{"id":140592,"date":"2024-09-16T16:44:23","date_gmt":"2024-09-16T16:44:23","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodalagoa.pt\/?p=140592"},"modified":"2025-09-27T21:38:29","modified_gmt":"2025-09-27T21:38:29","slug":"camoes-em-erros-meus-ma-fortuna-amor-ardente-de-natalia-correia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodalagoa.pt\/es\/camoes-em-erros-meus-ma-fortuna-amor-ardente-de-natalia-correia\/","title":{"rendered":"Cam\u00f5es: &#8220;Em erros meus, m\u00e1 fortuna, amor ardente&#8221;, de Nat\u00e1lia Correia"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/rui-tavares-de-faria-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-140593\" width=\"446\" height=\"446\" srcset=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/rui-tavares-de-faria-1.jpg 960w, https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/rui-tavares-de-faria-1-300x300.jpg 300w, https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/rui-tavares-de-faria-1-150x150.jpg 150w, https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/rui-tavares-de-faria-1-768x768.jpg 768w, https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/rui-tavares-de-faria-1-12x12.jpg 12w\" sizes=\"(max-width: 446px) 100vw, 446px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<div style=\"height:25px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<p style=\"text-align: center;\"><b>Rui Tavares de Faria<\/b><br>Professor e Investigador<\/p>\n\n\n<div style=\"height:25px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<p>Para a comemora\u00e7\u00e3o do 400.\u00ba anivers\u00e1rio da morte de Lu\u00eds Vaz de Cam\u00f5es, o Teatro Nacional D. Maria II \u2013 que volta a abrir portas em 1978, renovado quase na \u00edntegra, depois de ter estado encerrado desde 1964, por causa do inc\u00eandio que praticamente o destruiu \u2013 encomenda a Nat\u00e1lia Correia uma pe\u00e7a teatral que celebre a vida e a obra do nosso Poeta maior. A autora a\u00e7oriana aceita o desafio e escolhe para t\u00edtulo do drama o primeiro verso de um bastante conhecido soneto de Cam\u00f5es: \u201cErros meus, m\u00e1 fortuna, amor ardente\u201d, no qual, dizem alguns hermeneutas da l\u00edrica camoniana, parece estar sintetizada, em linhas gerais, a vida do autor de <i>Os Lus\u00edadas<\/i>.<\/p>\n<p>Certo \u00e9 que, embora certas quest\u00f5es tenham vindo a ser aclaradas relativamente aos dados biogr\u00e1ficos de Lu\u00eds Vaz de Cam\u00f5es, ainda persistem d\u00favidas quanto \u00e0 cronologia daquele que cantou o amor em todos os tons e dimens\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 testemunhos expl\u00edcitos que permitam biografar, com o rigor da atualidade, um dos nomes maiores da literatura portuguesa e, dada esta car\u00eancia, v\u00e3o sendo desenvolvidas extrapola\u00e7\u00f5es a partir da sua obra, v\u00e3o sendo inventadas e reinventadas hist\u00f3rias acerca da sua vida e o mito sobre a figura de Cam\u00f5es vai ganhando forma. Tanto assim \u00e9 que, ainda hoje, a ideia que se tem do Poeta apresenta fei\u00e7\u00f5es fantasiosas, como se ele fosse um her\u00f3i m\u00edtico, uma esp\u00e9cie de super-homem, que suporta, numa das m\u00e3os, a espada e na outra, a pena com que escreve a sua poesia.<\/p>\n<p>Ora, a pe\u00e7a de Nat\u00e1lia Correia, <i>Erros Meus, M\u00e1 Fortuna, Amor Ardente<\/i>, que acabou por ser levada \u00e0 cena apenas em 1988, por quest\u00f5es or\u00e7amentais do estado no atinente \u00e0 cultura (o problema de sempre!), \u00e9 mais um exemplo de reescrita do(s) mito(s) que gravita(m) \u00e0 volta da figura de Cam\u00f5es. Como afirma Armando Nascimento Rosa na introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 recente edi\u00e7\u00e3o da <i>Obra dram\u00e1tica completa de Nat\u00e1lia Correia<\/i>, da chancela da Imprensa Nacional da Casa da Moeda, \u201c<i>Erros Meus, M\u00e1 Fortuna, Amor Ardente<\/i>, no seu rom\u00e2ntico recorte, parece partir de uma conce\u00e7\u00e3o de apoteose oper\u00e1tica, que remete o espectador\/leitor para um legado de fei\u00e7\u00e3o wagneriana, no qual o poeta \u00e9 <i>leitmotiv<\/i> mitoc\u00eantrico num espet\u00e1culo grandiloquente que o celebra\u201d (2023, p. 129). Na verdade, conhecedora da obra do Poeta de quinhentos e do que, ao longo dos s\u00e9culos, se foi escrevendo (e inventando) acerca da sua vida e da sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, Nat\u00e1lia Correia recupera e recria o Cam\u00f5es pinga-amor, o Poeta de corte que canta e seduz damas e donzelas, o guerreiro que perde o olho direito no campo de batalha em defesa de Portugal, o errante que viaja pelo Oriente e regressa, velho, triste e miser\u00e1vel, \u00e0 p\u00e1tria lusitana para entregar a El-Rei Sebasti\u00e3o a sua obra maior.<\/p>\n<p>Visto neste prisma, o retrato de Cam\u00f5es, tal como concebido no e pelo projeto nataliano, corresponde \u00e0 imagem com que a tradi\u00e7\u00e3o pintou o Poeta; n\u00e3o h\u00e1 novos elementos e, no universo da fic\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, a verdade hist\u00f3rica \u2013 exista ou n\u00e3o \u2013 pode n\u00e3o interessar ao artista. Assim sendo, segundo referem Ant\u00f3nio Moniz e Oleg\u00e1rio Paz, \u201ctranscendendo as intrigas palacianas (rivalidade com Pedro de Andrade Caminha) e as perip\u00e9cias amorosas, a figura humana de Cam\u00f5es e a imortalidade do seu g\u00e9nio s\u00e3o as t\u00f3nicas fundamentais desta obra dram\u00e1tica, dif\u00edcil de classificar, na medida em que serpenteia entre a trivialidade e a jocosidade da com\u00e9dia e a profundidade e a tens\u00e3o humana dos grandes conflitos tr\u00e1gicos, tendo como base o percurso bibliogr\u00e1fico do pr\u00f3prio poeta e o contexto hist\u00f3rico e cultural em que viveu.\u201d (In <i>Ler para ser: percursos em portugu\u00eas [&#8230;]<\/i>, 1993, p. 135)<\/p>\n<p>Mas Nat\u00e1lia reserva-nos subtilmente outra inten\u00e7\u00e3o que subjaz \u00e0 sua pe\u00e7a, porque \u201cfalar de Cam\u00f5es e do seu tempo significa tamb\u00e9m para ela falar, simbolicamente, do papel e do perfil humano do poeta na sociedade de hoje; isto \u00e9, falar de si mesma enquanto artista e cidad\u00e3 interventiva\u201d (Armando Nascimento Rosa, 2023, p. 125) e, neste sentido, <i>Erros Meus, M\u00e1 Fortuna, Amor Ardente<\/i> adquire outros contornos que revelam originalidade art\u00edstica. Cam\u00f5es \u00e9, portanto, o paradigma. Tal como ele viveu infort\u00fanios de ordem v\u00e1ria e acabou n\u00e3o sendo devidamente reconhecido em vida, assim sucede com muitos poetas de todos os tempos. Nat\u00e1lia e os seus contempor\u00e2neos n\u00e3o s\u00e3o exce\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s desta compara\u00e7\u00e3o, a dramaturga pensa conseguir transpor para a arte teatral a figura do Poeta, e n\u00e3o necessariamente o homem que foi Cam\u00f5es. Reinventando o que a tradi\u00e7\u00e3o lhe oferece, Nat\u00e1lia Correia presta uma homenagem \u00e0 ess\u00eancia po\u00e9tica e art\u00edstica da obra camoniana.<\/p>\n<p>Assim, apesar de o retrato que pinta de Cam\u00f5es em <i>Erros Meus, M\u00e1 Fortuna, Amor Ardente<\/i> corresponder <i>grosso modo<\/i> \u00e0 imagem que ainda hoje persiste da pessoa e da entidade do autor da epopeia nacional, a mensagem veiculada pela pe\u00e7a \u00e9 a de que se deve enaltecer a figura do Poeta na sua ess\u00eancia art\u00edstica. Tomado por paradigma, Cam\u00f5es merece \u2013 \u00e0 semelhan\u00e7a de todos os disc\u00edpulos de Orfeu \u2013 o reconhecimento de todos pelo seu talento e pelo que fez \u00e0 p\u00e1tria portuguesa, imortalizando-a por via da poesia e da epopeia <i>Os Lus\u00edadas<\/i>. No fundo, Cam\u00f5es seguiu \u00e0 letra a recomenda\u00e7\u00e3o de Hor\u00e1cio, poeta latino do s\u00e9culo I a.C., e \u201cexegi[t] monumentum aere perennius\u201d (\u201cergueu um monumento mais perene que o bronze\u201d, o mesmo \u00e9 dizer que edificou uma obra imortal).<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rui Tavares de Faria escreve nesta edi\u00e7\u00e3o em que o Di\u00e1rio da Lagoa assinala os 500 anos do nascimento do autor dos \u00abLus\u00edadas\u00bb.<\/p>","protected":false},"author":2,"featured_media":140593,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[1515,192,204,1506],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v20.10 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Cam\u00f5es: &quot;Em erros meus, m\u00e1 fortuna, amor ardente&quot;, de Nat\u00e1lia Correia - Di\u00e1rio da Lagoa<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Rui Tavares de Faria escreve nesta edi\u00e7\u00e3o em que o Di\u00e1rio da Lagoa assinala os 500 anos do nascimento do autor dos \u00abLus\u00edadas\u00bb.\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/es\/camoes-em-erros-meus-ma-fortuna-amor-ardente-de-natalia-correia\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"es_ES\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Cam\u00f5es: &quot;Em erros meus, m\u00e1 fortuna, amor ardente&quot;, de Nat\u00e1lia Correia - Di\u00e1rio da Lagoa\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Rui Tavares de Faria escreve nesta edi\u00e7\u00e3o em que o Di\u00e1rio da Lagoa assinala os 500 anos do nascimento do autor dos \u00abLus\u00edadas\u00bb.\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/es\/camoes-em-erros-meus-ma-fortuna-amor-ardente-de-natalia-correia\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Di\u00e1rio da Lagoa\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2024-09-16T16:44:23+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2025-09-27T21:38:29+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/rui-tavares-de-faria-1.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"960\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"960\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Di\u00e1rio da Lagoa\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Di\u00e1rio da Lagoa\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Tiempo de lectura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"6 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/camoes-em-erros-meus-ma-fortuna-amor-ardente-de-natalia-correia\/\",\"url\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/camoes-em-erros-meus-ma-fortuna-amor-ardente-de-natalia-correia\/\",\"name\":\"Cam\u00f5es: \\\"Em erros meus, m\u00e1 fortuna, amor ardente\\\", de Nat\u00e1lia Correia - Di\u00e1rio da Lagoa\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/#website\"},\"datePublished\":\"2024-09-16T16:44:23+00:00\",\"dateModified\":\"2025-09-27T21:38:29+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/#\/schema\/person\/1615a002370e8857b6f972834bc43ece\"},\"description\":\"Rui Tavares de Faria escreve nesta edi\u00e7\u00e3o em que o Di\u00e1rio da Lagoa assinala os 500 anos do nascimento do autor dos \u00abLus\u00edadas\u00bb.\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/camoes-em-erros-meus-ma-fortuna-amor-ardente-de-natalia-correia\/#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"es\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/camoes-em-erros-meus-ma-fortuna-amor-ardente-de-natalia-correia\/\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/camoes-em-erros-meus-ma-fortuna-amor-ardente-de-natalia-correia\/#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Cam\u00f5es: &#8220;Em erros meus, m\u00e1 fortuna, amor ardente&#8221;, de Nat\u00e1lia Correia\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/#website\",\"url\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/\",\"name\":\"Di\u00e1rio da Lagoa\",\"description\":\"Di\u00e1rio da Lagoa. 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