
A cerimónia de inauguração decorreu no passado dia 1 de junho, Dia da Criança e estiveram presentes cerca de três centenas de pessoas. O presidente da Junta de Freguesia de Ponta Garça, Rui Amaral, sublinhou o simbolismo da data e o esforço conjunto que permitiu concretizar este projeto há muito tempo ansiado e que promete oferecer mais condições de lazer a crianças, jovens e famílias da freguesia.
“O dia de hoje é um dia de festa que se quer com todos e para todos. A nossa freguesia hoje está de parabéns porque ganhou um equipamento que já merecia há mais de 20 anos”, começa por discursar o presidente da junta.
O parque e skatepark homenageiam o Professor Fernando Furtado Couto, antigo presidente da junta de freguesia de Ponta Garça, por ser uma pessoa “vanguardista, revolucionária e visionária” e por ter conseguido “várias oportunidades de construção, circulação, trânsito e aumento da freguesia para nascente”, afirma Rui Amaral.
Este investimento foi pensando e idealizado pela junta de freguesia mas não seria possível sem os apoios da câmara municipal de Vila Franca do Campo e do governo regional. “A freguesia de Ponta Garça é uma freguesia que tem fama de bem receber, de ser grata e reconhecer os seus e queremos ser gratos à câmara porque esse terreno foi cedido pela câmara municipal”, continua.
O presidente termina o seu discurso reforçando que “reivindicar pela nossa freguesia nunca é demais” admitindo que é “um orgulho” fazer com que os jovens coloquem de lado os dispositivos móveis e usufruam do parque. “É um equipamento que todos nós temos de zelar, fiscalizar e manter, cabe a todos nós proteger e denunciar. Isto é nosso e assim desfrutamos dele”, conclui.
Também presente na cerimónia, o então presidente da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo, Ricardo Rodrigues, sublinhou a importância da nova infraestrutura para a freguesia. “Era uma necessidade de Ponta Garça. Que este parque sirva para a felicidade das nossas crianças e jovens. Parabéns à Junta e a todos os pontagarcenses que agora podem desfrutar deste espaço com os seus filhos”, referiu.
Após o momento oficial do descerramento da placa e dos discursos, as crianças e adolescentes tomaram conta do recinto, com muita animação, pula-pulas, um pequeno beberete e uma demonstração de skate protagonizada por jovens da freguesia.

A comunidade reagiu com entusiasmo à nova infraestrutura e o Diário da Lagoa quis saber a opinião dos pontagracenses. Paulo Furtado e António Cordeiro, ambos com 14 anos, levavam os seus skates debaixo do braço. “Isto é uma alegria! Temos um sítio para andar sem ser na rua e sem perigos. Fazia falta e agora podemos andar livremente. Vamos estar aqui todos os dias”, garantiram.
Cláudia Paiva, natural da freguesia, considerou o novo espaço “fantástico” e frisou que toda a freguesia devia ter um espaço desses para sair-se de casa, aproveitar o ar livre e socializar. Tânia Pereira que mora há 20 anos em Ponta Garça realçou a felicidade que é visível nos rostos dos mais pequenos: “As crianças falam por si, e o espaço também”.
Já Eduardo Frias e Mário Brilhante lamentaram que este tipo de espaço tenha demorado tanto tempo a chegar, no entanto, consideram que “já é um bom começo”. Na opinião de Débora Almeida, natural de Água de Pau, mas residente há duas décadas em Ponta Garça, “as pessoas estão felizes com esse parque, às vezes tinham de ir para outros sítios e agora têm aqui mais perto de casa”.

Em entrevista exclusiva, Rui Amaral, abordou o percurso autárquico, os desafios da gestão local e o que ainda falta concretizar em Ponta Garça. Exerceu funções na junta de freguesia de Ponta Garça por oito anos e assume que não volta a recandidatar. Perguntamos o porquê de só agora ter sido inaugurado um parque infantil e skatepark e o presidente afirma que houve uma tentativa há 13 anos, no seu outro mandato, “mas tudo leva muito tempo a acontecer. Até conciliar as opiniões, meios e vontades, leva muito tempo e muitas vezes as vontades políticas prevalecem”, diz. “Nós damos a cara para as pessoas contando com os apoios institucionais e eles não chegam e ficamos sozinhos num oásis isolado, é desmotivante”, continua.
Para os próximos autarcas, Rui deixa o conselho para terem “muita força de vontade e persistência”, acrescentando que “a motivação e o afinco deve ser sempre em prol das pessoas e não da imagem pública”.
Promissora é a forma como o presidente olha para o futuro de Ponta Garça, referindo que este evento foi “uma gota no oceano” e que ainda há muito mais a fazer pela maior freguesia do concelho de Vila Franca do Campo.

Rui Amaral é natural da freguesia de São Pedro Nordestinho, concelho do Nordeste, mas foi na cidade de Toronto, Canadá, que cresceu e estudou, acompanhando os pais na onda da emigração logo após a conclusão das obras de construção do centro de saúde do Nordeste, no final da década de 80 do século passado.
Desde cedo revelou interesse pelas artes e depois de experimentar o teatro e a dança, acabou por tirar mestrado em Curatorial Studies and Criticism na Ontario College of Art and Design. Atualmente, é curador-adjunto no Museu de Arte Contemporânea de Toronto e diretor/curador de um espaço artístico privado que disponibiliza exibições gratuitas.
“Desde pequeno que sentia que a minha vida ia ser dedicada às artes”, disse, recordando que “antes de ser curador no museu, fui ator, dançarino e trabalhei em lojas na decoração das montras. Foi aí que comecei a utilizar os objetos para criar histórias”, acrescentou.
Quando começou a frequentar os museus percebeu que “os curadores também faziam isso, mas a um nível diferente. Então comecei a colaborar com artistas e fui-me interessando cada vez mais, ao ponto de decidir ir para a Ontario College of Art and Design”.
A partir daí, nunca mais parou. Apesar de jovem, Rui Amaral coleciona uma impressionante lista de sucessos e tem trabalhado com vários artistas internacionais como Eduardo Basualdo, Carlos Bunga ou Eric N. Mack. Mas foi com Ydessa Hendeles que descobriu a sua verdadeira inspiração. “Foi como uma força… ela é uma artista, uma curadora que nunca sentiu necessidade de ser algo em particular”, explicou.
Contudo, lá como cá, o apoio às artes é fundamental. “No Canadá, como nos Açores, os artistas e as galerias lutam pela continuidade do apoio na representação da cultura e do talento local”, disse.
Rui Amaral vê nas artes e nos artistas um trabalho de salvaguarda do presente. “Os artistas desempenham um trabalho muito importante porque, como digo sempre, como saberíamos que viveram pessoas antes de nós? Por algo que nos deixaram, nomeadamente fotografias, obras de arte, etc. Quando vamos a um museu vemos a nossa história. Isso é que é cultura e precisamos disso porque as pessoas são curiosas por conhecimento”.
Responsável pela montagem, conceção e supervisão das exposições no Museu de Arte Contemporânea de Toronto, Rui Amaral entende que só o trabalho conjunto pode resultar numa boa exposição. “Os artistas têm que ter muita confiança no curador, mas o curador também tem que ter confiança nos artistas para montar uma obra que os orgulhe”.
*Com apoio de Nós Portugueses

Rui Amaral, 45 anos, natural da Ponta Garça, em Vila Franca do Campo, é Técnico Administrativo de Contabilidade na Cooperativa de Santo Antão há quase 30 anos. É, também, presidente da Junta de Freguesia da Ponta Garça, cargo que mais ocupa o seu tempo livre. É igualmente proprietário de uma loja de arte floral, a única na freguesia e no pouco tempo que lhe sobra participa em aulas de pintura na cidade da Lagoa. Fomos ao seu encontro para saber quais as preocupações da maior freguesia de Vila Franca do Campo.
DL: Para ser presidente de junta é preciso ter espírito de missão?
Encaro um pouco assim. Tiro muito tempo da minha vida pessoal e familiar, há dias que nem almoço. É por gosto e se não gostasse, não daria tanto tempo à causa. Não me movem interesses pessoais, porque tenho a minha profissão. Acredito que ainda é possível fazer política honestamente e afincadamente.
DL: O que lhe dizem as pessoas?
Há de tudo um pouco. Um presidente de Junta nunca tem uma reputação 100 por cento imaculada, porque a nossa ambição é agradar a todos, no bom sentido. As pessoas conhecem-me de várias etapas porque passei por várias instituições, conhecem o meu percurso. E a generalidade das pessoas parece que está minimamente contente porque tentamos chegar a todas as áreas.
DL: Verificamos que disponibilizam consultas de psicologia. Porquê?
Entramos na altura do pós-pandemia. Lidamos com os idosos e com as pessoas mais seniores, fizemos um primeiro encontro aqui e as pessoas disseram que devíamos continuar, porque estiveram muito fechadas em casa. Depois notamos que havia pessoas que tinham ansiedade de conviver e de falar. As pessoas pedem, têm recorrido, não só os seniores. Depois passámos para os jovens, a nível do combate e prevenção do suicídio. Pensamos que eles também não iam aderir mas temos jovens a marcar consultas. Privilegiamos o anonimato. Têm aderido, o que foi uma surpresa. A psicóloga tem consultas com os idosos, os jovens e agora estamos a trabalhar com as crianças na própria escola, porque já há aqui uns problemas de violência, de toxicodependência.
DL: A toxicodependência começa a preocupar em Ponta Garça?
Felizmente não está tão enraizado como em outros sítios. O nosso concelho e a nossa freguesia são dos poucos sítios em que se pode falar ainda em prevenção. Não podemos é descurar muito mais, porque se não houver um plano e uma estratégia de ação e prevenção, já estaria muito descontrolado. A PSP teve, também, um trabalho preponderante nos últimos anos.
DL: É uma freguesia grande.
Já chegamos a ser mais de seis mil habitantes. Neste momento temos 3.500 e a população está muito envelhecida, pois os jovens têm emigrado. Há uns anos, iam para os Estados Unidos da América e Canadá. Agora, mantém-se mais a Bermuda, e alguns para o continente. Também temos outra situação, que se pode chamar de migração: as pessoas não têm casa aqui e querem ficar mais próximos do local de trabalho. É curioso porque muitos têm ido para a Lagoa porque está estrategicamente posicionada e está mais próxima de Ponta Delgada e da Ribeira Grande.
DL: Ainda há espaço para construir?
Há muita habitação degradada que precisa de ser recuperada. Temos reivindicado habitação para os jovens. A especulação imobiliária e o alojamento local não vieram ajudar a situação. Temos notado muitos imigrantes e turistas a comprar habitação na freguesia, a preços exorbitantes que os jovens não conseguem aceder. As casas mais acessíveis têm sido adaptadas para alojamento local.
Não sou contra o alojamento local, pois é bom porque traz turismo mas mau porque está a retirar habitações aos casais jovens. Ficamos aqui num meio termo, sem saber o que defender. Compete, a quem de direito, legislar, mediante a área, limitar o número de alojamentos locais.
DL: Quais os projetos que têm a longo prazo?
Temos um projeto que está estagnado, mas pelo qual temos lutado, que é o parque infantil. É uma ambição da freguesia há mais de 20 anos. O ano passado a Câmara cedeu um projeto e um terreno. Tivemos de nos candidatar, com o apoio da Câmara Municipal, ao Prorural. Foi aprovado. Quase na fase de construção, começou a guerra na Ucrânia e veio a inflação e ficou estagnado. Agora estamos a ver se ainda é possível salvá-lo e fazer por duas fases. A Câmara assumia uma fase e a Junta a outra. Ainda não desistimos.
Uma outra ambição é a variante à Ponta Garça. Não me posso calar com isso, é uma necessidade, porque temos muitos lavradores, temos autocarros, uma via muito estreita, temos seis quilómetros de via principal.
Também gostaríamos de ver aqui uma casa do Romeiro. A Casa do Romeiro seria um espaço Museu – de Reflexão e Encontro de ranchos, uma forma de colmatar a situação presente na freguesia, que cada vez complica-se mais para receber tantas pernoitas.
Também estávamos a tentar junto do Governo candidatar um projeto que é um centro de prevenção de toxicodependências e de doenças do foro psicológico, outro flagelo que se começa a ouvir cada vez mais. Temos um edifício que gostaríamos que fosse adaptado para isso. Como temos este projeto do gabinete de psicologia, este centro seria uma mais-valia. A Junta é que suporta por inteiro os custos com a psicóloga. Já batemos a várias portas, todos reconhecem, mas ninguém apoia. É muito complicado manter uma freguesia com esta dimensão mas com poucos recursos. Não é uma tarefa fácil, mas é possível com boa-vontade.
DL: Quer acrescentar mais alguma coisa?
Somos a maior freguesia de Vila Franca do Campo, somos a maior assembleia de voto. Todos os presidentes chegam a Ponta Garça e prometem tudo mas depois esquecem-se da Ponta Garça. Temos de dotar as freguesias com algo mais e olhar para elas com outro carinho e outra forma, independentemente da cor política. Nas eleições, dizem que vão fazer isto ou aquilo e fazem coisas pontuais, mas se formos a ver a freguesia ficou parada. Por exemplo, temos uma belíssima praia virgem, que é muito procurada por turistas, mas o acesso é péssimo. Há aqui um jogo do empurra e quem toma sempre essa responsabilidade é a Junta, que faz a limpeza e a manutenção. Precisamos de mais habitação, precisamos de melhores vias, de mais projetos e ideias. Não é só à Junta que compete ter as ideias. E temos algumas, mas precisamos que sejam aceites. A autarquia também tem de ser criativa, tem de saber revitalizar o seu tecido populacional e empresarial. Se não houver esse motor, as coisas começam a decair.