“Estivemos cerca de um ano e meio sem tirar qualquer salário”

Dois jovens micaelenses arregaçaram as mangas e abriram uma agência de seguros. Quatro anos depois, têm quatro lojas espalhadas pela ilha. Têm um crescimento anual de 46 por cento mas têm tido muitas dificuldades em contratar colaboradores

Carlos Rego e Albano Viveiros abriram uma agência de seguros em 2017 © D.R.

Fomos visitar a sede da GS, na Fajã de Baixo, em São Miguel, onde Carlos Rego, de 30 anos, e Albano Viveiros, de 35 anos, são sócios e proprietários da empresa da área de gestão de seguros e créditos. Como é que dois jovens lançaram uma empresa de sucesso e o que tiveram de fazer para chegar ao topo? Tentámos encontrar as respostas numa conversa com os dois jovens micaelenses que não tiveram medo de arriscar. 

Como surgiu este negócio?
Carlos: O meu pai quando se reformou teve um convite para fazer a formação de mediador e começou a colaborar numa seguradora. Ele tinha uma carteira residual, era mais um passatempo. A mãe do Albano fez a mesma coisa, mas mais a sério e tinha uma carteira com alguma dimensão.
Albano: E conhecemo-nos por intermédio da minha mãe, ela queria reformar-se, havia uma oportunidade de negócio, ela falou-me no Carlos, fui conhecê-lo e decidimos unir as duas carteiras em 2017. O Carlos já estava no ramo há três anos, eu comecei a sério em 2018.
Carlos: Juntamo-nos com o compromisso de fazer uma coisa a sério. Decidimos investir.

Quatro anos antes imaginavam-se a trabalhar nesta área?
Albano: Como estudei em Lisboa e trabalhei uns bons anos lá, cheguei a um ponto da minha vida em que senti que tinha de ser empreendedor. Queria vir para cá, criar família e apareceu esta oportunidade. Digamos que os astros juntaram-se para que as coisas corressem bem.
Carlos: Também acho que tem muito que ver com a oportunidade. Eu estava a estudar cá, nos Açores, e quando surge, pensei “bem, a altura é esta”.

Sentiram receio?
Albano: Não.
Carlos: Eu acho que se soubéssemos tudo o que sabemos hoje, se calhar teríamos mais dificuldades em dar o primeiro passo. Fomos otimistas. Mas quando se começa a ver os impostos a que as empresas estão sujeitas, é difícil. Estivemos cerca de um ano e meio sem tirar qualquer salário.
Albano: Cumprimos todas as nossas obrigações mas o nosso salário ficou sempre para o fim.
Carlos: Foi ano e meio a trabalhar por amor à camisola, praticamente. Uma receita para o sucesso foi, também, dar um passo de cada vez. Tínhamos a sede e primeiro fizemos obras só em metade do espaço. Começamos a trabalhar os dois sozinhos, não contratamos logo. Só quando já havia a possibilidade, arranjamos então um colaborador. Foi tudo assim, degrau a degrau.
Albano: Mas agora sim, sentimos que a empresa já tem a estabilidade para respirar.

Depois abriram mais uma loja.
Carlos: Em 2020, na Candelária. Dos Arrifes aos Mosteiros não havia nada, foi uma aposta ganha. E abrimos em plena pandemia, em maio.

Como contornaram a pandemia?
Carlos: Nós tentamos fazer teletrabalho, mas passados dois ou três dias chegamos à conclusão que era impossível. Não só por nós, mas também porque há muitas pessoas que ainda não usam o e-mail. Almoçávamos todos aqui, desinfetávamos tudo para não contaminar ninguém. E não perdemos negócios, não diminuímos a faturação, mas se não houvesse pandemia talvez crescêssemos mais.
Albano: Não fomos das áreas mais afetadas. os seguros deverão ser sempre das últimas coisas a serem canceladas.

Depois da Candelária, abriram na Lagoa.
Carlos: No mesmo ano, em outubro de 2020, e nos Arrifes no ano seguinte. Na Lagoa temos concorrentes diretos mas estamos localizados no coração da cidade [No Rosário]. Uma das nossas grandes vantagens é a disponibilidade. Temos uma equipa muito unida e sempre disponível. Temos sempre quem atenda as chamadas. Isso faz a diferença.
Albano: Temos a sorte de ter uma equipa muito competente e sempre predisposta a fazer o que é necessário.

A equipa envolve quantas pessoas?
Carlos: Neste momento sou eu, o Albano, mais quatro pessoas e um estagiário. A maior parte começou ao abrigo do programa Estagiar T e Estagiar L, passaram entre seis a sete meses em formação. É uma aposta, nem sempre dá certo, mas à partida reconhecem e sentem que se trabalharem bem e forem competentes ficam aqui.
Albano: É uma ajuda enorme, ainda por cima para uma empresa que é relativamente nova.

Mão de obra especializada é fácil encontrar?
Carlos: Agora não conseguimos arranjar uma única pessoa para o Estagiar T e L, e estamos a falar de uma área de gestão e administração, uma área abrangente. É uma área que as pessoas podem não ter conhecimentos mas damos toda a formação, especializamos as pessoas até porque são obrigadas a ter um curso de mediação. Nos dias de hoje não conseguirmos uma única pessoa, assusta um pouco. Podemos vir a precisar. Estamos a ter um crescimento anual de mais de 40 por cento e isso significa que no próximo ano, ou depois, vamos precisar de mais pessoas e não conseguimos arranjar. 

Ao nível dos seguros trabalham em que vertentes?
Carlos: Com qualquer tipo de seguro. No dia a dia temos o seguro do carro e da casa, seguros de vida e de acidentes pessoais, e seguros de saúde que agora são muito requisitados devido à abertura do novo Hospital Internacional dos Açores, na Lagoa. Para as empresas temos imensas soluções a preços muito competitivos.

Também trabalham com créditos.
Carlos: Fazemos intermediação de créditos, isso vai desde o crédito à habitação, crédito automóvel, crédito pessoal, leasings e rentings para empresas, tudo isso. 

Qual é a vantagem para os clientes?
Falam connosco, enviam-nos os dados que nós precisamos e temos aprovações no sistema imediatas, na hora, em 5 a 10 minutos. Casos mais complexos, em 24 horas temos o resultado. A grande vantagem para os clientes é que falam com uma pessoa só e nós vemos todas as soluções. Quando vou falar com a pessoa já vou com a melhor prestação do mercado aprovada e a pessoa decide.

Como vêem o futuro?
Carlos: Acho que devemos ser dos mais jovens nesta área. O que também tem-nos trazido alguma vantagem. A concorrência são pessoas com experiência, com mais idade, mas temos vindo a apostar muito no digital e acho que o futuro vai ser por aí. Mas nunca podemos descurar a parte da proximidade que as lojas trazem.
Albano: Há sempre certos assuntos que uma pessoa quer falar pessoalmente.
Carlos: Seguros e dinheiro é sempre algo em que tem de haver confiança e essa confiança é difícil de se estabelecer pelas redes sociais ou por e-mail. Normalmente para se fechar um negócio há uma visita presencial que se correr bem podemos depois até nunca mais reunir. As pessoas querem sempre associar uma cara.

DL Empresas

Entrevista publicada na edição impressa de fevereiro de 2022

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