Família separada por nova realidade no futebol profissional

O melhor marcador de sempre do Santa Clara é agora diretor técnico do único clube açoriano na primeira liga. Clemente está no continente com a equipa durante dois meses longe da família

Carina, Tomás, Alice com Clemente em videochamada Foto: DR

A videochamada é, mais do que nunca, a melhor amiga de Carina Martins, Alice, 11 anos e Tomás, de 5. “Fazemos videochamada constantemente, quando acordamos, ao almoço, à tarde, à noite, a toda a hora e tentamos falar sempre que podemos mas é complicado”, confessa Carina.
“Eu fico com saudades do pai”, responde Tomás quando lhe perguntámos se ajudava mais a mãe desde que o pai estava fora. “Já estou habituada a lidar com a distância por exemplo em relação à minha família que está no Algarve, já fazia videochamada com a minha mãe, com as minhas irmãs, as minhas sobrinhas, mas agora ainda mais”, explica a mulher de Clemente Ventura. O melhor marcador de sempre do Santa Clara vai estar afastado da mulher e dos dois filhos durante dois meses. Até ao dia 28 deste mês vai estar na Cidade do Futebol em Oeiras.
Clemente, desde cedo se ligou ao futebol. Passou por 8 clubes em 18 anos como jogador de futebol e foi por causa dele que conheceu a mulher, quando ainda era jogador do Louletano. No Santa Clara foi o melhor marcador da história do clube e foi nele que entrou em campo pela última vez. Desde que deixou os relvados, no ano passado, assumiu a função de diretor técnico do único clube açoriano na primeira liga e é com a nova função que teve de deixar a família para se juntar à equipa técnica, direção e jogadores rumo ao continente, onde o Santa Clara vai cumprir os 10 jogos que faltam para o fim do campeonato, que esteve suspenso devido à pandemia Covid-19.

Clemente está na Cidade do Futebol com o Santa Clara Foto: DR

“Eu sempre estive habituado a estar fora mas desta vez é diferente. É extremamente difícil para a Carina ter que fazer a sua vida, ter que ir ao supermercado e os miúdos não poderem ir, ter que usar máscara e outros cuidados que não se tinha, a nossa maneira de estar na vida mudou completamente”, conta o lagoense. Carina Martins formou-se em jornalismo. Trabalha atualmente no gabinete de comunicação da Câmara Municipal de Lagoa e está em teletrabalho desde o início da pandemia: “não foi muito fácil, a Alice esteve em telescola, era o Clemente que fazia as compras cá para casa e agora tenho de fazer tudo mas tenho a sorte de ter uns sogros espectaculares que estão sempre disponíveis para tudo”.

“Eles nem podem ir às compras!”
Clemente e a restante comitiva açoriana tem inúmeras restrições durante os dois meses em que estão na Cidade do Futebol. “Não podemos estar em contacto com praticamente ninguém, as regras aqui são muito apertadas, temos jogos com adversários e não sabemos se esses adversários podem ou não estar infetados e temos que estar sempre vigilantes”, explica o dirigente desportivo.
Ninguém da comitiva do Santa Clara está autorizado a sair da Cidade do Futebol. “Eles nem podem ir às compras!” diz com espanto, o pequeno Tomás. “Nada de compras”, prossegue Carina, “aliás o Clemente levou daqui um carregamento das coisas que ele sente mais falta como…”, a mãe nem teve tempo de terminar a frase quando Alice e Tomás respondem em uníssono: “chocolate”. “Agora o chocolate dá para mais tempo”, explica Alice, sendo aparentemente essa a única vantagem de não ter o pai por perto: “está a ser difícil, já temos saudades dele, ele conta o que é que há lá, ele mostra onde é que ele está e como estão a ser os treinos e também nos pergunta como está a correr a escola e essas coisas”, explica a filha mais velha do casal.

Dois testes à Covid-19 antes de cada jogo
Em Oeiras, a vida é bem diferente da que o antigo jogador do Santa Clara tinha em São Miguel.
As deslocações só podem ser duas: para o hotel onde estão hospedados ou para o campo do adversário onde defrontam os jogos. E antes de cada jogo, todos são testados duas vezes à Covid-19: “fazemos testes 48 horas e 24 horas antes de cada jogo, é uma sensação extremamente desagradável, mas sabemos que é preciso. Todos os dias de manhã temos de medir a temperatura, temos que mudar de máscara, ao início foi difícil mas já estamos habituados”, conta Clemente. Em dia de jogo, as equipas não se cruzam, entram por portas diferentes, em balneários diferentes para que em momento algum se cruzem, sem ser em campo. “O Santa Clara infelizmente não tem equipa sub 23 nem equipa B, somos apenas 23 jogadores e temos que ter muito cuidado porque se tivermos uma infeção ficamos com o plantel muito reduzido”, explica. O lagoense defende a opção do Santa Clara em manter-se durante dois meses consecutivos no continente para completar a competição: “nós achamos por bem, primeiro defender a saúde dos açorianos e não jogar nos Açores e também a nível financeiro o Santa Clara tomou a melhor decisão. É um sacrifício que fazemos mas para o bem do clube e da Região. Os açorianos têm que estar orgulhosos daquilo que temos vindo a fazer e do esforço que o clube fez em vir cá para fora”, conta.

“O Clemente já não joga mas continuamos a vestir a camisola dele”
Os dias pesam mais longe da família: “estive 40 e tal dias, 24 horas por dia, com a Carina e com os miúdos e depois deixo-os e venho para o continente e não estou nenhum tempo com eles, é o que me custa mais”, conta Clemente. O dirigente desportivo não tem dúvidas de que a equipa “estando concentrada, a almoçar, a jantar juntos, é normal que isso fortaleça os laços, estamos mais unidos mas acima de tudo focados em representar bem os Açores”.
Para minimizar a distância, tenta-se a cada jogo aproximar as famílias aos jogadores e dirigentes.
Vestidos a rigor, com as cores do Santa Clara, a família de Clemente aparece num dos ecrãs do estádio durante os jogos através da aplicação Zoom. “Eles mandaram-nos um link para as famílias, quem quisesse aparecia em direto nos ecrãs gigantes, na altura dos golos, principalmente, aparecemos a festejar”, explica Carina. “Foi um momento fantástico e que vai se repetir em todos os jogos. É benéfico não só para os jogadores como para todo o staff e acima de tudo para quem gosta do Santa Clara que pode entrar nessa plataforma e aparecer em direto no estádio a ver o jogo, foi bonito”, diz o ex-jogador. E, mesmo à distância, a família Martins Ventura não perde um jogo do Santa Clara, antes iam sempre ao estádio de São Miguel mas agora passam a seguir a equipa através da televisão. “O Clemente já não joga mas continuamos a vestir a camisola dele”, conclui Carina.

Sara Sousa Oliveira

(Reportagem publicada na edição impressa de julho de 2020)

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