
A sua forte dedicação ao escotismo despertou o nosso interesse em conhecer a sua história. Durante uma hora de conversa, Paulo Sérgio Ponte falou-nos sobre o seu percurso e recordou connosco vários momentos.
Com 51 anos, Paulo Sérgio explica-nos que iniciou no Grupo de Escoteiros 97 com 12 anos de idade. “Foi na altura em que o grupo tinha sido fundado há um ano ou dois. Apanhei os seus primeiros anos de vida”, diz. Confessa que “sempre” gostou “muito de ser escoteiro”, recorda o ambiente acolhedor da “sede na altura” e afirma que sente um “bichinho do escotismo” impossível de desaparecer. Paulo foi escoteiro desde muito jovem, mas admite que, ainda na adolescência, se afastou do grupo durante algum tempo, numa fase em que se dedicava mais ao Grupo Jovem Pauense, uma paixão que também o acompanhou durante vários anos. Foi, contudo, por volta dos 20 anos de idade que regressou ao grupo, já em funções de dirigente. Chegou a ser “chefe de tribo”, termo utilizado na altura, e também desempenhou a função de “chefe de serviços administrativos”.
Mas é em 2001 que a sua vida muda para sempre. Aos 26 anos, Paulo sofreu um grave acidente que o deixou tetraplégico e o obrigou a afastar-se, não só do Grupo de Escoteiros 97, como do Grupo Jovem Pauense, desta vez durante um longo período. Ainda assim, quatro anos mais tarde regressa aos escoteiros, sendo pela primeira vez eleito chefe de grupo. Recorda que, após o acidente, deixou de lhe ser possível, psicologicamente, voltar para o Grupo Pauense. Sentia que não conseguia assistir aos seus ensaios de folclore: “chocava-me muito querer ir dançar e não poder. No grupo de escoteiros sinto que sou mais útil”, acrescenta.
Paulo Sérgio admite que a sua condição é mais do que um desafio. Participar apenas na planificação das atividades, sem poder estar presente na sua execução, é para si uma frustração. “É frustrante chegar à data e ver as crianças saírem à rua e não poder ir com elas”, partilha com o DL. Apesar disto, menciona uma atividade em que conseguiu estar presente com as crianças da divisão “Alcateia”. Foi com elas até Ponta Delgada “visitar um museu” e pesquisar sobre “o seu animal da selva”, graças a um “transporte adaptado” que lhe foi providenciado.
Quando se tornou chefe de grupo em 2004, Paulo manteve o cargo de forma contínua durante nove anos. “São mandatos de três anos e, por lei, não é possível fazer mais de três mandatos consecutivos” explica. Quando terminou este ciclo, não deixou a equipa dirigente do Grupo de Escoteiros 97 e passou a subchefe, função que desempenhou durante três anos. Em 2017 voltou a ser eleito chefe de grupo e, atualmente, ocupa novamente o cargo de subchefe, para o qual foi eleito em setembro deste ano. É há 21 anos que Paulo se alterna entre estas duas funções e vai, assim, “vivendo o escotismo”. Acredita que a sua “experiência”, “conhecimento” e os “contactos” que ao longo dos anos foi realizando contribuem para a sua contínua reeleição. “A equipa sabe que eu tenho mais facilidade nessa parte administrativa e normalmente sou eu quem marca as atividades”, conta ao DL.
Com a equipa, Paulo Sérgio planeia todas as atividades que os escoteiros realizam ao longo do ano. Tratam de questões de “segurança”, alimentação, “deslocamento”, entre muitas outras. “É um trabalho de equipa”, afirma e explica que tanto no cargo de chefe de grupo, como no de subchefe, o seu papel é de “orientação”. Mas não é uma tarefa fácil. “Há várias coisas que acontecem nos bastidores e que as pessoas não têm a mínima noção”, alerta realçando a grande responsabilidade que envolve a planificação das atividades feitas com os escoteiros. Todas as saídas do grupo são “previamente planeadas” e, durante os “conselhos de chefia”, Paulo procura sempre alertar os respetivos dirigentes para os cuidados especiais nas atividades realizadas no exterior, como é o caso dos “acampamentos”. “Estamos a levar os filhos de outros connosco, temos sempre de ter o máximo de cuidado”, complementa.
Neste momento o Grupo de Escoteiros 97 prepara um novo ano. As inscrições abriram em outubro e o trabalho já começa a ser agitado para toda a equipa, mas sobretudo para Paulo. Os pais das crianças estão “habituados a falar” com ele, o que faz com que acabe por ter mais trabalho, embora exista uma ajuda mútua dentro do grupo.
Ao concluir a entrevista, Paulo Sérgio partilha que uma das coisas que mais o fascina no escotismo é ver as crianças aproveitarem as atividades, explorarem o “desconhecido” e saírem de lá com “alegria no rosto”. Salienta a importância do contacto das crianças e jovens com a natureza, algo que considera cada vez menos comum. Por isso, Paulo Sérgio deixa uma última mensagem dirigida aos pais: “Deixem os vossos filhos conhecer o escotismo. O escotismo é uma escola de formação de jovens, eles acabam por aprender muitas coisas. É um bom lugar para uma criança crescer.”