Férias com máscara e medição de temperatura corporal

Também as crianças estão sujeitas às novas regras sanitárias impostas pela pandemia.
Visitámos duas instituições para perceber que novidades trouxeram as férias

Temperatura é medida três vezes por dia no campo de férias da biblioteca Tomaz Borba Vieira Foto DL

De máscara e com os sapatos do filho na mão, é desta forma que Tânia Mendes passa o portão da antiga escola primária da Atalhada rumo à sala onde Afonso está com os colegas no Centro de Atividades de Tempos Livres (CATL) do Centro Social e Cultural da Atalhada (CSCA). Ao Diário da Lagoa conta que é o primeiro dia em que deixa o filho no espaço: “claro que tentamos ao máximo resguardá-los enquanto a gente tem outras opções como nas folgas em que fica ele comigo”, conta Tânia Mendes enquanto espera que a educadora o descalce para calçar os sapatos que a mãe trouxe e que estão destinados à rua. “Como profissional de saúde também tive que redobrar os cuidados em casa, também criei uma zona suja, a zona de entrada”. E é à entrada que fica qualquer pai que vá buscar o filho.

Ninguém entra nas instalações do CATL do CSCA. A conversa da responsável com o Diário da Lagoa, decorreu, também ela, no exterior das instalações, onde só estão funcionários e crianças. Dulce Picanço explica que as mudanças no dia-a-dia são muitas: “quando as crianças chegam têm de calçar os sapatos que têm só para dentro do edifício. À sexta-feira higienizamos todos, se forem crocs, se forem sapatilhas os pais levam e fazem essa higienização”.

Pais não podem entrar nas instalações e trazem os sapatos dos filhos Foto DL

“Quando falamos no «bichinho» eles sabem o que é”
A cada uma das cerca de 60 crianças, dos 3 aos 12 anos que atualmente frequenta o CATL do Centro Social e Cultural da Atalhada, é medida a temperatura não sendo obrigatório o uso de máscara por parte das crianças até aos 10 anos. As mãos são desinfetadas e “tudo o que vem de casa tem de vir em sacos zipados”, explica a educadora de infância que passa boa parte do seu tempo a desinfetar o espaço que acolhe as crianças. “Nós estávamos mais direcionadas para estar e trabalhar com eles, agora também temos que ter esse cuidado da limpeza e da desinfeção constantemente”, sublinha Dulce Picanço.

Os brinquedos são desinfetados pelo menos duas vezes por dia e quem diz brinquedos diz mesas, cadeiras, casas de banho ou maçanetas das portas. Até os livros são higienizados e depois de utilizados cumprem uma quarentena de 12 horas até poderem ser manuseados novamente.

A própria roupa das funcionárias tem de ser outra quando entram ao serviço. “A partir do momento em que entramos temos que calçar umas pantalonas para poder ir para o nosso sítio trocar de roupa. Temos que trocar a roupa toda que trazemos da rua, vestir uma roupa só para usar cá dentro e os sapatos também são de usar cá dentro, isto tudo depois de desinfetar as mãos à entrada e de vir de máscara desde a rua”, explica a responsável pelo CATL da Atalhada. A educadora não esconde o cansaço de tanta mudança mas elogia pais e crianças: “elas adaptam-se muito mais facilmente que os adultos e eles seguem o que pedimos, quando falamos no «bichinho» eles sabem o que é, o que faz e o que não faz, os pais fizeram um excelente trabalho durante a quarentena”, destaca a responsável pelo CATL da Atalhada.

Temperatura medida 3 vezes ao dia
Inês Duarte, 9 anos, já sabe de cor o que tem de fazer de cada vez que volta a entrar numa das salas do Convento de Santo António com acesso ao jardim de Santa Cruz. Na entrada, entra rapidamente: primeiro coloca um pé e depois o outro, numa caixa preta com desinfetante para os sapatos. Imediatamente a seguir estende as mãos sobre uma pequena mesa onde está um dispensador de mais desinfetante. “Estamos todos muito cansados de por as máscaras, desinfetar as mãos, os sapatos, está a ser muito cansativo para nós”, responde prontamente ao Diário da Lagoa. Inês e os restantes 10 colegas têm de usar máscara sempre que se encontram nos espaços interiores. Apenas o mais novo, de 8 anos, não usa. Miguel Gomes, de 11 anos, tem a mesma opinião da colega e diz que “é cansativo” mas vê pelo uma vantagem: “podemo-nos rir e fazer brincadeiras que ninguém percebe”, brinca.“Tivemos que analisar todas as circulares sobre os ATL´s e também um geral sobre os campos de férias e foi esse que nós adotamos porque se adequava mais ao tipo de projeto que estamos a desenvolver” explica Cátia Meireles, que nos últimos oito verões se tem ocupado do projeto “Férias na Biblioteca” da responsabilidade da Câmara Municipal de Lagoa, na Biblioteca Tomáz Borba Vieira.

Três vezes por dia com a ajuda de um termómetro digital, as monitoras do campo de férias medem a temperatura às crianças que têm entre 8 e 12 anos. “É uma forma de controlo para ver se há algum sintoma, medimos de manhã, na hora de almoço e à tarde quando vão embora”, explica a responsável pelo campo de férias.

Crianças do projeto “Férias na Biblioteca” usam máscara e medem temperatura três vezes ao dia Foto DL

Desinfetantes para passeios no exterior
Para além de terem reduzido para metade o número de participantes e aumentado o espaçamento entre mesas e lugares, por aqui, desinfeção é palavra de ordem dentro e fora das instalações. As brincadeiras no exterior são as preferidas e as saídas também. No passeio que fizeram, por exemplo ao parque da Macela, o material de desinfeção seguiu com o grupo: “levamos sabão para as mãos e desinfetante para o baloiço e para o escorrega, temos essa preocupação, para que eles estejam seguros, minimizando ao máximo um possível contágio”, assegura Cátia Meireles.

Miguel Gomes confirma que este ano é tudo diferente, até os passeios: “na visita ao Museu Carlos Machado só foi metade do grupo, da próxima vai a outra metade”. Para quem trabalha com crianças, mais do que o trabalho que aumentou, a principal dificuldade está em garantir a menor proximidade possível. “Eles têm necessidade de estar perto uns dos outros, precisamos de afeto, de estar perto dos nossos amigos, mas sempre que alertamos para não estarem juntos, eles acarretam a ordem”, garante a responsável.

“Preferia como brincávamos, aproximávamo-nos mais, podíamos abraçar e agora não, só podemos fazer assim”, exemplifica Inês, encostando o seu cotovelo com o cotovelo da jornalista, tendo-se prontificado logo para responder a qualquer pergunta sobre a nova normalidade das suas férias.

Sara Sousa Oliveira

(Reportagem publicada na edição impressa de agosto de 2020)

Categorias: Reportagem

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