grande

António Pinto Ribeiro e Sandra Vieira Jürgens são os dois curadores da exposição © DL

A exposição Festa. Fúria. Femina. – Obras da coleção FLAD é constituída quase exclusivamente por obras de artistas portugueses. Assinalou, em Lisboa, os 35 anos da Fundação e está agora nos Açores, na Ribeira Grande, pela primeira vez sendo composta por 146 obras selecionadas pelos curadores António Pinto Ribeiro e Sandra Vieira Jürgens, a partir de mais de mil que integram a coleção.

Para Sandra Vieira Jürgens, a coleção tem um lado de “provocação daquilo que é a presença dos artistas e de um pensamento crítico que nos faz tanta falta”. Por outro, a também historiadora de arte sublinha que os curadores da exposição quiseram sublinhar “a questão das mulheres” trazendo um “projeto artístico mais presente naquilo que é a arte, seja portuguesa seja contemporânea”. 

Três eixos emergem da Coleção e dão nome a esta exposição. Festa. Fúria. Femina. dialogam e geram ideários: celebram a coleção, evocam a dimensão de performatividade inerente às práticas artísticas contemporâneas, e destacam a dimensão feminina, exigindo um renovado olhar sobre a história de arte que tanto escamoteou as artistas.

“Não era um título sério, é um título que tem a ver com a nossa posição, mesmo aquilo que às vezes nos parece mais estático, mais tradicional tem que ser vivido de uma outra forma muito mais fluída e muito mais contemporânea”, sublinha Jürgens.

Questionado sobre como foi trabalhar em parceria com Sandra Vieira Jürgens, António Pinto Ribeiro contou que “foi um desafio, no sentido em que foi uma aventura. Temos à partida pontos de vista que são comuns, coincidentes, naturalmente por uma questão de género, ou por uma questão de alguma mínima diferença geracional, que neste caso também é importante, para além da diferença de formação, mas foi ao mesmo tempo um trabalho muito entusiasmante”, tendo Sandra Vieira Jürgens salientado que foi uma parceria “super pacífica”.  

A exposição – uma coprodução entre a FLAD e o Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas – integra parte de um acervo, iniciado em 1986. É constituído maioritariamente por desenho mas integra também pintura, fotografia e escultura. São obras que estabelecem diálogos e tensões, convocando enquadramentos sócio-históricos diversos e que representam a cena artística portuguesa desde a década de 80, assim como uma geração de artistas que preza a interdisciplinaridade.

O final de 2019 e o ano de 2020 marcam o retomar das aquisições de obras pela FLAD e a catalogação e tratamento da sua Coleção de Arte Contemporânea, criando uma base de dados em colaboração com a empresa Sistemas do Futuro. Em exibição figuram mais de 25 destas obras recentemente adquiridas, que se enquadram no conceito de transversalidade que a exposição pretende mostrar.

Programação paralela

A exposição será a âncora para uma programação cultural alargada que a FLAD e o Arquipélago  irão desenvolver ao longo de quatro meses na ilha de São Miguel, com o objetivo de promover a arte e a cultura na região. Esta programação vai incluir visitas-guiadas e visitas-oficina para alunos de todos os ciclos de ensino da ilha de São Miguel; workshops de desenho com artistas de renome, aulas abertas com os curadores da exposição – António Pinto Ribeiro e Sandra Vieira Jürgens –; uma escola de verão para alunos do ensino secundário e ensino superior, tendo sido criadas, para esta escola, bolsas destinadas a alunos de outras ilhas dos Açores.

Sofia Carolina Botelho, do serviço educativo do Arquipélago, salienta que “é uma forma de ativar a exposição com os vários públicos do Arquipélago. É uma forma de desdobrarmos a exposição para fora do espaço físico através das pessoas. Estamos a falar de sessões sobre arte contemporânea, sobre metodologias e práticas que acontecerão todos os sábados com os curadores da exposição e com os artistas. Depois para além disto, porque é uma exposição que vive muito do desenho, vamos ter duas sessões de workshop de desenho com artistas. Vamos receber público escolar de toda a ilha, trazendo autocarros, desde o Nordeste, Lagoa, Furnas, entre outras, para fazer chegar esta coleção e estas obras ao maior número de pessoas”. 

Não vai ser a última iniciativa da FLAD nos Açores”

Em declarações ao Diário da Lagoa, no dia da inauguração, a presidente da FLAD, Rita Faden, salientou que “mais do que um desafio, foi um desejo muito profundo” a vinda da Coleção, revelando que “já conhecia o espaço do Arquipélago” sendo que “fazia todo o sentido” tendo em conta a ligação que a FLAD tem aos Açores.

A responsável considerou ainda que os Açores “são um ponto de ligação muito importante porque nós na FLAD queremos ligar Portugal e Estados Unidos, juntando pessoas, juntando instituições, e obviamente nunca esquecendo aqui o papel dos Açores, não só pela sua componente geoestratégica mas também tendo em conta por exemplo que a comunidade portuguesa nos EUA na grande maioria tem ascendência açoriana”.

Questionada quanto ao futuro e num eventual regresso de iniciativas da FLAD aos Açores, Rita Faden disse: “espero que sim, para já fizemos em março e abril o ciclo de cinema independente Outsiders que apresentamos na ilha Terceira, em Angra do Heroísmo, e na Praia da Vitória, e é uma iniciativa que temos eventualmente de ponderar continuar. A inauguração desta exposição não vai ser a última iniciativa da Flad nos Açores, isso certamente”, assegura: “nós prometemos voltar.”

Clife Botelho

Reportagem publicada na edição impressa de junho de 2022

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