{"id":100991,"date":"2022-04-01T10:56:41","date_gmt":"2022-04-01T10:56:41","guid":{"rendered":"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/?p=100991"},"modified":"2025-09-28T00:37:17","modified_gmt":"2025-09-28T00:37:17","slug":"a-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariodalagoa.pt\/es\/a-liberdade\/","title":{"rendered":"A Liberdade"},"content":{"rendered":"<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariodalagoa.sapo.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Desenho-Liberdade-\u00a9-Lidia-Meneses.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-100993\"\/><\/figure>\n\n\n<p>Deram-me espa\u00e7o para 3000 palavras, mas s\u00f3 me ocorre uma. Venho escrever sobre a LIBERDADE dado a proximidade \u00e0 data que nos fez democracia e com\u00a0 ela a liberdade de express\u00e3o e a liberdade de imprensa. Foi a 25 do m\u00eas de abril, data em que os nossos pais e av\u00f3s sa\u00edram \u00e0 rua e colocaram cravos nas armas do ex\u00e9rcito portugu\u00eas. Muitos filhos tinham tombado em guerras ultramarinas antes de 1974, um dos precedentes para a revolu\u00e7\u00e3o deponente do regime ditatorial, de inspira\u00e7\u00e3o fascista, vigente desde 33. Os portugueses tentaram a liberdade e falharam muitas vezes. A situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds era vergonhosa, a v\u00e1rios n\u00edveis. Nos finais de d\u00e9cada de 60, o regime exilava-se, envelhecido, num ocidente de pa\u00edses em plena efervesc\u00eancia social e intelectual. Os v\u00e1rios conflitos for\u00e7avam Salazar e o seu sucessor Caetano a gastar uma grande parte do or\u00e7amento do estado na administra\u00e7\u00e3o colonial e nas despesas militares. Estas raz\u00f5es associadas \u00e0 opress\u00e3o imposta, por \u00a0meio \u00a0da PIDE, especialista em tortura, humilha\u00e7\u00e3o, persegui\u00e7\u00e3o e em riscar versos, textos e imagens a l\u00e1pis-laz\u00fali, impulsionaram os maiores amantes da liberdade a afinarem a imagina\u00e7\u00e3o e criatividade, a agruparem-se, a organizarem-se e a fazerem acontecer. Menciono, por isso, a a\u00e7oriana Nat\u00e1lia Correia como o mais belo exemplo desta soberba que, em \u00a0pleno patriarcado, ao seu mais alto n\u00edvel,\u00a0 foi\u00a0 julgada por seus versos er\u00f3ticos, considerados obscenos. Meras rimas, com palavras como vulva e l\u00edngua, levaram-na \u00e0 deten\u00e7\u00e3o. H\u00e1 50 anos a indec\u00eancia de Nat\u00e1lia, nascida na paradis\u00edaca ilha de S. Miguel, despertou os portugueses \u00a0para \u00a0a aus\u00eancia da liberdade, nas suas vidas. O livro <em>Antologia de Poesia Portuguesa Er\u00f3tica e Sat\u00edrica <\/em>rapidamente esgotou e o resto \u00e9 hist\u00f3ria. A ditadura estava gasta, o ex\u00e9rcito insatisfeito e as fam\u00edlias estavam fartas de verem partir os seus, em busca da liberdade, da justi\u00e7a e de melhor emprego. A 25, a liberdade esteve ao nosso alcance, ao alcance do povo que passou a ter de a governar e a governar-se.<\/p>\n<p><strong>\u00abA maioria\u00a0 das pessoas n\u00e3o\u00a0 quer, realmente, a liberdade, porque a liberdade envolve responsabilidade e a maioria das pessoas tem medo da responsabilidade\u00bb &#8211; Freud<\/strong><\/p>\n<p>O que fizemos da liberdade n\u00e3o sei bem, mas Nat\u00e1lia alertou para que n\u00e3o perd\u00eassemos a Rosa Branca. \u00c9 por isso mesmo que questiono: Sabemos o que \u00e9 a liberdade? Sabemos us\u00e1-la, mant\u00ea-la, aplic\u00e1-la? Sabemos ser livres s\u00f3s e em sociedade? Logo a seguir a 25, foi escrita e j\u00e1 reescrita a nossa Constitui\u00e7\u00e3o para que n\u00e3o nos esquec\u00eassemos daqueles direitos, deveres e responsabilidades, garantias desta Liberdade, fundada em 74.<\/p>\n<p>Julgo importante esclarecer-me, devidamente, sobre a liberdade, n\u00e3o s\u00f3 a portuguesa, mas a liberdade mundial e, agora, bem amea\u00e7ada, a liberdade europeia.<\/p>\n<p>Ora bem, segundo a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos, trata-se de \u00a0um \u00a0direito humano b\u00e1sico. Para os mais novos, a consolida\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos e a sua universaliza\u00e7\u00e3o deram-se ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, justamente como contraponto a esse per\u00edodo sombrio da humanidade, durante o qual muitas pessoas tiveram o seu direito \u00e0 exist\u00eancia e \u00e0 liberdade, completamente roubado. Logo, nos seus primeiros artigos, a liberdade \u00e9 o enfoque principal.<\/p>\n<p>No Artigo 1:<br \/>\u00abTodos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de raz\u00e3o e de consci\u00eancia, devem agir uns para com os outros em esp\u00edrito de fraternidade.\u00bb<\/p>\n<p>No Artigo 2:<br \/>\u00abTodos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declara\u00e7\u00e3o, sem\u00a0 distin\u00e7\u00e3o\u00a0 alguma, nomeadamente de ra\u00e7a, cor, sexo, l\u00edngua, religi\u00e3o, opini\u00e3o pol\u00edtica ou outra, origem nacional ou social, fortuna, nascimento ou outro estatuto. Al\u00e9m disso, n\u00e3o ser\u00e1 feita nenhuma distin\u00e7\u00e3o fundada no estatuto pol\u00edtico, jur\u00eddico ou internacional do pa\u00eds ou do territ\u00f3rio da naturalidade da pessoa, seja esse pa\u00eds ou territ\u00f3rio independente, sob tutela, aut\u00f3nomo ou sujeito a alguma limita\u00e7\u00e3o de soberania.\u00bb<\/p>\n<p>No Artigo 3:<br \/>\u00abTodas as pessoas t\u00eam direito \u00e0 vida, \u00e0 liberdade e \u00e0 seguran\u00e7a pessoal.\u00bb<\/p>\n<p>Em jeito de reflex\u00e3o, nestes 3 artigos, evidenciam-se algumas importantes palavras- chave em paralelo com a palavra escolhida, tal como a fraternidade, a igualdade, a raz\u00e3o, a dignidade.<\/p>\n<p>Pelo mundo fora, a nossa palavra liberdade assume outros sons, vejamos: <em>libertas, libert\u00e9, libert\u00e0, freedom, liberty, independence, svoboda, \u00f6zg\u00fcrl\u00fck, freiheit<\/em>, <em>lirin\u00eb, z\u00ecy\u00f3u, kebebasan, libertad&#8230; <\/em>Algumas destas palavras pertencem a pa\u00edses opressores, tanto no seu territ\u00f3rio como fora do mesmo. Outros fundaram-se, remodelaram-se e revolucionaram-se sob a \u00e9gide deste conjunto de letras. Em espanhol, a palavra <em>Libertad <\/em>significa a faculdade e o direito das pessoas de escolherem, responsavelmente, a sua pr\u00f3pria maneira de agir dentro de \u00a0uma sociedade. A <em>Libertad <\/em>\u00e9 um direito \u00a0humano b\u00e1sico, estado ou condi\u00e7\u00e3o da pessoa que \u00e9 livre, que n\u00e3o est\u00e1 presa ou sujeita \u00e0 vontade de outrem, nem est\u00e1 constrangida por obriga\u00e7\u00e3o, dever, disciplina, etc. Em russo, <em>Svoboda <\/em>significa a possibilidade de manifesta\u00e7\u00e3o da vontade do sujeito nas condi\u00e7\u00f5es de consci\u00eancia das leis de desenvolvimento da natureza e da sociedade. <em>Svoboda <\/em>significa, tamb\u00e9m, independ\u00eancia, isto \u00e9, a aus\u00eancia de constrangimentos e restri\u00e7\u00f5es que vinculam a vida sociopol\u00edtica e as atividades de qualquer um: classe, toda a sociedade ou seus membros.\u00a0 Parece-me que precisam, urgentemente, de rever esta significa\u00e7\u00e3o, \u00e0 luz da atual invas\u00e3o, pois, se liberdade \u00e9 a verdade que pregam, logo a independ\u00eancia que defendem, enquanto sin\u00f3nimo de liberdade, est\u00e1 bem longe de ser verdadeira.<\/p>\n<p>Liberdade \u00e9 uma palavra poderosa. Basta pronunci\u00e1-la para enchermos o peito de ar e respirarmos mais levemente. Dizer liberdade d\u00e1 alento. Um exemplo de liberdade \u00e9\u00a0 a\u00a0 liberta\u00e7\u00e3o de um p\u00e1ssaro de uma gaiola. Um exemplo de liberdade \u00e9 uma mulher recuperar a sua independ\u00eancia ap\u00f3s o t\u00e9rmino de um casamento controlador.<\/p>\n<p>Socialmente, n\u00e3o vivemos em ilhas despovoadas. Se eu fosse Robinson Cruso\u00e9, poderia fazer todas as coisas que s\u00e3o fisicamente poss\u00edveis para mim. Mas vivemos em sociedade. Na sociedade, somos \u2014 ou dever\u00edamos ser considerados \u2014 livres, na medida em que as nossas a\u00e7\u00f5es n\u00e3o prejudicam os outros.<\/p>\n<p>Religiosamente e, em particular, no Cristianismo, a B\u00edblia est\u00e1 cheia de alus\u00f5es e \u00a0versos \u00a0\u00e0 liberdade, incluindo esta brilhante passagem: \u00ab\u00c9 para a liberdade que Cristo nos libertou. Permane\u00e7am firmes, ent\u00e3o, e n\u00e3o se deixem sobrecarregar novamente por um jugo de escravid\u00e3o.\u00bb \u2013 G\u00e1latas 5:1, nono livro do Novo Testamento. N\u00e3o me contenho em transcrever outra cita\u00e7\u00e3o: \u00abPois voc\u00eas foram chamados \u00e0 liberdade, irm\u00e3os. S\u00f3 n\u00e3o usem a liberdade como uma oportunidade para a carne, mas pelo amor sirvam-se uns aos outros.\u00bb \u2013G\u00e1latas 5:13. O Livro Sagrado \u00e9 bem antigo. Os crist\u00e3os tiveram 2000 anos de oportunidade de aplicar, viver e usufruir da Liberdade, sem oprimir o outro.<\/p>\n<p>A liberdade religiosa importa, por exemplo, no seguinte: se me apetecesse escrever sobre bruxaria, poderia faz\u00ea-lo, livremente, sem ser condenada \u00e0 fogueira, por heresia. At\u00e9 h\u00e1 bem pouco tempo, artistas como Madonna, \u00a0Miley Cyrus ou Sinead O&#8217;Connor foram, metaforicamente, crucificadas, pelas suas express\u00f5es art\u00edsticas, uma a usar soutiens em bico, a simular a masturba\u00e7\u00e3o em palco, outra a cantar e a chorar nua sobre uma bola demolidora e a \u00faltima a criticar, ativa e radicalmente, o abuso sexual de menores, por outros que tinham\u00a0 o dever moral, \u00e9tico e espiritual de os protegerem. A esta liberdade junta-se, portanto, a da importante e descurada liberdade sexual feminina, um direito h\u00e1 muito oprimido e cuja liberdade tem sido contestada e \u00a0discutida, mesmo, entre mulheres.<\/p>\n<p><strong>\u00abNuma sociedade mantida pela mentira, qualquer express\u00e3o de liberdade, \u00a0\u00e9 \u00a0vista como loucura\u00bb \u2013 Emma Goldman<\/strong><\/p>\n<p>Mas nunca se sabe, por\u00e9m, se somos assim t\u00e3o livres. Bem avisa a premiada autora Margaret Atwood, nos seus clarividentes livros, que a liberdade conseguida pelas mulheres n\u00e3o foi,<\/p>\n<p>ainda, plenamente conquistada. Para Atwood, a liberdade \u00e9 relativa. A hist\u00f3ria de\u00a0 <em>Handmaid\u00b4s Tale <\/em>passa-se no futuro. Devido \u00e0 polui\u00e7\u00e3o do meio ambiente, a maior parte das mulheres tornam-se, neste conto, est\u00e9reis. Por conseguinte, as escassas f\u00e9rteis s\u00e3o, portanto, raptadas, escravizadas e prostitu\u00eddas, para procriarem e darem os seus filhos contra a vontade. Todas as mulheres s\u00e3o impedidas de praticarem as suas profiss\u00f5es, tendo-lhes sido incutidas outros cargos, entre os quais a subjuga\u00e7\u00e3o e\u00a0 opress\u00e3o das suas cong\u00eaneres. Muitos n\u00e3o conseguem assistir \u00e0 s\u00e9rie televisiva ou ler o livro, at\u00e9 ao fim, mas creio que o que mais assusta nessa leitura n\u00e3o foram os absurdos que li sobre como as mulheres eram subjugadas, mas como alguns absurdos est\u00e3o, por vezes, t\u00e3o pr\u00f3ximos da realidade, por mais que se trate apenas de uma hist\u00f3ria fict\u00edcia, nomeadamente, no que concerne ao tr\u00e1fego humano.<\/p>\n<p><strong>\u00abS\u00f3 existe sentimento maior que o amor \u00e0 liberdade: o \u00f3dio ao que o tira de si.\u00bb \u2013 Che Guevara<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 dias, a esperan\u00e7a foi enviada a Lviv, na Ucr\u00e2nia, na figura de Nossa Senhora de F\u00e1tima, como mensageira da paz, em peregrina\u00e7\u00e3o. Muito haveria a dizer sobre o simbolismo\u00a0 deste\u00a0 ato, mas deixo-vos o assunto \u00a0para \u00a0pesquisar. Sabemos que dos <em>bunkers <\/em>surgiram milhares de pessoas para a verem. A f\u00e9 \u00e9 necess\u00e1ria, a f\u00e9 \u00e9 a esperan\u00e7a na liberdade, neste caso, a esperan\u00e7a de viver, de resistir, de ultrapassar o inferno dos homens que se abateu sobre os prados de milho dourado e os c\u00e9us azuis. Hoje, Zelensky \u00e9 considerado um her\u00f3i do mundo \u00a0livre, \u00a0um mundo amea\u00e7ado por um opressor\u00a0 medieval. Nem para as mulheres, nem para ningu\u00e9m a liberdade, como a conhecemos, est\u00e1 firmada, mas a Ucr\u00e2nia sabe: \u00ab(&#8230;) antes deles, dos invasores, j\u00e1 \u00e9ramos livres.\u00bb Aqui, a liberdade vem pela domina\u00e7\u00e3o do medo. A Ucr\u00e2nia j\u00e1 provou\u00a0 ser livre.<\/p>\n<p><strong>\u00abPrefiro os perigos da Liberdade ao sossego da servid\u00e3o\u00bb \u2013 Thomas Jefferson<\/strong><\/p>\n<p>Em meados do S\u00e9c. XIX, os franceses tamb\u00e9m souberam conquist\u00e1-la. Eug\u00e9ne Delacroix, em comemora\u00e7\u00e3o \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de Julho de 1830, com a queda de Carlos X, pintou a liberdade guiando o povo, retratando-a como uma mulher semi desnuda como met\u00e1fora de emancipa\u00e7\u00e3o e autonomia. Os ideais levantados por estes revolucion\u00e1rios, fundadores da nossa atualidade, estavam assentes no mesmo lema aplicado aqui: liberdade, igualdade e fraternidade. Em Nova Iorque, a est\u00e1tua que segura a tocha na m\u00e3o, projetada por Bartholdi e constru\u00edda por Eiffel, a grandiosa Est\u00e1tua da Liberdade, foi inspirada nesta pintura de Delacroix. Ao contr\u00e1rio da anterior, a figura feminina, a deusa romana Libertas, surge carregando a <em>tabula ansata<\/em>, num dos bra\u00e7os, e, no outro, bem erguido, o bra\u00e7o que leva a tocha. Nesta tabuleta que evoca uma lei, est\u00e1 inscrita a data da Declara\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia dos Estados Unidos, 4 de julho de 1776. Sabedoria, luz e firmeza caracterizam este edif\u00edcio escultural que funcionou, como um farol e portal, de centenas de imigrantes esperan\u00e7osos, em busca do mundo livre.<\/p>\n<p>A maior est\u00e1tua do mundo, a Est\u00e1tua da Unidade, localiza-se na \u00cdndia e \u00e9 dedicada ao l\u00edder do Movimento de Independ\u00eancia, Vallabhbhai Patel, o 1\u00ba Vice Primeiro Ministro deste pa\u00eds, o qual desempenhou um papel de lideran\u00e7a na luta do pa\u00eds pela independ\u00eancia do dom\u00ednio da Autoridade\u00a0 Imperial Brit\u00e2nica. Patel, orientou a integra\u00e7\u00e3o da \u00cdndia numa na\u00e7\u00e3o unida, livre e independente, disso exemplo foi a peti\u00e7\u00e3o Suraaj, assinada por cerca de 20 milh\u00f5es de pessoas, considerada a maior peti\u00e7\u00e3o do\u00a0 mundo\u00a0 assinada e consistiu no registo dos indianos sobre as suas ideias, para o bom governo.<\/p>\n<p>Portugal tem muitas hist\u00f3rias de liberdade para contar. J\u00e1 em Viriato, por volta de 148 a.c., chefe militar Lusitano, nascia a fa\u00edsca desta \u00abportugalidade\u00bb. Um pastor que \u00a0travou \u00a0o dom\u00ednio romano, na \u00a0Pen\u00ednsula \u00a0Ib\u00e9rica. Habituado a combater, contagiou o seu povo e incentivou-o a lutar pelos seus direitos, n\u00e3o se sujeitando a acordos que Roma raramente cumpria e que deixavam os Lusitanos em desvantagem.<\/p>\n<p>Afonso Henriques, mimado, louco ou vision\u00e1rio, n\u00e3o se sabe bem, farto das tributa\u00e7\u00f5es espanholas, zangado com a sua m\u00e3e, resolve converter o Condado Portucalense a Portucale. Pai da na\u00e7\u00e3o, rei conquistador e independentista, d\u00e1 o mote a tudo o que nos define. Alguns desejariam pertencer \u00e0 sensual e arrebatadora Espanha, \u00e9 certo, mas que seria de n\u00f3s sem o nosso Fado e a nossa Poesia. Podemos amar o nosso pa\u00eds e podemos libertar-nos de compara\u00e7\u00f5es com a nossa vizinha p\u00e1tria. Venha a Mariza, Carminho e o Caman\u00e9 e fa\u00e7amos a festa da liberdade num fadinho alegre, dan\u00e7ado ou chorado, sem esquecer o semblante carregado de drama, melancolia e sarcasmo. \u00c9 t\u00e3o bom termos a liberdade de chorar a cantar ou rir a chorar nas cantigas ao desafio.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Em Portugal, temos poetas revolucion\u00e1rios:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00abAi que prazer<\/strong><br \/><strong>N\u00e3o cumprir um dever, <br \/>Ter um livro para ler <br \/>E n\u00e3o o fazer!(&#8230;)\u00bb<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Fernando Pessoa mostra um dos v\u00e1rios direitos que a liberdade proporciona, o direito a desejar, a procrastinar, a escolher, o direito a ser feliz \u2014 \u00abAi que prazer, n\u00e3o cumprir um dever\u00bb. Nesta \u00e9poca de escrita, 1937, pessoas, ou melhor, antipessoas, como Hitler e \u00a0Mussolini \u00a0eram l\u00edderes do seu pa\u00eds e desejavam, tal como Putin, a expans\u00e3o das suas ambi\u00e7\u00f5es. A primeira\u00a0 coisa que \u00a0estes \u00a0narciso-man\u00edacos \u00a0faziam \u00a0e \u00a0fazem \u00a0\u00e9 limitar a sabedoria do seu povo e, por isso, naquele momento, mandaram queimar livros ou, agora mesmo, manipulam os dados e as massas atrav\u00e9s de v\u00e1rias tecnologias. Na \u00e9poca, tal como agora figuras fascistas estavam a surgir em for\u00e7a, at\u00e9 mesmo no Brasil, antes o Estado Novo com Get\u00falio Vargas, hoje o \u00abEstado Louco\u00bb, com Bolsonaro.<\/p>\n<p>Em Portugal, temos uma Avenida da Liberdade, em Lisboa, consagrada \u00e0 liberdade do nosso pa\u00eds reconquistada ou restaurada a \u00a0Espanha, \u00a0em 1640. Bem no cora\u00e7\u00e3o do Porto, na Avenida dos Aliados, temos a Pra\u00e7a da Liberdade, cuja designa\u00e7\u00e3o foi adotada em 27 de \u00a0outubro de 1910. O nome \u00e9 uma alus\u00e3o \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o do sistema republicano de governo.<\/p>\n<p>No\u00a0 \u00a0Brasil,\u00a0 \u00a0\u00e9\u00a0 \u00a0c\u00e9lebre\u00a0 \u00a0o\u00a0 \u00a0Grito\u00a0 \u00a0do\u00a0 \u00a0Ipiranga, \u00abindepend\u00eancia ou morte\u00bb, a famosa frase de D. Pedro, nas margens do rio Ipiranga,\u00a0 onde\u00a0 se situa, atualmente, a cidade de S. Paulo. O futuro imperador declara que o Brasil j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma col\u00f3nia de Portugal. Sabemos que foi tamb\u00e9m rei de Portugal e que o seu cora\u00e7\u00e3o foi deixado no Porto e o corpo enviado para S. Paulo. Lutou contra o absolutismo que era o seu irm\u00e3o D. Miguel I e ganhou. Por tal feito, chamamos ao Brasil o nosso pa\u00eds irm\u00e3o. Logo a seguir a este evento, os A\u00e7ores tamb\u00e9m come\u00e7am a \u00a0sua hist\u00f3ria pela liberdade. A luta pela autonomia democr\u00e1tica, a liberdade de fazer e ser de acordo com a espec\u00edfica e factual insularidade, tem sido hist\u00f3rica. S\u00f3, em 1822, vem a p\u00fablico, em Lisboa, a obra Corografia A\u00e7\u00f3rica, com o objetivo de defender a unidade a\u00e7oriana e a autonomia democr\u00e1tica, atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os de governo pr\u00f3prio. Esta primeira manifesta\u00e7\u00e3o da a\u00e7orianidade pol\u00edtica \u2014 ou da liberdade pol\u00edtica \u2014, embora fosse uma obra coletiva, foi assinada por Jo\u00e3o Soares de Albergaria de Sousa, o que lhe custou o cativeiro sob o reinado de Miguel I de Portugal, entre 1828 e 34. Na verdade, a Praia da V\u00edtoria, na ilha Terceira, \u00e9 o mesmo que Praia da Liberdade, pois, no decorrer da Guerra Civil Portuguesa, aqui se travou a batalha da ba\u00eda da Praia que frustrou a tentativa\u00a0 de\u00a0 desembarque de uma esquadra de tropas \u00a0miguelistas. \u00a0A derrota dos absolutistas neste recontro foi decisiva para a afirma\u00e7\u00e3o e posterior vit\u00f3ria das ideias liberais, em Portugal.<\/p>\n<p>A liberdade \u00e9 fr\u00e1gil, as pessoas \u00a0nem \u00a0se apercebem quando ela est\u00e1 a ser-lhes retirada.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que venho perguntar: Sabemos o que \u00e9 a liberdade?<\/p>\n<p>Parece-me importante refletir, lembrar ou equacionar de que modo a liberdade faz a diferen\u00e7a nas nossas vidas. Considero que a liberdade permite-nos ter imagina\u00e7\u00e3o, dela v\u00eam as ideias que temos, que, ent\u00e3o, constroem a sociedade. Partilhar os meus pensamentos \u00e9 uma express\u00e3o da liberdade. Sou livre porque escrevo, porque imagino, porque desenho, porque posso colocar os meus planos em a\u00e7\u00e3o e mostr\u00e1-los, porque posso desejar ser e fazer e fazer o que desejo ser.<\/p>\n<p>Estimo muito a liberdade. Na pir\u00e2mide das necessidades, coloco-a, muitas vezes, \u00a0em primeiro lugar, como um inicial mecanismo de filtragem. Se me tirarem a liberdade, como posso amar? Como posso dar? Como posso receber? Como posso ser feliz? Como posso aprender, desprovida de liberdade para errar? Sem este oxig\u00e9nio, como posso cantar, desenhar, escrever?<\/p>\n<p>Viver sem liberdade \u00e9, apenas, sobreviver e sobreviver n\u00e3o basta, num pa\u00eds livre, como o nosso. Em s\u00edntese, neste texto, escrevo, em simult\u00e2neo com Liberdade, as palavras: democracia, 25 de abril, Nat\u00e1lia Correia, vulva, Fernando Pessoa, l\u00edngua, Constitui\u00e7\u00e3o, direitos, fraternidade, igualdade, raz\u00e3o, dignidade, responsabilidade, Cristo, Nossa Senhora de F\u00e1tima, Viriato, D. Afonso Henriques, independ\u00eancia, esperan\u00e7a, f\u00e9, povo, Fado, poesia, desejos, felicidade, autonomia, \u00a0oxig\u00e9nio, Madonna, Miles Cyrus, Sinead O\u00b4Connor, Jim Morrison, Thomas Jefferson, Emma Goldman, Am\u00e1lia, Mariza, Carminho e Caman\u00e9. Escrevi +\/- 50 vezes a palavra liberdade, quase tantas vezes como os anos que temos, enquanto pa\u00eds democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Enquanto escrevia este texto, procurei a opini\u00e3o das pessoas \u00e0 minha volta: continentais, a\u00e7orianos, amigos, desconhecidos, crian\u00e7as e adultos, artistas e pedagogos, entre outros. Nenhuma opini\u00e3o foi igual. As opini\u00f5es eram as mesmas, subliminarmente, por meio de uma mesma emo\u00e7\u00e3o. N\u00e3o as transcrevo aqui, pois assiste-lhes a liberdade de n\u00e3o concordarem comigo e com este texto, mas guardei-as e partilhei-as, no meu Instagram. Passem por l\u00e1 e deixem, tamb\u00e9m, a vossa opini\u00e3o, sobre a liberdade. Estou em: <strong>@lidiamenesesdesign<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o e texto por Lidia Meneses<\/strong><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deram-me espa\u00e7o para 3000 palavras, mas s\u00f3 me ocorre uma. Venho escrever sobre a LIBERDADE dado a proximidade \u00e0 data que nos fez democracia e com\u00a0 ela a liberdade de express\u00e3o e a liberdade de imprensa. 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