
Maria João Pereira
Farmacêutica
A incidência de cancro tem vindo a aumentar ao longo dos anos. Isto deve-se, em parte, ao facto de vivermos mais tempo e termos acesso a técnicas de diagnóstico cada vez mais avançadas, mas também devido ao impacto do estilo de vida, de fatores ambientais e predisposições genéticas. Apesar dos progressos científicos, o cancro continua a assustar — e é compreensível.
De um modo simples, o cancro surge quando uma célula sofre uma mutação e passa a originar outras células igualmente alteradas (mutadas). Estas células perdem a capacidade de se diferenciar como as células normais, perdendo a sua função e apresentam uma taxa de multiplicação muito superior — uma vez que já não respondem aos mecanismos normais de controlo e regulação celular.
As mutações ao nível do DNA podem levar ao desenvolvimento de oncogenes, genes que estimulam a divisão celular, ou à perda/inativação de genes supressores de tumores, responsáveis por travar divisões celulares inadequadas. E é assim que o crescimento descontrolado se instala.
O momento do diagnóstico influencia muito o prognóstico. Há quem tenha a oportunidade de descobrir o cancro numa fase inicial, o que permite um tratamento mais eficaz e atempado. Por outro lado, muitos doentes só recebem o diagnóstico numa fase tardia – o que não invalida a possibilidade de tratamento. É complexo. Não existem receitas para lidar com um diagnóstico de cancro, independentemente do estádio ou do tipo.
Existem os tumores líquidos (como leucemias e linfomas) e tumores sólidos (como mama, intestino e pulmão). Os primeiros têm origem no sangue, na medula óssea ou no sistema linfático, enquanto os segundos formam uma massa sólida no órgão correspondente.
A abordagem terapêutica varia de acordo com o estádio da doença, o tipo de cancro e, claro, com o próprio doente e as suas escolhas. Atualmente, temos acesso a uma vasta gama de opções terapêuticas: hormonoterapia, cirurgias, transplantação de medula óssea, quimioterapia, imunoterapia, radioterapia e terapias-alvo. Nem todas se aplicam a todos os casos, mas a oferta é cada vez mais precisa e direcionada.
Em muitos casos, existe dor oncológica associada, frequentemente subtratada – seja por falta de literacia, seja pelo receio dos doentes em admitir a intensidade da dor e o quão incapacitante esta pode ser. Os opióides são os fármacos de eleição e o seu uso, quando bem acompanhado, é seguro e eficaz. O alívio da dor faz parte do tratamento e não deve ser negligenciado.
Para além de todas as opções terapêuticas proporcionadas pelo avanço da ciência, a componente humana não pode — e não deve — ser esquecida. A dimensão psicossocial precisa de ser integrada no cuidado: apoio emocional, familiar, social e psicológico são fundamentais – tanto para o doente como para os cuidadores e restantes familiares.
É perfeitamente normal sentir medo, solidão, ansiedade, raiva ou culpa. É normal viver um turbilhão de emoções. O importante é saber que esta não é uma luta solitária — são necessários aliados, humanos e profissionais, para caminhar lado a lado.
O cancro é um desafio que toca a vida de todos – do doente aos seus familiares e amigos. A compreensão, o apoio e a empatia são essenciais para enfrentar esta fase com dignidade e esperança. Que tenhamos a capacidade de olhar para o cancro como uma oportunidade de ressignificar a vida, valorizar cada momento e encontrar força na união e no cuidado mútuo.