
Adélio Amaro
Presidente do CEPAE
Centro do Património da Estremadura
A etnografia é muito mais do que uma técnica de recolha de dados, enquanto método de investigação das ciências sociais. Constitui uma ferramenta fundamental para a compreensão e valorização do folclore. Neste contexto ela tornase um instrumento indispensável para devolver profundidade, rigor e humanidade às práticas culturais que tantas vezes são reduzidas a espetáculo ou entretenimento turístico.
Mais do que um conjunto de técnicas de observação participante e recolha de dados, a etnografia representa uma posição epistemológica que privilegia a escuta, a descrição densa e a contextualização das práticas culturais. No domínio do folclore, esta abordagem é decisiva para evitar reduções simplistas e para assegurar que as manifestações culturais sejam interpretadas na sua complexidade histórica e social.
Num contexto de globalização cultural, em que a homogeneização ameaça a diversidade, a etnografia desempenha um papel de resistência. Ao documentar e interpretar práticas locais, ela fortalece o folclore como património imaterial e como recurso pedagógico para a transmissão intergeracional. Mais do que conservar formas, trata-se de preservar sentidos.
O folclore, tal como o entendemos hoje, vive num paradoxo. Por um lado, é apresentado como herança viva e expressão autêntica de um povo. Por outro, é frequentemente moldado por exigências de palco, por estéticas uniformizadas e por narrativas simplificadas que pouco dialogam com a arduidade das comunidades que lhe deram origem. É aqui que a etnografia se revela essencial: ela devolve densidade ao que foi amolgado, contexto ao que foi isolado e voz ao que foi silenciado.
A etnografia permite compreender que cada dança, cada canto, cada trajo, cada gesto ritual tem uma história situada – uma história feita de pessoas concretas, de relações, de tensões, de adaptações e de resistências. Sem esse olhar, o folclore corre o risco de se transformar numa caricatura de si próprio, repetindo formas vazias de sentido. Com ele, o folclore reencontra a sua raiz comunitária e o seu potencial pedagógico.
Mais do que recolher, a etnografia escuta. E essa escuta transforma. Obriga-nos a reconhecer que o folclore não é um museu de tradições congeladas, mas um organismo vivo, em constante negociação entre passado e presente. A etnografia ajuda a distinguir o que é invenção recente do que é memória profunda. E, sobretudo, ajuda a legitimar ambas as dimensões, desde que assumidas com transparência.
Num tempo em que a globalização tende a homogeneizar práticas culturais, a etnografia funciona como contrapeso crítico. Ela impede que o folclore seja apenas um produto cultural e devolve-lhe o estatuto de património identitário. Não se trata de purismo – trata-se de responsabilidade. Quem trabalha com folclore tem o dever ético de conhecer as fontes, de respeitar as comunidades e de evitar apropriações ou simplificações que distorçam a história coletiva.
Por isso, defender a etnografia como ferramenta para o folclore é defender uma prática cultural mais consciente, mais enraizada e mais honesta. É recusar a superficialidade e apostar na profundidade. É transformar o folclore num espaço de diálogo entre gerações e não apenas num espetáculo para consumo rápido.
No fundo, a etnografia não serve apenas para estudar o folclore – serve para o dignificar.

No próximo sábado, 13 de dezembro, será inaugurado no Convento de Santo António, na freguesia de Santa Cruz, na Lagoa, um conjunto de três novas exposições de artes visuais, com início marcado para as 17h30, anunciou a Câmara Municipal. O evento será seguido por uma homenagem ao bonecreiro Emanuel Maré, pela sua contribuição na criação do Presépio Tradicional da Lagoa.
Segundo nota de imprensa enviada às redações pela autarquia lagoense, as exposições apresentam diferentes linguagens artísticas. A mostra “Esperar,” de Kol de Carvalho, assinala a primeira exposição fotográfica no concelho deste arquiteto e fotógrafo, residente na Lagoa desde 1999, que possui obras de referência na paisagem urbana local e um percurso na área desde 1968. Já a exposição “Cerâmicas: Uma Retrospetiva,” de Isabel Silva Melo, evidencia o percurso da artista licenciada em Artes Plásticas que utiliza a cerâmica como sua principal forma de expressão, revelando variadas temáticas ao longo da sua carreira. Por fim, “RAÍZES,” de Paula Araújo, que se dedica à criação de peças artesanais, apresenta trabalhos que se focam na temática da família, sendo a artista conhecida pelo projeto «Marias».
Após a inauguração das mostras, será prestada a homenagem a Emanuel Maré com a projeção de um vídeo dedicado ao seu papel fundamental na criação do Presépio Tradicional da Lagoa, peça que está patente ao público no Convento de Santo António desde dezembro de 2022. O presépio destaca-se pelas suas 1.125 figuras de barro, todas concebidas e moldadas à mão, que representam as vivências populares açorianas e as caraterísticas da paisagem micaelense. A obra abrange costumes, tradições, manifestações religiosas, a apanha de chá, a atividade piscatória e as caldeiras das Furnas. O trabalho de Maré justifica o título de “Lagoa Cidade Presépio” e homenageia os bonecreiros locais.
As exposições e o Presépio Tradicional de Emanuel Maré poderão ser visitados até ao dia 4 de janeiro. Os horários são: das 09h30 às 13h00 e das 14h00 às 17h30 nos dias úteis, e das 16h00 às 21h00 nos fins de semana e feriados. Nos dias 24, 25 e 31 de dezembro de 2025 e dia 1 de janeiro de 2026, o Convento de Santo António estará encerrado. Após 5 de janeiro, as exposições continuam a poder ser visitadas nos dias de semana nos horários da manhã e tarde.


Alexandra Manes
Daqui a um mês e pouco inicia, formalmente, o ano da Capital Portuguesa da Cultura na cidade de Ponta Delgada, ilha de São Miguel. Uma missão, construída a muitas mãos, e que começou por ser parte de nove ilhas, que se desejaram como nove bairros. Uma perspetiva de futuro para a cultura regional, onde aquela cidade um dia poderia ter sido o farol que esta Região desesperadamente precisa.
E depois, nada. Após a derrota no processo europeu, o prémio de consolação anunciado, referente à distinção nacional, parece que foi varrido para debaixo do tapete. Durante anos, Ponta Delgada adormeceu culturalmente, entregue apenas a festas e concertos de periferia para agradar às disformes massas de turistas que se passeiam pelas suas ruas, lado a lado com as centenas de pessoas que padecem de problemas graves de inclusão social, sem dinheiro para comer, quanto mais para alugar um T0. Em vez de capital, portuguesa ou açoriana, Ponta Delgada tornou-se um exemplo a ter em conta quando pensamos num povo que não recebe cultura. O seu município não fez o seu trabalho. Por isso, e por outras coisas, deveria ter perdido nas urnas.
Não perdeu. Nascimento Cabral regressou, vitorioso, agora com o poder consolidado, concentrando os poderes no senhor presidente, Ponta Delgada prepara-se para ser, de facto, a Capital Portuguesa da Cultura? Veremos.
Para já, o que sabemos é que, alegadamente, há muitas forças a mexerem-se internamente, com muitas vontades e jogos de bastidores. Do que é sabido e do que alegadamente se passa, não vale de muito aqui falar, porque são frases ditas, que não se escrevem com medo de serem vistoriadas por alguma inspeção minimamente decente. Poderia mencionar um suposto apartamento de luxo, ou perguntar por eventuais regalias do comissariado, mas isso até teria possível perdão e desculpa se houvesse um programa para podermos trabalhar. Afinal, o que parece haver, é uma equipa selecionada para fazer negociatas, entre grupos escolhidos a dedo, sem igualdade de oportunidades ou sequer vontade de tentar parecer que é coisa justa. De nove bairros, a Capital da Cultura passou a nove pessoas, mais coisa, menos coisa.
2026 será o ano da Autonomia. Até morrer, não se celebrará outra efeméride tão redonda, em torno desse conceito, que fez dos Açores aquilo que hoje são, para o bem e para o mal. Algumas organizações, cá e lá, preparam programas de trabalho para celebrar a Autonomia. Espera-se que venham mais conferências e debates sobre o futuro, o que é perfeitamente compreensível e meritório. Só que estamos a fugir com o rabo à principal seringa, a meu ver. A Autonomia esgota-se no centralismo. E é de centralismo que foi feita a casa da Capital Portuguesa da Cultura, abandonando à sua sorte o resto do arquipélago, da Ribeira Grande a Santa Cruz das Flores, de Vila do Corvo à Horta, de Angra do Heroísmo a Velas. Das Lajes do Pico à Povoação. Só restou Ponta Delgada.
O que não seria grave, novamente digo. Porque, em teoria, para os Açores a Autonomia permite construir uma estrutura de trabalho, que ao longo dos anos se convencionou chamar de Direção Regional da Cultura ou dos Assuntos Culturais, consoante a poesia mais ou menos inspirada de quem a dirigiu. A gravidade prende-se com a análise dos últimos anos, verificando-se então que não há direção regional a funcionar desde o tempo de Nuno Ribeiro Lopes, último diretor regional que deixou trabalho feito, gostando-se mais, ou gostando-se menos. O arquiteto Ribeiro Lopes foi o último a trabalhar, verdadeiramente, o Regime Jurídico de Apoio às Atividades Culturais. Foi o responsável por definir estratégias para a leitura, para o audiovisual, para o património baleeiro, para a arqueologia e para museus e bibliotecas. Os que se seguiram, ainda foram cavalgando parte do seu legado, até que a coisa acabou por se ir esgotando, no final do oceano de ideias por ele deixado. Assumo que faria uma vénia ao Governo ou a um movimento social que reivindicasse o seu regresso, pela salvação da Cultura.
Restaram pessoas por ele valorizadas em cargos técnicos. E esperou-se que a Cultura fosse sobreviver. Dessas pessoas, já não encontramos vestígio palpável. Enquanto escrevo estas linhas, o cargo de diretora regional está ausente. A diretora de serviços, temo que esteja ocupada a tirar uma formação com os bombeiros regionais, para poder apagar os fogos todos que se multiplicaram na operacionalização da famosa plataforma dos apoios, que nunca funcionou. Graças às mudanças na orgânica, já não há mais chefias intermédias de primeiro grau. E no segundo grau, também só há um chefe de divisão, que vai dando sinal de vida, aparecendo nas fotos dos projetos da Universidade dos Açores e da Associação Portuguesa de Museologia.
Voltando a PDL26, há um documento essencial e que parece passar despercebido à sociedade açoriana: o protocolo assinado, a 18 de outubro, entre o Governo da Spinumviva, retalhado por dois ministérios, uma secretaria e uma câmara mal-amanhada, não chega nem perto de 5 milhões, e está dependente de competência que não se reconhece nas partes interessadas. Esse mesmo documento prevê uma fiscalização interna, com total transparência para conhecimento da sociedade que deveria beneficiar deste evento. O que é certo é que já há um requerimento do Partido Socialista, datado de 21 de outubro, com perguntas objetivas acerca da transparência financeira, da transparência da programação e custos associados e da fiscalização contratual. E eu junto-me a essas vozes, perguntando uma vez mais: Quais os critérios definidos para a nomeação da senhora Comissária? Quem nomeou? Qual o valor total de vencimentos, deslocações, alojamento, alimentação e ajudas de custo para a senhora comissária e para a sua taskforce, no orçamento total de Ponta Delgada – Capital Portuguesa da Cultura de 2026?
A transparência não pode ser só uma palavra usada para promover determinados umbigos, porque assim, a cultura está irremediavelmente perdida. Se ainda por cá estivesse o Almada Negreiros, que diria ele disto tudo? Talvez que morra a cultura, morra, pim!

Em preparação das comemorações do seu 75.º aniversário, que se realizam no próximo ano de 2026, o Teatro Micaelense anunciou que vai organizar um “Encontro de Memórias”, no próximo sábado, dia 25 de outubro, às 17h00.
“Porque o Teatro Micaelense é feito de tantas histórias — umas sobem ao palco, em forma de espetáculo, outras vivem, discretamente, nas plateias, nos corredores, que tantas vezes acolhem encontros, risos, lágrimas e aplausos —, pretende-se abrir um espaço para que cada memória ganhe voz”, refere a equipa de comunicação em nota de imprensa enviada.
Neste encontro, o público, artistas e técnicos são convidados a partilharem as recordações que guardam da instituição. A iniciativa tem por objetivo recolher testemunhos que ajudarão à construção do espetáculo comemorativo dos 75 anos do Teatro Micaelense.
A apresentar no dia 31 de março de 2026, o espetáculo conta com direção artística de Isabel Albergaria Sousa e Maria João Gouveia, dramaturgia de Carolina Bettencourt e com a participação da Sinfonietta de Ponta Delgada, do Coral de São José, do Conservatório Regional de Ponta Delgada e do Estúdio 13.

A Livraria Letras Lavadas, em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, vai acolher, no próximo dia 22 de outubro, dois momentos culturais. A Galiza e a Madeira estarão em destaque, com propostas que convocam a poesia, a história e a memória.
De acordo com nota de imprensa enviada às redações, o evento pretende reafirmar “o papel da livraria como espaço de encontro e transmissão inter-regional de património literário, histórico e cultural”.
Às 15h00, o artista galego Juan Carballo apresenta Portugalego, uma digressão poética e musical que celebra as afinidades entre galegos e portugueses. A sessão combina poemas de autores como Miguel Torga, Manuel Alegre, Florbela Espanca, Manuel María e Celso Emilio Ferreiro, entre outros, num gesto fronteiriço que atravessa línguas, territórios e afetos. Juan Carballo, voz da cena literária galega, tem publicado poemários e discos, e realizado recitais em diversos países. Lidera o grupo Juan Carballo & Os Imperfectos e fundou recentemente A Banda do Poeta, com músicos de Coimbra.
Às 18h00, Graça Alves apresenta a obra Elisabeth Phelps – Com a Madeira no coração, escrita por Cláudia Faria, que documenta a vida e o legado de uma figura central na história social e cultural da Madeira. De origem britânica, Elisabeth Dickinson Phelps chega à Madeira em 1819 acompanhada pelo marido, Joseph Phelps, herdeiro da firma Phelps Page & Co. Instalada no Funchal, integra-se no círculo britânico residente e, a partir dessa posição, desenvolve a sua ação no plano social e cultural. Fundou uma escola para raparigas, promoveu excursões e iniciativas ambientais, e viveu mais de quatro décadas entre o Funchal e Londres.
“Do gesto poético à memória histórica, a tarde de 22 de outubro na Letras Lavadas será marcada por dois encontros que reafirmam o papel da cultura como território comum”, conclui a livraria.

A secretária regional da Educação, Cultura e Desporto, Sofia Ribeiro, defende que os apoios e o investimento no setor da cultura têm de “trazer retorno para a comunidade” e não podem ser focados apenas na “promoção de eventos”.
Em nota de imprensa enviada às redações, no âmbito da cerimónia de assinatura do protocolo de financiamento à Ponta Delgada 2026 – Capital Portuguesa da Cultura (PDL26), em Ponta Delgada, a secretária regional afirma que: “muito mais do que fazer investimento em eventos culturais temos de apostar em dinâmicas culturais que envolvam a comunidade, que tenham intercomunicação e que tenham uma fortíssima componente de formação, criando novos públicos”.
Sofia Ribeiro na cerimónia disse ainda que os investimentos na cultura devem privilegiar “dinâmicas continuadas, o trabalho em rede e não isolado”.
De acordo com a titular das pastas da Educação e da Cultura, é necessário que os alunos da região tenham “conhecimento das várias realidades culturais desde muito cedo”. A tutela da Educação realça também que o Governo regional colocou “o foco das políticas educativas direcionado para o primeiro ciclo, para a educação pré-escolar, e até para o nível da creche”.
“Através da alteração dos horários dos professores do primeiro ciclo, forçámos a entrada de outros profissionais, como professores de educação física, de educação visual e de educação musical, a terem uma componente curricular de trabalho diário com os alunos”, refere.
Sofia Ribeiro recorda por fim que o ensino artístico lecionado a alunos do primeiro ciclo foi alargado, nos últimos dois anos, a mais duas escolas da região, na ilha de São Jorge.
“O foco do ensino das artes foi um pilar da nossa atuação governativa e estou certa de que de entre em breve poderemos tirar os proveitos disso”, conclui.

A exposição itinerante “Sociedade e Vida – Visões no Feminino”, do fotógrafo José Santos, desenvolvida no âmbito das comemorações do Dia Internacional da Mulher, está patente no concelho do Nordeste, mais concretamente na Sala de Exposições do Município.
Este projeto é composto por trinta fotografias que representam a mulher nos vários papéis profissionais e pessoais que desempenha na sociedade açoriana. Anteriormente, já havia sido apresentado em dois espaços comerciais de Ponta Delgada e por outras localidades da ilha.
A abertura da exposição na vila do Nordeste contou com a presença de várias entidades, entre as quais a comandante do Comando Territorial dos Açores da GNR, coronel Cláudia Santos, que integra o conjunto de profissões apresentadas na exposição, assim como duas residentes no concelho do Nordeste, mãe e filha, que foram convidadas pelo fotógrafo para integrar o projeto.
Na abertura da exposição, o presidente da Câmara do Nordeste, António Miguel Soares, felicitou o autor pela “qualidade e o propósito do trabalho exposto”, fazendo votos de que a exposição “seja visitada por um número considerável de apreciadores da fotografia e da arte em geral, quer pelos nordestenses como do turismo que se encontra de passagem pelo concelho neste período”.

A liberdade de imprensa e o papel dos jornalistas, pontos essenciais para o fortalecimento da democracia, estiveram no centro das atenções durante dois dias de intenso debate na CAIXA Cultural São Paulo, no Brasil. Num momento em que se discute globalmente a força da palavra e as consequências de falar sobre jornalismo no presente, a maior cidade da América Latina acolheu, dias 14 e 15 de agosto, o ciclo “Crónica de Uma Morte Anunciada: O Jornalismo Cultural Está Morrendo?”. O encontro reuniu jornalistas, críticos e escritores para refletirem sobre os rumos do jornalismo cultural perante as tensões da era digital.
As quatro mesas de discussão disponíveis na programação abordaram a crise da crítica especializada, a diversidade de vozes, o impacto das plataformas digitais e o papel do jornalismo diante das fake news. Entre as questões debatidas esteve a dificuldade em manter o ineditismo num fluxo de informação veloz, a fidelização de nichos de leitores, a sustentabilidade económica e a função de curadoria do jornalista cultural. Eliane Trindade e Walter Porto, do jornal brasileiro “Folha de S. Paulo”, sublinharam a necessidade de “coragem, independência e adaptação às novas linguagens digitais sem perder a credibilidade”. A crítica Giselle Vitória reforçou que “um bom texto continua a ser fundamental para o leitor”, embora o desafio maior seja a “monetização”.
O curador do ciclo, o português José Manuel Diogo, que mantém ligações profissionais ao Brasil, lembrou que a “morte anunciada” do jornalismo cultural tradicional representava também uma metamorfose, marcada pela emergência de experiências digitais, podcasts, newsletters e coletivos independentes.
“A provocação era inevitável e útil: será o jornalismo cultural apenas a crónica de uma morte anunciada? A minha posição foi clara: não. O jornalismo cultural, como todos os jornalismos do nosso tempo, não morre: renasce todos os dias. Precisa de morrer para poder voltar a nascer. Essa é a sua condição contemporânea, num mundo atravessado pela inteligência artificial, pela hiperconectividade e pela velocidade da informação. Mas, ao contrário de outros géneros jornalísticos, o cultural tem um papel ainda mais delicado: lembrar que a cultura não é adorno, mas, sim, fundamento da vida coletiva”, defendeu este responsável, que explicou a importância desta iniciativa.
“O que vimos no Brasil foi uma nova geração de jornalistas e criadores a assumir esse desafio. Não se resignam ao epitáfio, querem reinventar o jornalismo cultural com novas linguagens, cruzando crítica e reportagem, memória e criação. E isso é vital, porque numa era em que a verdade parece diluir-se na ausência de critérios éticos quotidianos, o jornalismo cultural continua a cumprir a sua função essencial: ser filtro, validação, consciência crítica. O ponto alto do encontro foi perceber esse sopro de futuro: não estamos a assistir a uma morte, mas a uma reinvenção. O resultado mais evidente foi o compromisso tácito de todos nós em afirmar que o jornalismo cultural, longe de estar condenado, continua a ser uma das frentes mais nobres de defesa da democracia”, disse em entrevista ao Diário da Lagoa.
Para além dos debates, o público pôde participar numa visita guiada com a fotojornalista Mônica Maia, que propôs novas leituras sobre a imagem e a cultura. O evento contou com a presença de nomes como Julio Maria, Daniella Zupo, Tom Farias, Naief Haddad, Guilherme Werneck e Fernando Mattar. Realizado pela LOGOS QUARTZ, com patrocínio da CAIXA e apoio do Governo Federal do Brasil, o ciclo mostrou que, mais do que um fim, o jornalismo cultural vive um processo de transformação em busca de novas formas de dialogar com a sociedade.
“Falar de jornalismo é falar da própria respiração da democracia. Durante séculos, o jornalismo foi visto como uma ponte entre factos e leitores, um espaço de mediação. Hoje, essa definição é insuficiente. Vivemos numa era em que a informação deixou de ser um recurso escasso para se tornar um excesso vertiginoso. E é precisamente nesse excesso que se escondem as maiores ameaças: a desinformação, a manipulação, a erosão da confiança coletiva. O jornalista não é apenas quem noticia, é quem organiza o caos, quem devolve à sociedade a possibilidade de distinguir entre realidade e ficção”, considerou José Manuel Diogo, que é também presidente da Associação Portugal Brasil 200 anos e responsável pela Casa da Cidadania da Língua, ambas com sede em Coimbra.
“Ao contrário do que muitos pensam, o jornalismo não morreu com as redes sociais. Ele tornou-se ainda mais necessário. Num mundo onde todos emitem, mas poucos sabem editar, o papel do jornalista é ser filtro, intérprete, guardião de critérios éticos. A comunicação social é hoje a muralha frágil, mas essencial, que separa a democracia da barbárie. Por isso, quando falamos de jornalistas, falamos de cidadania, de direitos, de futuro” frisou.

Na opinião do curador do evento em São Paulo, são necessários esforços conjuntos para valorizar os media em Língua Portuguesa.
“A minha avaliação é inseparável de uma experiência pessoal: o Plataforma. Foi o primeiro projeto original pensado para unir Portugal e Brasil num espaço comum de informação, um jornal global em língua portuguesa. A ideia era visionária: dar expressão mediática a um universo de mais de 260 milhões de falantes espalhados por quatro continentes. Mas a experiência revelou uma falha estrutural: faltou o negócio, a sustentabilidade económica. E sem economia não há jornalismo. O Plataforma mostrou-nos uma evidência dura: todos os projetos, mesmo os mais nobres, precisam de um modelo económico robusto, caso contrário tornam-se reféns da sua própria sobrevivência e deixam de cumprir o propósito para o qual nasceram. É a partir desta lição que olho hoje para os média em língua portuguesa. Temos talento, temos relevância cultural, temos histórias extraordinárias para contar, mas ainda não temos a estrutura necessária para dar escala e continuidade a esse esforço. Continuamos demasiado presos às agendas nacionais, quando o que se exige é uma rede editorial transnacional, capaz de trabalhar a língua como território comum. Quando isso acontece, e há exemplos em áreas como o jornalismo cultural, a força da língua revela-se imensa. Mas precisamos de ousadia e de sustentabilidade: só assim construiremos uma narrativa lusófona global, à altura da nossa história e da nossa presença no mundo”, finalizou José Manuel Diogo, que um dos responsáveis pelo Festival Literário Internacional da Paraíba (FliParaíba), no nordeste do Brasil, liderou, este ano, a primeira edição da Virada Cultural Lusófona, na capital de São Paulo, além de ter apresentado, em agosto, no âmbito da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Brasil, o seu mais recente livro, “Uma Geografia Poética”, uma obra, que não se propõe como antologia nem estudo crítico, estabelece, antes, uma ponte criativa entre poetas de diferentes tempos e geografias.
Em “Uma Geografia Poética”, José Manuel Diogo constrói encontros literários imaginários entre figuras como Fernando Pessoa e Camões, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, Adélia Prado e Maria Teresa Horta, Almada Negreiros e Vinícius de Moraes. O livro, editado pela Patuá, desenha diálogos que atravessam o Atlântico e revelam as inquietações, os exílios e os encantamentos que moldaram a língua portuguesa como instrumento de criação, memória e resistência.

O Centro Natália Correia, na Fajã de Baixo, em Ponta Delgada, acolhe a IV edição dos Encontros Literários nos dias 9 e 10 de outubro, uma iniciativa da Câmara Municipal de Ponta Delgada.
O evento começa, pelas 18h00 do dia 9 de outubro, com a conferência inaugural sob o tema “A nossa literatura e a nossa sociedade”, proferida por Onésimo Teotónio Almeida.
Já a 10 de outubro estes encontros literários, de entrada livre e abertos ao público em geral, irão decorrer durante todo o dia, iniciando-se pelas 9h30 e encerrando às 19h00.
O primeiro painel da manhã, subordinado ao tema “Ícones do século XX”, começa às 9h30, e conta com a participação de Anna Klobucka, que falará de “Alice Moderno discípula e mentora”. Ricardo Belo de Morais vai abordar “Fernando Pessoa: 90 anos da mais presente ausência”, Rui Tavares de Faria vai explorar “Natália Correia e o Camões que a procurou” e Carolina Cordeiro, que vestirá o papel de moderadora.
A partilha de conhecimentos continua, pelas 11h00, com o segundo painel denominado “Um dia para Camões”, que será moderado por Maria João Ruivo e conta com a presença de José Augusto Bernardes, que irá dissertar sobre “A atualidade de Camões”. Avelino de Freitas de Meneses irá abordar “Os Açores no tempo de Camões” e Maria do Céu Fraga irá questionar “As exposições bibliográficas: o que nos contam de Camões?”.
Os IV Encontros Literários regressam de tarde, pelas 15h00, com o terceiro painel que será constituído por uma mesa-redonda onde Ângela Almeida estará “À conversa com a autora Leonor Sampaio da Silva”.
Pelas 16h15, é a vez de Pedro Almeida Maia, Victor Rui Dores e Aníbal Pires (moderador) darem o seu contributo para o quarto painel, onde haverá uma mesa-redonda sob o tema “Literatura e Sociedade”.
A encerrar esta edição dos Encontros Literários estará o quinto e último painel, que intitula-se “Fora de Portas” e arranca pelas 17h30, com Eleonora Marino Duarte “À conversa com Luís Cardoso Noronha”.