{"id":99889,"date":"2022-01-29T15:37:10","date_gmt":"2022-01-29T15:37:10","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/?p=99889"},"modified":"2025-09-27T21:46:38","modified_gmt":"2025-09-27T21:46:38","slug":"vozes-na-rua-envelhecidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodalagoa.pt\/es\/vozes-na-rua-envelhecidas\/","title":{"rendered":"Vozes na rua, envelhecidas!"},"content":{"rendered":"<h3 class=\"wp-block-heading\">(\u2026) em viagem pelo tempo na minha Vila de \u00c1gua de Pau<\/h3>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/RoberTo-MedeirOs-_DR.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-83287\" width=\"429\" height=\"429\"\/><figcaption><strong>Roberto Medeiros<\/strong><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Hoje quando cheguei \u00e0 Pra\u00e7a de \u00c1gua de Pau apoiei-me \u00e0 parede de um edif\u00edcio e pareceu-me ouvir vozes na rua, envelhecidas! Fechei os olhos e l\u00e1 estavam, passeando-se no meu pensamento. Surgiu-me ent\u00e3o motiva\u00e7\u00e3o para recordar-me de pessoas desta terra que conheci ou ouvi falar dos seus feitos, durante os antigos ser\u00f5es de fam\u00edlia, no canto da rua da Carreira e nas Pra\u00e7as Nova e Velha da minha Vila de \u00c1gua de Pau.<br \/><br \/>Recordo-me que era gente de saber de quase tudo; de mexer na terra, de falar das pescas, de saber fazer uma esparrela pra apanhar can\u00e1rios, de saber contar hist\u00f3rias, e, que me ensinaram como \u00e9 bom conhecer a raz\u00e3o de tudo e das coisas que nos rodeiam.<br \/><br \/>Quando hoje penso nos tempos que j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o, nas pessoas com quem eu me criei, brinquei e pintei-o-corisco na minha mocidade maravilhosa, recordo os meus amigos antigos. Por onde andar\u00e3o os que nunca mais vi? &#8230; o Roberto \u00abmarr\u00e3o\u00bb, o Jo\u00e3o \u00abrat\u00e3o\u00bb, o Jorge \u00abbraz\u00bb, o Virg\u00ednio \u00abarrepiado\u00bb, o \u00abningrinhas\u00bb, o \u00abpim-de-leite\u00bb e tantos outros. Sabe-se l\u00e1! \u2026 andaram na mesma escola que eu andei at\u00e9 que\u2026 eu fui para a cidade estudar e muitos deles emigraram. Hoje toda gente \u201cestuda\u201d. Naquele tempo n\u00e3o pass\u00e1vamos de 10 na nossa terra a apanhar a camioneta do Varela conduzida pelos motoristas Jos\u00e9 Viveiros ou Mariano de Lima, na carreira das sete que vinha da Vila Franca ou na do Manuel Canadi que sa\u00eda \u00e0s sete e meia mesmo da Pra\u00e7a d\u2019\u00c1gua de Pau&#8230;<br \/><br \/>Dos que emigraram, no in\u00edcio e meio da d\u00e9cada de 1960, passados menos de dez anos, alguns regressaram \u00e0 terra, por altura da festa da Quirida Senhora dos Anjos, no m\u00eas de Agosto.<\/p>\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Praca-de-Agua-de-Pau-1966-c-DR-CINZA.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-99890\"\/><figcaption><sup><strong>Era pela Pra\u00e7a que tudo passava, prociss\u00f5es, cortejos de oferendas e do Esp\u00edrito Santo (1966) <\/strong> <span class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\">\u00a9 D.R.<\/span> <\/sup><\/figcaption><\/figure>\n\n\n<p>Nalgum tempo, em que os primeiros emigrantes voltaram a \u00c1gua de Pau, um \u201cd\u00f3lar\u201d americano valia 27$50 (vinte e sete escudos e cinquenta centavos). Era uma folia v\u00ea-los com poucos \u201cdollars\u201d na algibeira, fazerem-se de ricos nos caf\u00e9s e tabernas da Pra\u00e7a. Uma cerveja custava 2$50 o que era o mesmo que dizer que se um emigrante entrava no caf\u00e9-e-casa-de-pasto (nunca percebi porque davam este nome a um restaurante) do senhor Guilherme D\u2019Arruda, bastava-lhe um d\u00f3llar, para pagar uma rodada a 11 pessoas, ou seja, a todos os que por l\u00e1 andavam \u201c\u00e0 gosma\u201d duma cervejola. Todos entravam na \u201ccorrida\u201d mesmo os que j\u00e1 l\u00e1 estavam ainda em viagem da \u00faltima bebedeira, da semana passada ou do dia anterior, se n\u00e3o fosse j\u00e1 daquele mesmo dia at\u00e9!<br \/><br \/>Como dizia, todos entravam na rodada, pois ver \u201cgente-alegrinha\u201d era uma das satisfa\u00e7\u00f5es dos nossos emigrantes. \u00c9 como se dizia antigamente \u2013 n\u00e3o faltavam ca\u00eddos sempre \u00e0 espera dos emigrantes na Pra\u00e7a, quer do lado de fora, quer do lado de dentro dos caf\u00e9s. Nesse tempo, \u00c1gua de Pau tinha a fama de ter o famoso vinho de cheiro da Caloura, mas os \u201cca\u00eddos\u201d estavam fartos de \u201clevantar-Nosso-Senhor\u201d (copos-de-vinho), durante todo o ano, que mal chegavam os emigrantes para as festas de agosto, antes da vindima, ningu\u00e9m bebia j\u00e1 vinho velho. Eram as cervejolas que faziam \u201cfun\u00e7\u00e3o-de-goela\u201d dos \u201cca\u00eddos\u201d pela Pra\u00e7a.<br \/><br \/>Nem vou falar aqui dos nomes dalguns ca\u00eddos, para ningu\u00e9m cair da cadeira, quando lesse os mais curiosos nomes de como eram conhecidos \u00e0 boca-cheia os ditos amigos da Pra\u00e7a. Eram engra\u00e7ados os nomes apenas e muito t\u00edpicos na maneira de identific\u00e1-los na nossa terra. S\u00f3 recordo dentre tantos o do Serafim \u00abgaiafo\u00bb ou \u00abchonina\u00bb, porque se publicou aqui a sua foto. Um impulso traz-me \u00e0 mem\u00f3ria tamb\u00e9m o Z\u00e9 da Ti-Gl\u00f3ria \u00abgiganta\u00bb, o homem dos marr\u00e3os. Parecia-me v\u00ea-lo, como se fosse hoje, a entrar na Pra\u00e7a pelo Largo do antigo Barrac\u00e3o. Trazia segurando numa das m\u00e3os duas \u201cguitas\u201d de linho-de-russo, \u00e0 volta do pesco\u00e7o de dois marr\u00e3ozinhos que algu\u00e9m tinha comprado no improvisado campo-dos-porcos, na velha e terreira Canada da Espiga. O Z\u00e9 da Ti Gl\u00f3ria \u00abgiganta\u00bb era o portador da marr\u00e3ozada para as casas daqueles que os compravam aos vendilh\u00f5es que os traziam em seir\u00f5es de vime da Ribeira Grande para \u00c1gua de Pau, nas manh\u00e3s de domingo. As suas gritadas soavam-me no ju\u00edzo ainda, recordando-me da maneira como ele desasava os coitados dos marr\u00e3ozinhos, com uma vardasca de vime, malhando dum lado e do outro, das focinheiras, encaminhando-os para a rua dos Ferreiros, para a casa do \u201cMan\u00e9 Reb\u00ea-grande\u201d, que era quem os tinha comprado e ia pagar ao Z\u00e9 da Gl\u00f3ria um quartilho de vinho de cheiro na Casa Benfica, pela tarefa desempenhada.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Voz-do-Passado-Lagoa-Antiga-Agua-de-Pau-cronicas-Roberto-medeiros-Jornal-Diario-da-Lagoa_mai19_1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-73872\" width=\"671\" height=\"857\"\/><figcaption><strong><sup>Era na &#8220;Pra\u00e7a&#8221; que os homens se juntavam para procurar trabalho \u2013 Campon\u00eas Serafim Gaiafo (1965<\/sup><\/strong>) <sup><span class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\">\u00a9 D.R.<\/span><\/sup><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Naquele tempo aqueles amigos ou ca\u00eddos encostavam-se \u00e0s paredes dos caf\u00e9s e das tabernas. Hoje, quem se encosta \u00e0s paredes na Pra\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o os ca\u00eddos s\u00e3o os desca\u00eddos, sem trabalho ou sem interesse no trabalho ou ent\u00e3o, e tamb\u00e9m, a conviver na Pra\u00e7a, que \u00e9 uma pr\u00e1tica muito antiga tamb\u00e9m desta terra \u2013 viver e conviver fora-de-portas!<br \/>Antigamente essa tradi\u00e7\u00e3o de viver e conviver fora-de-portas e ter sempre gente na Pra\u00e7a, durante o dia, ganhou for\u00e7a porque as fam\u00edlias eram numerosas para casas pequenas. Apenas coabitavam juntos nas horas das refei\u00e7\u00f5es, ou \u00e0 noite, bem entendido. Assim que amanhecia\u2026 \u201c\u00e1la toda a gente p\u2019r\u00e1 rua\u201d; crian\u00e7as p\u2019r\u00e1 escola, rapazinhos pr\u00f3 campo desviar-praga nas sementeiras desde a Amoreirinha ao Pis\u00e3o, que \u00e9 como quem diz de ponta-a-ponta da nossa vila.<br \/>Os rapazes iam para as ind\u00fastrias de vimes, os homens iam para o campo dar (ao corpo) uma semana ou um dia de trabalho nas terras dos agricultores. J\u00e1 as raparigas iam para a costura nas Henriques, para as vindimas, para as desfolhadas de milho, para as f\u00e1bricas de cordas de linho-de-russo (espadana) e outros of\u00edcios dom\u00e9sticos.<br \/>Os nossos pescadores, recordo-me, tamb\u00e9m tinham de ir para a Caloura sempre em grupos de mais de duas \u201ccompanhas\u201d para ajudarem-se mutuamente no varar e recolher das embarca\u00e7\u00f5es a bra\u00e7os, pois ainda n\u00e3o havia o guincho el\u00e9trico para puxar as embarca\u00e7\u00f5es que regressavam com peixe.<br \/><br \/>Recordo-me dos gritos-de-ordem alucinantes do Arm\u00e9nio Pacheco pescador, pois os mesmos ecoavam na rocha da Caloura e espalhavam-se, ouvindo-se muito bem no Castelo, Portela e Cinzeiro da Caloura.<br \/><br \/>Desperto de tudo isso porque, entretanto, algu\u00e9m buzina seu carro e traz-me de volta \u00e0 realidade, numa Pra\u00e7a diferente, cuja fun\u00e7\u00e3o continua a fazer a sua hist\u00f3rica. Mas, agora com outras pessoas, com algumas das que antigamente a conheceram provavelmente. Depois ainda ou\u00e7o um chapr\u00e3o qualquer dizer \u2013 \u201cacorda p\u00e1 vida rapaz!\u201d\u2026e l\u00e1 me fui embora para a minha Caloura!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Cr\u00f3nica publicada na edi\u00e7\u00e3o impressa de <span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/DL_2022.01.pdf\">janeiro de 2022<\/a><\/span><\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(\u2026) em viagem pelo tempo na minha Vila de \u00c1gua de Pau Hoje quando cheguei \u00e0 Pra\u00e7a de \u00c1gua de Pau apoiei-me \u00e0 parede de um edif\u00edcio e pareceu-me ouvir vozes na rua, envelhecidas! Fechei os olhos e l\u00e1 estavam, passeando-se no meu pensamento. 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