{"id":86590,"date":"2020-10-11T11:42:49","date_gmt":"2020-10-11T11:42:49","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodalagoa.pt\/?p=86590"},"modified":"2025-09-27T21:46:57","modified_gmt":"2025-09-27T21:46:57","slug":"no-tempo-das-vindimas-e-do-vinho-de-cheiro-da-caloura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodalagoa.pt\/es\/no-tempo-das-vindimas-e-do-vinho-de-cheiro-da-caloura\/","title":{"rendered":"No tempo das vindimas e do vinho de cheiro da Caloura"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/RoberTo-MedeirOs-_DR.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-83287\" width=\"313\" height=\"313\"\/><figcaption><strong>Roberto Medeiros<\/strong><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Francisco Almeida Famoso, quando estava \u201cquentinho\u201d, depois de ter bebido na taberna do Tio Chico In\u00e1cio (hoje CASA ABEL, na Pra\u00e7a) subia a rua da Carreira, em \u00c1gua de Pau, falando consigo, em voz alta, dizendo: &#8211; &#8221; Qual \u00e9 a gra\u00e7a que Deus d\u00e1? \u00c9 comer\u2026 e n\u00e3o pagar! Ora o tio Francisco Famoso tinha um moinho, era portanto um moleiro. As pessoas levavam-lhe o milho para moer, mas depois&#8230; n\u00e3o lhe pagavam. Geralmente o tio Francisco Famoso, n\u00e3o era exigente, nem impertinente, mas &#8220;consciente&#8221; e quando bebia um copinho a mais de vinho de cheiro da Caloura, gostava de dizer sempre essa cantilena: &#8220;Qual \u00e9 a gra\u00e7a que Deus d\u00e1?&#8230; \u00c9 comer&#8230; e n\u00e3o pagar!&#8221; <br \/><br \/>O vinho de cheiro da Caloura era durante a d\u00e9cada de 1960 e antes dela, um dos respons\u00e1veis pelos alevantes, brigas e alegrias e at\u00e9 de &#8220;dan\u00e7as de valeta-a-valeta&#8221;, nas pra\u00e7as de \u00c1gua de Pau. E, quando se diz &#8220;pra\u00e7as&#8221; n\u00e3o \u00e9 por engano. \u00c1gua de Pau, sempre teve a sua Pra\u00e7a Velha e a Pra\u00e7a Nova onde no tempo das vindimas a \u201cvinhaceira\u201d corria e escorria pelas goelas abaixo de centenas de camp\u00f3nios, como hoje correm as cervejolas em dia de festa na mesma pra\u00e7a, 50 anos depois. <br \/><br \/>E, se na Pra\u00e7a Velha sempre houve tabernas de bom vinho, pois, na Pra\u00e7a Nova, constru\u00edda no fim da d\u00e9cada de 1940 com a demoli\u00e7\u00e3o das casas que constitu\u00edam o prolongamento da rua da Trindade entre a casa de Mestre Antero Matos Amaral (depois, supermercado \u201cA Cova da On\u00e7a\u201d e atualmente \u201cMeu Super\u201d) e o Fonten\u00e1rio de N\u00aa S\u00aa dos Anjos, tamb\u00e9m tinha as suas tabernas de bom vinho da Caloura.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Vindimas-Agua-de-Pau-ANTIGAMENTE_RM.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-86591\"\/><figcaption><sup><strong>Nas vindimas da Ti Marquinhas do Amaral<\/strong> FOTO DR<\/sup><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p><strong>\u201cA fun\u00e7\u00e3o de goela, ningu\u00e9m foge a ela\u201d<\/strong><br \/>Era por ali, na Pra\u00e7a Nova, que come\u00e7ava a &#8220;prova&#8221; dos vinhos. A primeira &#8220;prova&#8221; era na taberna do senhor Manuel da Ponte &#8220;Tatchina&#8221;, que era presidente da Banda de M\u00fasica Fraternidade Rural. Era ali que os ainda candidatos a b\u00eabedos da noite, encostavam a barriga ao balc\u00e3o e come\u00e7avam a beber.<br \/><br \/>Como normalmente o caixeiro dizia que o seu vinho \u00e9 que era o melhor, de todas as tabernas da terra, ent\u00e3o o nosso amigo, entrava logo a seguir na do vizinho, para tirar teimas. Assim era e depois seguia-se a do Tio Ant\u00f3nio Miguel, que para lhe acreditarem, que o seu \u00e9 que era mesmo o melhor, acompanhava o cliente na rodada&#8230;o que levava o fregu\u00eas a nova corrida, agora oferta da casa!<br \/><br \/>Quando o nosso amigo, j\u00e1 a trocar as canelas, sa\u00eda desta taberna, tinha \u00e0 sua frente 3 degraus para subir, ent\u00e3o virava-se para a direita e ia de enfiada para a taberna seguinte logo abaixo do senhor Jo\u00e3o de Matos Costa &#8220;bota-abaixo&#8221;, onde, para isso, s\u00f3 tinha de descer um degrau, e, abicando p&#8217;r\u00e1 direita, quando dava por si, j\u00e1 l\u00e1 estava o senhor Ant\u00f3nio Baptista \u201cc\u00e3o-da-rua\u201d, a gozar com ele, questionando-lhe a bebedeira do seguinte modo: &#8211; J\u00e1 est\u00e1s estragado da vinhaceira que bebeste antes de entrares aqui. Por isso n\u00e3o te aguentas! Foi com barrela, que te encharcaram! Aquilo \u00e9 tudo &#8220;acido-t\u00e1rtaro e meta bissulfito&#8221;, que eles p\u00f5em no vinho. A gente aqui \u201c\u00e9 tudo pura uva de cheiro[!]&#8221; argumentava Ant\u00f3nio Baptista que se referia aos conservantes que se colocavam no vinho para o mesmo se aguentar mais tempo nos toneis, das adegas que n\u00e3o conseguiam vender o seu vinho logo ap\u00f3s as vindimas. Independentemente das tabernas que ainda o nosso amigo e muitos outros tinham de fazer &#8220;prova-de-vinho&#8221; at\u00e9 chegarem \u00e0 Pra\u00e7a Velha era uma aventura repleta de hist\u00f3rias c\u00f3micas de &#8220;dan\u00e7as-com-esses&#8221; e de bra\u00e7os abertos e m\u00e3os encostadas \u00e0s paredes das casas da rua da Trindade de cabe\u00e7a inchada. Principalmente ao s\u00e1bado \u00e0 noite, que era quando se recebia a &#8220;f\u00e9ra&#8221; de uma semana de trabalho. Isso queria dizer que antes de irem para casa a maioria dos camponeses passavam pela taberna onde sabiam ter uma boa pinga ou ent\u00e3o corriam a via-sacra, de uma para a outra.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Vindimas-Agua-de-Pau-ANTIGAMENTE-2_RM.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-86592\"\/><figcaption><sup><strong>Antigamente as Tabernas de \u00c1gua de Pau juntavam tamb\u00e9m os<br>amigos e n\u00e3o apenas os que se embriagavam<\/strong> FOTO DR<\/sup><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>No canto da Rua da Carreira, onde eu e os meus amigos, pass\u00e1vamos ao fim do dia e aos fins de semana, muitos momentos agrad\u00e1veis a conviver, era ali tamb\u00e9m que por vezes assist\u00edamos, na altura das vindimas, ou do vinho novo da Caloura, \u00e0 \u201ctravessia\u201d dific\u00edlima que os \u201cencharcados\u201d do vinho-de-cheiro, tinham de fazer, depois de ter entrado em todas as tabernas.<br \/>Desde a do senhor Manuel da Ponte Branquinho \u201cT\u00e1tchina\u201d, passando pela do Tio Ant\u00f3nio Miguel, do senhor Jo\u00e3o de Matos \u201cBota-Abaixo\u201d, at\u00e9 chegar \u00e0 mercearia \u201cA Comercial\u201d do senhor Armando de Melo. Quando chegava a\u00ed\u2026 \u00e9 que estava tudo perdido!!!<br \/><br \/>Para atravessar a rua da Carreira at\u00e9 ao passeio da casa do senhor Braga, a dist\u00e2ncia era muito grande (sete metros) para quem j\u00e1 tinha bebido muitos quartilhos de vinho. Ent\u00e3o, os engra\u00e7ados b\u00eabedos equilibrando-se, de m\u00e3os coladas \u00e0 parede da casa do senhor Armando de Melo\u2026fixavam a porta em frente, que dava acesso aos baixos da casa do senhor Braga, mesmo ali ao nosso lado, encostados \u00e0 parede do canto da mesma casa. <br \/>Era uma cena fora do comum, o homem puxava a barreta para a frente, depois puxava para tr\u00e1s e, parecia que ia arrancar\u2026 mas depois\u2026 dava a ideia de ser uma partida em falso. <br \/><br \/>Equilibrava-se de novo\u2026 fixava a porta e\u2026 l\u00e1 ia ele\u2026de passos r\u00e1pidos, atabalhoados. Parecia um barco remando em mar bravo. Andava em passos sempre aos \u201c\u00e9sses\u201d e quando estava mesmo a aproximar-se do outro lado do passeio, trope\u00e7ava no lancil e afocinhava contra a porta de madeira com caixilho de vidros, que ca\u00edam aos bocados estilha\u00e7ados no meio do ch\u00e3o. <\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Vindimas-Agua-de-Pau-ANTIGAMENTE-3_RM.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-86593\"\/><figcaption><sup><strong>O vinho de cheiro da Caloura era o petisco da conversa do pescador, do campon\u00eas e do padeiro nas Tabernas<\/strong> FOTO DR<\/sup><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>A gente ajudava-os a levantar-se, mas nunca os ajudamos a atravessar! Que maldade a nossa! Gost\u00e1vamos de os ver a fazer a travessia\u2026era essa a gra\u00e7a, claro! S\u00f3 sei que mais tarde aquela porta, deu lugar a uma janela, pois foi fechada at\u00e9 um metro de altura em blocos de alvenaria de cimento. Bom, eram frequentes os preju\u00edzos que esses amigos proporcionavam com as suas travessias \u201cde cabe\u00e7a inchada\u201d. Atualmente tem no seu lugar uma porta em vidro que d\u00e1 entrada \u00e0 Farm\u00e1cia M\u00e2ntua, agora ali instalada.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>(Cr\u00f3nica publicada na <span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/DL79_OUT20.pdf\">edi\u00e7\u00e3o impressa de outubro de 2020<\/a><\/span>)<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco Almeida Famoso, quando estava \u201cquentinho\u201d, depois de ter bebido na taberna do Tio Chico In\u00e1cio (hoje CASA ABEL, na Pra\u00e7a) subia a rua da Carreira, em \u00c1gua de Pau, falando consigo, em voz alta, dizendo: &#8211; &#8221; Qual \u00e9 a gra\u00e7a que Deus d\u00e1? \u00c9 comer\u2026 e n\u00e3o pagar! 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