
Convidamos Urbano Bettencourt a visitar o Diário da Lagoa e numa longa conversa descontraída, começa por contar que nasceu em 1949, “no extremo leste da ilha do Pico, do lado oposto à ilha do Faial, virado para São Jorge”, na freguesia da Piedade, Lajes do Pico, na zona do Calhau, junto ao mar.
Foi na Piedade que passou parte da sua infância, nos anos 50, em tempos que conta terem sido “de poucos bens” em que as pessoas “sobreviviam em função daquilo que iam produzindo” no cultivo das terras e do que o mar dava. O pai trabalhava na construção naval levando a família a decidir mudar-se para Santo Amaro.
Aos 11 anos, por intervenção do pároco, seguiu para o seminário em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, para prosseguir os estudos, onde ficou dois anos até ir para o seminário de Angra, na Terceira, onde esteve mais sete anos. Após os estudos foi para Setúbal numa “decisão pensada”. Em território continental trabalhou no escritório de um despachante alfandegário, mas em 1971 foi chamado a cumprir serviço militar em Mafra, depois em Évora com uma passagem por Tancos onde fez um curso de Minas e Armadilhas. Em julho de 1972 já “estava de malas feitas”, rumou à Guiné-Bissau onde esteve dois anos. No total, três anos de serviço militar obrigatório.
A Revolução dos Cravos ditou o fim da guerra, trouxe-o de volta ao Pico, por um par de meses, mas optou por se mudar novamente para território continental, desta vez para Lisboa, para “mudar de ares, trabalhar e estudar”, de 1974 a 81. Acaba, ainda, por regressar a Setúbal por mais três anos para exercer a docência. Em 1984, com a esposa e a primeira filha, Sara, decide regressar aos Açores, fixando-se em S. Miguel. Aqui, decorreu a parte substancial da sua atividade profissional (na Escola Secundária Antero de Quental e na Universidade dos Açores), aqui nasceu a sua segunda filha, Mariana.
Desde esse regresso, já se passaram 40 anos até esta entrevista em que nos fala do seu percurso, da sua escrita, da cultura açoriana e da Língua Portuguesa, no ano em que se celebra os 500 anos de Camões.
DL: Lançou-se na escrita por volta de 1970. Como dava a conhecer a sua escrita?
Havia alguns jornais nos Açores que tinham suplementos literários. E na Terceira houve um suplemento que ficou como referência, o “Glacial” do jornal União de Angra do Heroísmo, de 67 a 74. Publiquei também no jornal “O Dever”, do Pico. Em 1977 criamos, em Lisboa, a revista “A memória da água-viva” — eu, o meu amigo Santos Barros e um grupo de pessoas congregadas em torno do Grupo de Intervenção Cultural Açoriano; além da revista editámos livros de poesia e de ensaio, e organizámos sessões com escritores e exposições culturais. Publiquei muito na revista; depois, no início dos anos 80, o Santos Barros dirigiu o suplemento “Contexto” no jornal “Açores” e colaborei muito com ele, a partir ainda de Setúbal. A revista “Atlântida” acolheu também textos meus, a nível ensaístico.
Por tudo isso, no começo dos anos 90, o Professor José Martins Garcia sugeriu que me contratassem para substituí-lo na docência de Literatura Açoriana, que ele introduzira no plano curricular de alguns cursos do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas, da Universidade dos Açores.
DL: Quando lançou o seu primeiro livro?
Em 1972, o “Raiz de mágoa”, e em Setúbal, por insistência de um amigo meu, Manuel Pereira de Medeiros, que era de Água Retorta e foi viver para Lisboa e depois para Setúbal onde comprou uma livraria que se transformou depois na grande livraria de Setúbal, a Culsete, que ainda existe embora com outros proprietários; ele próprio se encarregou da execução gráfica do livro.
O primeiro livro serve para marcar um espaço, à espera de outros que eventualmente venham a surgir. O segundo livro, também de poesia, foi já em Lisboa naquele Grupo, em 80, intitulava-se “Marinheiro com residência fixa”. Depois em 87 já em São Miguel publiquei o “Naufrágios Inscrições” já com outra qualidade gráfica e fui escrevendo, derivando depois para o ensaísmo. Entre livros maiores e menores, de prosa, de poesia e de ensaio, são cerca de 25. Neste momento, estou aposentado mas continuo a investigar, a escrever e a comunicar.
DL: O seu último livro publicado foi o “Até que o Mar se Retire”, em 2023. Desde então está a trabalhar em mais algum livro?
Em livro novo, não. Mas acaba de sair, em terceira edição (Companhia das Ilhas, Lajes do Pico), “Santo Amaro sobre o mar», com desenhos de Alberto Péssimo (um pintor natural da Ilha de Moçambique e residente no Porto) – uma narrativa entre a evocação e a invenção, sobre Santo Amaro, a minha freguesia adotiva no Pico.
DL: Sente que a cultura açoriana é valorizada devidamente, ou vai continuar a ser para nichos?
A cultura é um tecido composto por manifestações diversas e campos diferenciados. E, se repararmos bem, alguns desses campos (talvez por serem encarados como mais «acessíveis» e capazes de atingir um público mais abrangente – dentro de uma simples lógica da quantificação e da estatística), têm uma circulação e uma visibilidade que não assistem a outros; à sombra disso, verifica-se por vezes uma traficância de produtos de qualidade muito duvidosa que passam e não deixam qualquer mais-valia em termos de valorização coletiva e individual.
Em todo o caso, há experiências que vão tendo lugar em diversos pontos dos Açores e constituem bons exemplos da cultura como processo de criação e abertura a outros horizontes e modos de ver e pensar. Penso, no entanto, que falta ainda uma rede de suporte que favoreça a circulação dessas propostas e de outras dentro da própria ilha e entre as ilhas.
DL: No ano em que se comemora 500 anos de Camões, como olha para o estado da literatura e da língua portuguesa?
A literatura segue o seu caminho e é sempre difícil atender a tudo num momento específico (mesmo hoje, quando lemos os chamados clássicos, fazemo-lo tendo em conta uma seleção realizada pelas instituições e pelo tempo). Além disso, há aqueles autores que me são próximos e a que regresso com frequência.
Tento, na medida possível, acompanhar e ter uma informação elementar sobre nomes que vão surgindo, os rumos e preocupações da sua escrita, mas não posso ter a pretensão de os ler a todos nem tudo o que escrevem.
O ensino da Língua Portuguesa materna tem hoje meios e práticas que não tinha há muitos anos. Isso devia influenciar mais o modo de utilização da língua. Sempre houve português informal, mas usava-se em contexto informal. Hoje, o informal está por todos os lados, nas televisões, nas redes sociais, e a incorreção atinge mesmo órgãos de comunicação que, pelo seu estatuto, tinham obrigação de respeitar mais a língua que falamos; há situações em que, por ignorância ou desleixo, a língua portuguesa acaba notoriamente maltratada.
Nas redes sociais, aparecem textos interessantes e de leitura recomendável, vindos em parte de pessoas a pensar e comunicar noutros meios mais exigentes; mas ao lado disso surgem também textos em que a expressão e a comunicação sofrem tratos de polé (para não falar de outros aspetos de conteúdo e atitude cívica, que é já uma outra questão).
DL: Sente que já se realizou?
Não. Vamos sempre à procura de algo, de outro caminho, uma tentativa de consolidar alguma coisa que ficou. Vamos experimentando outras coisas e vendo como é que elas interagem connosco e como é que nos sentimos em relação a elas. Isso é um processo contínuo. De qualquer modo, uma coisa que procuro sempre é estar atento ao mundo próximo e à literatura e ver em que medida essa literatura nos serve para a nossa própria expressão e visão do mundo.
DL: Para melhorar o estado atual da “língua maltratada”, o que recomendaria a um jovem?
O que posso desejar é que cada um tenha o cuidado com o meio com o qual se apresenta e com que se constitui enquanto ser falante. Há muitas formas de passar por aí, através de leituras. O essencial é ler bastante e ler textos corretos que nos façam pensar e questionar. Acho que as coisas passam em grande parte pela leitura. Mesmo o ato de escrever precisa da leitura que se fez ou que se faz. Sem a leitura, é a própria linguagem que empobrece. Há um léxico, uma articulação discursiva que não se encontra na linguagem do quotidiano e é preciso passar por eles para enriquecer a nossa capacidade linguística e tornar mais organizada e coerente a expressão do nosso pensamento.