{"id":129294,"date":"2023-12-16T19:07:48","date_gmt":"2023-12-16T19:07:48","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodalagoa.pt\/?p=129294"},"modified":"2025-09-27T21:41:37","modified_gmt":"2025-09-27T21:41:37","slug":"o-bonito-estava-muito-bom","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodalagoa.pt\/es\/o-bonito-estava-muito-bom\/","title":{"rendered":"O bonito estava muito bom"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"675\" height=\"960\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/joao-octavio-lima.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-129295\" srcset=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/joao-octavio-lima.jpg 675w, https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/joao-octavio-lima-211x300.jpg 211w, https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/joao-octavio-lima-8x12.jpg 8w\" sizes=\"(max-width: 675px) 100vw, 675px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sup>Jo\u00e3o Oct\u00e1vio Lima na sua oficina, dezembro de 1982 <mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\">\u00a9 D.R.<\/mark><\/sup><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n<p>Estes tempos de c\u00e9us carregados de n\u00favens, de \u00e1rvores vergadas pelo vento e de mar encapelado, fazem-me recordar um jantar em casa dos meus av\u00f3s paternos.<\/p>\n<p>Era uma noite escura, muito mais escura do que o habitual. Tinha havido um apag\u00e3o em toda a vila e a tr\u00e9mula chama do candeeiro a petr\u00f3leo iluminava a cozinha. O assobiar do vento numa frincha teimosa cobria o tinir dos talheres. Apreciava-se um bonito assado no forno a lenha. A minha m\u00e3e comprara-o, de manh\u00e3 cedo, a um par de vendilh\u00f5es que, a p\u00e9, apregoavam \u2018eh peixe grado e fresco\u2019, governara-o, recheara-o e assara-o no final da cozedura do p\u00e3o de milho. Uma del\u00edcia, acompanhada com batatas cozidas de alho e pimenta, e empurrada com vinho de cheiro. O p\u00e3o ensopado no molho de vil\u00e3o rematava o pit\u00e9u.<\/p>\n<p>No tempo do Cordeiro, a luz n\u00e3o falhava tantas vezes como agora, dizia o meu av\u00f4, testemunha da implanta\u00e7\u00e3o da ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica em S. Miguel. Estava dado o mote ao tema de conversa do ser\u00e3o com recorda\u00e7\u00f5es de um passado quase sempre pouco risonho, estimulada por perguntas que eu lhe fazia para tentar situar-me nas \u00e9pocas que ele descrevia.<\/p>\n<p>Nascido nos \u00faltimos anos do s\u00e9culo XIX, o meu av\u00f4 cedo aprendeu a ser um homem dos sete instrumentos. Cedo descobriu que tinha de desenvolver compet\u00eancias necess\u00e1rias para poder ser aut\u00f3nomo e sobreviver em tempos sempre dif\u00edceis para os mesmos do costume. Atravessou os conturbados tempos da implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, da Primeira Guerra, do Estado Novo, da Segunda Guerra, per\u00edodos de grande conten\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e repress\u00e3o pol\u00edtica. Ainda novo, quando n\u00e3o conseguia arranjar trabalho como pintor, constru\u00eda bandolins, guitarras e viol\u00f5es, que depressa desapareciam nas m\u00e3os de m\u00fasicos amadores e de emigrantes radicados nos arredores de Boston e New York. Mais tarde, perante a escassez de trabalho, reparava m\u00e1quinas de pianos e afinava-os, restaurava \u00f3rg\u00e3os de igreja, mel\u00f3dios e acorde\u00f5es. Nos tempos livres, repintava portas e janelas das nossas casas geminadas, subia ao telhado para desobstruir uma caleira ou repor uma telha levantada por um golpe de vento e que provocava uma pinga, desmontava uma fechadura, limpava-a, oleava-a e, sorridente, contemplava-a como nova. V\u00e1rias vezes usou o seu pequeno torno para, a partir de galhos selecionados de laranjeira, ara\u00e7azeiro ou nespereira, me fazer pi\u00f5es que irritavam solenemente os meus companheiros de escola e de rua por serem t\u00e3o duros que enxotavam os ataques dos ferr\u00f5es dos pi\u00f5es deles.<\/p>\n<p>O ser\u00e3o prolongou-se por n\u00e3o haver trabalho no dia seguinte. Continuava a ouvir-se o bramido do mar e o tamborilar da chuva. O meu av\u00f4 j\u00e1 ia no seu segundo Santa Justa sem filtro e a restante fam\u00edlia bebericava o vinho abafado fabricado pela minha av\u00f3 e pela minha madrinha. Bem disposto, relembrou um epis\u00f3dio muito divertido protagonizado por um amigo m\u00fasico de Ponta Delgada.<\/p>\n<p>Chamemos-lhe Faustino. M\u00fasico amador residente em Ponta Delgada, passeava o seu violoncelo e o seu contrabaixo debaixo do bra\u00e7o com muita eleg\u00e2ncia e sem qualquer dificuldade. Uma vez aparecera em casa do meu av\u00f4 para ele o consertar. Acontecera que, depois de uma festa numa igreja, o sr Faustino acompanhara o coro \u00e0 sacristia, onde fora servido um refresco, com laranjadas, vinho do Porto, bolinhos, massa sovada e figos passados. De tudo provara e apreciara o sr Faustino e mais guardara no bojo do contrabaixo, atrav\u00e9s de cujos \u00e9fes no tampo introduzira sorrateiramente figos e fatias de massa sovada. Na euforia do regresso a casa, cedo se esquecera de retirar o surripan\u00e7o resguardado no instrumento. A massa sovada e os figos tinham criado bolor e a humidade concentrada fizera descolar as ilhargas junto ao p\u00e9 do contrabaixo. Contava o meu av\u00f4 que fora o conserto mais divertido que fizera na sua vida.<\/p>\n<p>E assim se passavam alguns ser\u00f5es em fam\u00edlia naquelas tenebrosas noites de outono e inverno na Lagoa de meados dos anos 60.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O professor e cronista lagoense Oct\u00e1vio Lima hoje recorda o seu av\u00f4 que &#8220;cedo aprendeu a ser um homem dos sete instrumentos&#8221;.<\/p>","protected":false},"author":2,"featured_media":109778,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v20.10 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>O bonito estava muito bom - Di\u00e1rio da Lagoa<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O professor e cronista lagoense Oct\u00e1vio Lima hoje recorda o seu av\u00f4 que &quot;cedo aprendeu a ser um homem dos sete instrumentos&quot;.\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/es\/o-bonito-estava-muito-bom\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"es_ES\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O bonito estava muito bom - Di\u00e1rio da Lagoa\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"O professor e cronista lagoense Oct\u00e1vio Lima hoje recorda o seu av\u00f4 que &quot;cedo aprendeu a ser um homem dos sete instrumentos&quot;.\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/es\/o-bonito-estava-muito-bom\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Di\u00e1rio da Lagoa\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2023-12-16T19:07:48+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2025-09-27T21:41:37+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/octavio-lima-1-e1759009280406.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"960\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"640\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Di\u00e1rio da Lagoa\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Di\u00e1rio da Lagoa\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Tiempo de lectura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"4 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/o-bonito-estava-muito-bom\/\",\"url\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/o-bonito-estava-muito-bom\/\",\"name\":\"O bonito estava muito bom - Di\u00e1rio da Lagoa\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/#website\"},\"datePublished\":\"2023-12-16T19:07:48+00:00\",\"dateModified\":\"2025-09-27T21:41:37+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/#\/schema\/person\/1615a002370e8857b6f972834bc43ece\"},\"description\":\"O professor e cronista lagoense Oct\u00e1vio Lima hoje recorda o seu av\u00f4 que \\\"cedo aprendeu a ser um homem dos sete instrumentos\\\".\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/o-bonito-estava-muito-bom\/#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"es\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/o-bonito-estava-muito-bom\/\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/o-bonito-estava-muito-bom\/#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"O bonito estava muito bom\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/#website\",\"url\":\"https:\/\/diariodalagoa.pt\/\",\"name\":\"Di\u00e1rio da Lagoa\",\"description\":\"Di\u00e1rio da Lagoa. 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