{"id":6051,"date":"2014-06-25T17:46:58","date_gmt":"2014-06-25T17:46:58","guid":{"rendered":"http:\/\/diariodalagoa.pt\/?p=6051"},"modified":"2025-09-27T21:45:53","modified_gmt":"2025-09-27T21:45:53","slug":"os-imperios-do-espirito-santo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodalagoa.pt\/es\/os-imperios-do-espirito-santo\/","title":{"rendered":"Os Imp\u00e9rios do Esp\u00edrito Santo"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Miguel-Amaral.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-103586\" width=\"413\" height=\"371\"\/><figcaption><strong>Jos\u00e9 Amaral<\/strong><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Na minha cr\u00f3nica de hoje vou falar sobre os\u00a0<strong>Imp\u00e9rios do Divino Esp\u00edrito Santo<\/strong>\u00a0 que s\u00e3o um dos tra\u00e7os mais marcantes da identidade a\u00e7oriana, constituindo um culto que para al\u00e9m de marcar o quotidiano insular, determina tra\u00e7os identit\u00e1rios que acompanham os a\u00e7orianos para todos os lugares onde a emigra\u00e7\u00e3o os levou. Para al\u00e9m dos\u00a0A\u00e7ores, o culto do\u00a0Divino Esp\u00edrito Santo\u00a0est\u00e1 hoje bem vivo no\u00a0Brasil\u00a0e na Am\u00e9rica do Norte.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Apesar da coloniza\u00e7\u00e3o dos\u00a0A\u00e7ores\u00a0s\u00f3 se ter iniciado a partir de 1432, quase 200 anos ap\u00f3s o apogeu da doutrina de\u00a0Joaquim de Fiore\u00a0j\u00e1 ter sido condenada pelo papa\u00a0Alexandre IV, h\u00e1 no arquip\u00e9lago um claro reacender daquelas doutrinas, inspirando manifesta\u00e7\u00f5es religiosas e a\u00e7\u00f5es rituais e simb\u00f3licas que continuam at\u00e9 aos nossos dias. Por influ\u00eancia dos franciscanos espiritualistas, que foram os primeiros religiosos a instalar-se nas ilhas, partilhando com os primeiros povoadores as agruras da coloniza\u00e7\u00e3o, o culto do Divino Esp\u00edrito Santo, ent\u00e3o em apagamento na Europa devido \u00e0 crescente press\u00e3o da ortodoxia religiosa, foi trazido para as ilhas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Sobre as origens do culto e dos rituais utilizados, pouco se sabe, no entanto pensa-se que foram introduzidas em Portugal pela\u00a0Rainha Santa Isabel, que por sua vez as teria trazido de\u00a0Arag\u00e3o. O seu centro principal ter\u00e1 sido em torno de\u00a0Tomar\u00a0 que era sede do priorado da\u00a0Ordem de Cristo,a que foiconfiada a tutela espiritual das novas terras, incluindo dos A\u00e7ores.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">As refer\u00eancias ao culto do Esp\u00edrito Santo aparecem muito cedo e de forma generalizada em todo o arquip\u00e9lago, j\u00e1 que Gaspar Frutuoso, escrevendo cerca de 150 anos ap\u00f3s o in\u00edcio do povoamento, j\u00e1 o menciona, indicando ser comum a todas as ilhas. A expans\u00e3o apenas foi poss\u00edvel se contasse com a toler\u00e2ncia, ou mesmo o incentivo, da Ordem de Cristo. Tamb\u00e9m as refer\u00eancias a festejos feitas nas\u00a0<em>Constitui\u00e7\u00f5es Sinodais da Diocese de Angra<\/em>, aprovadas em\u00a01559\u00a0pelo bispo D. frei\u00a0Jorge de Santiago, demonstram que naquela altura j\u00e1 eram mat\u00e9ria a merecer a aten\u00e7\u00e3o da autoridade episcopal.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">A exist\u00eancia de Irmandades do Divino Esp\u00edrito Santo \u00e9 j\u00e1 generalizada no s\u00e9culo XVI. O primeiro hospital criado nos A\u00e7ores (1498), a cargo da Santa Casa da Miseric\u00f3rdia de Angra, recebe a designa\u00e7\u00e3o, ainda hoje mantida, de Hospital do Santo Esp\u00edrito. A distribui\u00e7\u00e3o de carne e os bodos eram tamb\u00e9m j\u00e1 comuns em meados do s\u00e9culo XVI. Ap\u00f3s o in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII, o culto do Divino Esp\u00edrito Santo assume-se como um dos tra\u00e7os centrais da a\u00e7orianidade. Com a imigra\u00e7\u00e3o a\u00e7oriana o culto \u00e9 levado para o Brasil, onde j\u00e1 no\u00a0s\u00e9culo XVIII\u00a0existia no\u00a0Rio de Janeiro, na Ba\u00eda e nas zonas de coloniza\u00e7\u00e3o a\u00e7oriana de Santa Catarina,\u00a0Rio Grande do Sul\u00a0e Pernambuco. No\u00a0s\u00e9culo XIX\u00a0\u00e9 levado para o\u00a0Hawaii, para o\u00a0Massachussets\u00a0e para a\u00a0Calif\u00f3rnia. Hoje o culto a\u00e7oriano do Divino Esp\u00edrito Santo est\u00e1 em claro crescimento, tanto nos A\u00e7ores como nos Estados Unidos e a Prov\u00edncia do Ont\u00e1rio, Canad\u00e1. Com o renascer da identidade a\u00e7oriana no sul do Brasil, os festejos do Divino fortificaram-se tamb\u00e9m a\u00ed. No que se refere ao culto, ele assenta nas seguintes estruturas:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">A\u00a0<strong>Irmandade<\/strong>\u00a0que \u00e9 formada por\u00a0<em>irm\u00e3os<\/em>, todos eles iguais em direitos e deveres. Nas irmandades s\u00e3o todos iguais, n\u00e3o sendo aceites diferen\u00e7as por origem ou posses. Esta regra foi raramente violada, mas h\u00e1 not\u00edcia nalgumas ilhas de\u00a0<em>Imp\u00e9rios dos nobres<\/em>\u00a0 (o mais conhecido e o \u00fanico sobrevivente \u00e9 o da\u00a0Horta, hoje sob responsabilidade da C\u00e2mara Municipal) que apenas aceitavam irm\u00e3os provenientes da aristocracia local.As irmandades s\u00e3o territoriais, agrupando fam\u00edlias residentes numa mesma freguesia ou localidade, podendo aceitar irm\u00e3os residentes noutras localidades, desde que tenham liga\u00e7\u00e3o familiar ou n\u00e3o \u00e0 localidade onde se situa a irmandade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">El\u00a0<strong>Imp\u00e9rio<\/strong>\u00a0\u00e9 onde cada irmandade se estrutura para realizar as atividades de culto normalmente num pequeno edif\u00edcio com arquitetura distinta. A arquitetura dos Imp\u00e9rios varia grandemente de ilha para ilha, variando desde um simples telheiro no tardoz das igrejas na ilha de Santa Maria at\u00e9 capelas vistosamente ornadas e encimadas pela coroa imperial na ilha Terceira.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">El\u00a0<strong>Mordomo<\/strong>\u00a0 \u00e9 o irm\u00e3o respons\u00e1vel que cabe coordenar a recolha de fundos para a festa e coordenar a sua realiza\u00e7\u00e3o, sendo para tal efeito considerado a autoridade suprema a que todos os irm\u00e3os est\u00e3o obrigados a estrita obedi\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">O culto do Divino Esp\u00edrito Santo \u00e9 <strong>aut\u00f3nomo face \u00e0 Igreja<\/strong>\u00a0pois n\u00e3o depende da organiza\u00e7\u00e3o formal da mesma nem necessita da participa\u00e7\u00e3o formal do clero.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">A\u00a0<strong>coroa<\/strong>, o\u00a0<strong>ceptro<\/strong>\u00a0e o\u00a0<strong>orbe<\/strong>\u00a0 s\u00e3o os s\u00edmbolos mais importantes do Imp\u00e9rio do Divino Esp\u00edrito Santo, assumindo o lugar central em todo o culto. \u00c9 uma coroa imperial, em prata, normalmente com tr\u00eas bra\u00e7os, conclu\u00edda por um orbe em prata dourada sobre o qual assenta uma pomba de asas alongadas. Cada irmandade disp\u00f5e de uma coroa grande e duas mais pequenas. Cada coroa \u00e9 completada com um ceptro em prata, encimado por uma pomba de asas estiradas. Simboliza o imp\u00e9rio do Divino Esp\u00edrito Santo e o seu poder universal. Servem para coroar e durante o ano as coroas circulam semanalmente entre as casas dos irm\u00e3os, que as colocam em lugar de honra, rezando e louvando o Divino, todas as noites, perante elas. As coroas s\u00e3o tamb\u00e9m transportadas pelos mordomos quando realizam pedit\u00f3rios.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>A bandeira<\/strong>\u00a0 \u00e9 em damasco vermelho vivo, normalmente de dupla face, de forma quadrangular, no centro tem bordado uma pomba branca da qual irradiam para baixo raios de luz em branco e fio de prata. A bandeira \u00e9 colocada numa haste em madeira com cerca de dois metros de comprido, encimada por uma pomba em prata ou lat\u00e3o. A bandeira acompanha a coroa e est\u00e1 sempre presente nas cerim\u00f3nias lit\u00fargicas onde se coroe.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">El\u00a0<strong>Hino<\/strong>\u00a0 do Esp\u00edrito Santo, composto em finais do s\u00e9culo XIX para ser tocado pelas bandas e ser cantado durante as coroa\u00e7\u00f5es, \u00e9 o mais honrado de todos os hinos, sendo sempre escutado nos A\u00e7ores com grande emo\u00e7\u00e3o e respeito.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">No dia de P\u00e1scoa as coroas s\u00e3o transportadas para a igreja, fazendo-se no final da missa a primeira coroa\u00e7\u00e3o, depois de coroado, o imperador parte para sua casa, acompanhado por um <strong>cortejo<\/strong>. Atr\u00e1s vai uma filarm\u00f3nica que acompanha com m\u00fasica alegre o percurso. Chegados a casa do imperador, as coroas s\u00e3o colocadas num trono armado em madeira revestida de papel branco e de flores, ficando em exposi\u00e7\u00e3o toda a semana. Todas as noites, os vizinhos e convidados re\u00fanem-se para um pequeno conv\u00edvio, que incluindo dan\u00e7as, recita\u00e7\u00e3o do ter\u00e7o e ora\u00e7\u00f5es relativas ao Divino Esp\u00edrito Santo. No domingo seguinte, as coroas partem novamente em cortejo para a igreja, sendo recebidas \u00e0 porta pelo p\u00e1roco, que entoa o\u00a0<em>Magnificat<\/em>. O processo repete-se at\u00e9 ao Domingo do Bodo (o s\u00e9timo ap\u00f3s a P\u00e1scoa).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>A cora\u00e7\u00e3o<\/strong> \u00e9 feita no final da missa e consiste na coloca\u00e7\u00e3o, pelo padre, da coroa na cabe\u00e7a do imperador ou das pessoas que ele designar, e na imposi\u00e7\u00e3o do ceptro, que depois de beijada a pomba que o conclui, \u00e9 empunhado pelos coroados. Os fi\u00e9is assistem de p\u00e9 \u00e0 coroa\u00e7\u00e3o, sendo por vezes cantado o Hino. Depois da coroa\u00e7\u00e3o, inicia-se o cortejo, sendo o imperador seguido at\u00e9 \u00e0 porta pelo sacerdote, que canta o\u00a0<em>Magnificat<\/em>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">El\u00a0<strong>bodo<\/strong> realiza-se no 7.\u00ba domingo ap\u00f3s a P\u00e1scoa. Nesse dia, o cortejo depois de sair da igreja dirige-se ao imp\u00e9rio, sendo as coroas e bandeiras a\u00ed colocadas em exposi\u00e7\u00e3o. Frente ao imp\u00e9rio, em longos bancos corridos s\u00e3o colocadas as\u00a0<em>esmolas<\/em> (carne de vaca, p\u00e3o e vinho de cheiro) depois de aben\u00e7oadas s\u00e3o distribu\u00eddas. Os irm\u00e3os recebem-nas e todas as pessoas que passam podem livremente servir-se de p\u00e3o e vinho. No entretanto s\u00e3o arrematadas as oferendas, normalmente gado, alfenim e massa sovada. O bodo \u00e9 organizado e gerido pelo mordomo e por quem ele designe. Terminado o bodo as coroas recolhem em cortejo a casa do mordomo. A segunda-feira imediata \u00e9 o\u00a0<span style=\"color: #000000;\">Dia dos A\u00e7ores<\/span>, ou\u00a0<strong>dia da pombinha<\/strong>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">A\u00a0<strong>fun\u00e7\u00e3o<\/strong> \u00e9 uma refei\u00e7\u00e3o ritual servida a um numeroso grupo de convidados por um dos irm\u00e3os, normalmente em resultado de um voto ou promessa. A refei\u00e7\u00e3o consiste de &#8220;sopa do Esp\u00edrito Santo&#8221; (p\u00e3o seco que depois \u00e9 recoberto com \u00e1gua de cozer carne, temperada com hortel\u00e3 e outros condimentos), o cozido de carne, p\u00e3o de \u00e1gua, a massa sovada (um p\u00e3o de massa doce e rico em ovos) e arroz doce polvilhado com canela.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Os jantares organizados em honra dos lavradores que contribu\u00edram com gado ou das pessoas que deram ofertas relevantes \u00e0 irmandade s\u00e3o chamados de <strong>ceia dos criadores<\/strong>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #000000;\">Os\u00a0<strong>foli\u00f5es<\/strong>\u00a0s\u00e3o pequenos grupos de at\u00e9 5 pessoas, os Foli\u00f5es do Divino, que, com as suas cantigas, participam da prepara\u00e7\u00e3o das Festas do Divino, visitando as casas dos irm\u00e3os, cantando os feitos e os poderes do Divino Esp\u00edrito Santo, recolhendo donativos e marcando os rituais da distribui\u00e7\u00e3o do bodo ou da fun\u00e7\u00e3o. Na\u00a0<span style=\"color: #000000;\">il<\/span><span style=\"color: #000000;\">ha de Santa M<\/span><span style=\"color: #000000;\">aria<\/span>\u00a0e no lugar da\u00a0<span style=\"color: #000000;\">Beira<\/span>,\u00a0<span style=\"color: #000000;\">ilha de S\u00e3o Jorge<\/span>, sobrevivem rituais que j\u00e1 desapareceram nas outras ilhas.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na minha cr\u00f3nica de hoje vou falar sobre os\u00a0Imp\u00e9rios do Divino Esp\u00edrito Santo\u00a0 que s\u00e3o um dos tra\u00e7os mais marcantes da identidade a\u00e7oriana, constituindo um culto que para al\u00e9m de marcar o quotidiano insular, determina tra\u00e7os identit\u00e1rios que acompanham os a\u00e7orianos para todos os lugares onde a emigra\u00e7\u00e3o os levou. 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