“Estava em casa num domingo e liga-me o Delegado de Saúde a dizer que tínhamos de fechar o lar”

Três casos suspeitos de Covid-19 levaram ao encerramento do Lar de Santo António em março. O Diretor Técnico conta o que se passou e como foram os últimos meses na instituição

Tiago Almeida dirige o Lar de Santo António há dois anos Foto: DL

Tiago Almeida é licenciado em enfermagem e pós-graduado em Cuidados Continuados e Paliativos. Está no comando técnico do Lar de Santo António há dois anos. Lidera uma equipa de 16 profissionais que asseguram o funcionamento da instituição. Lida diariamente com a fragilidade de meia centena de vidas, alguns totalmente dependentes, que viram tudo mudar entre 4 paredes.

DL: Como é que a pandemia foi vivida no lar?
Foi muito complicado. A Região Autónoma dos Açores em termos da incidência de novos casos estava numa fase menos avançada do que em Portugal continental. Penso que logo no início, em que existiam muitos lares que tinham utentes infetados, o que acontecia era que as funcionárias literalmente estavam em pânico, as funcionárias e diga-se, eu também. Sabendo que nós trabalhamos com uma população de risco, ainda nos aumenta exponencialmente a ansiedade. Acho que nunca senti tanta ansiedade e há muitos anos que trabalho e em várias instituições, não só nesta. E acho que inevitavelmente eu e todos os funcionários acabamos por sofrer um pouco de burnout.

DL: E os utentes como é que viveram a situação?
Eu acho que eles também tiveram muito medo. As medidas foram sendo tidas em conta de forma gradual. Eles foram se apercebendo que fomos aumentando a gravidade das medidas, claro que isto também varia de utente para utente. Há aquele que é super orientado, independente e até sai e regressa de carro e a determinada altura viu-se privado dessa liberdade, há aquele que não sai mas que está completamente orientado e consegue perceber o que se passa à sua volta mas há também quem nem se apercebe do que se passa. Numa fase inicial, sentiram medo, numa fase posterior, uma certa revolta. A determinada altura já estavam fechados há algum tempo e perceberam que se acontecesse alguma contaminação seriam os funcionários a trazer.

DL: Como foi lidar com esse peso?
Claro que eleva exponencialmente a ansiedade. Uma coisa boa que a pandemia trouxe foi que toda a gente se uniu. E o que acabou por acontecer enquanto estratégia foi que as pessoas uniram-se de tal forma que ainda hoje as pessoas interagem de forma completamente diferente entre elas. Vou contar uma experiência muito particular que nos traumatizou a todos. E digo traumatizou ponderando bem a palavra que estou a utilizar.
A determinada altura estávamos muito preocupados em como nos organizar. Acontece que três utentes nossos vêm do hospital para cá para a unidade de cuidados continuados e vêm da Medicina I. Os nossos utentes não têm indicação para fazer teste porque ainda não tinha saído a normativa da DRS apesar de já ter saído a normativa da DGS. Nessa altura não há problema nenhum, não há transmissão comunitária na ilha de São Miguel, todos os focos que existem estão identificados e devidamente controlados, só que não. Eu estava em casa num domingo e liga-me o Delegado de Saúde a dizer que nós tínhamos de fechar o lar. Vim para cá e o que se verificou foi que existia existia um foco de contaminação dentro do hospital que se tinha iniciado na Medicina I. Existiam vários profissionais de saúde que estavam contaminados e tinham contaminado alguns utentes. Três de cá poderiam eventualmente ser casos positivos portanto eram suspeitos e iriam fazer teste e fizeram. O que o Delegado de Saúde decidiu fazer foi fechar o lar até sair o resultado dos três testes.

DL: O lar encerrou por completo?
O lar esteve fechado 48 horas, no final de março. Ninguém entrou nem saiu. Estávamos reduzidos ao mínimo, era um fim de semana, tínhamos muito poucos funcionários ao serviço. Fechar o lar e ficar aqui sempre a mesma equipa a trabalhar 24h é de um desgaste físico e emocional extenuante. Até saber o resultado dos testes, muitas peripécias, agora são peripécias, mas na altura não tiveram graça nenhuma. Tivemos utentes que começaram a ter febre, utentes que começaram a ter dificuldade respiratória. Os utentes que tinham feito teste tiveram que ser encaminhados para o hospital porque entretanto o estado de saúde deles deteriorou-se. A determinada altura eu tinha quase a certeza que os utentes estavam positivos e que já havia um grande grau de disseminação dentro do lar. Nós tivemos que ficar cá a dormir, fazer todas as camas, assegurar todos os serviços, alimentação, lavandaria, limpeza.

DL: Mas depois esses três utentes que estiveram internados testaram negativo à Covid-19?
Felizmente 48h depois de nós estarmos cá soubemos que o resultado felizmente estava negativo, ao mesmo tempo que sabíamos que Nordeste tinha dado positivo. Tivemos muita sorte porque isto foi uma questão de roleta russa, calhou-nos os utentes que não estavam contaminados mas podia-nos ter calhado utentes que estavam contaminados.

DL: Os outros utentes com febre e dificuldades respiratórias foram testados?
Não, não foi testado mais ninguém. Depois a definição de caso suspeito foi alterada. O que se verificou foi que depois numa fase posterior todos os utentes que apresentavam febre sim, faziam teste. Naquela fase ainda não. Claro que os utentes aperceberam-se que eram sempre os mesmos funcionários que estavam cá e o que é que se estava a passar. Estávamos todos de máscara, na altura ainda não era obrigatório.

DL: Explicaram o que aconteceu?
Eu acho que eles perceberam. Não foram fazendo perguntas, curiosamente, não se mostraram revoltados, ficaram relativamente serenos. E no fim ficaram contentes ao se perceberem que não tinha passado de um susto.

DL: A experiência que se adquiriu é uma mais valia para o futuro?
Há três meses não estávamos preparados e agora estamos preparados. Havendo um caso de contaminação cá dentro a disseminação será muito mais reduzida do que há três meses, não tenho qualquer dúvida.

DL: O que foi mais reconfortante nos últimos três meses?
O reconhecimento que existe dos funcionários, dos utentes e dos familiares. Eles conseguiram perceber que todas as medidas restritivas aconteceram para o bem estar de todos. Nós crescemos muito enquanto pessoas, tecnicamente, profissionalmente e pessoalmente. Claro que provavelmente terão de ser feitas mais mudanças, isto ainda não acabou, não sei se virá uma segunda vaga ou não, mas independentemente disso fica o conhecimento e um crescimento acima de tudo.

Sara Sousa Oliveira

(Entrevista publicada na edição impressa de julho de 2020)

Categorias: Entrevista

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