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“Parece que foi Santo António que me ajudou a inspirar e a mexer com as mãos”

Após várias obras de restauro, a igreja de Santo António, localizada na freguesia de São Mateus, na ilha da Graciosa, está completa. No dia 13 de junho, procedeu-se à inauguração de três importantes telas, relativas à vida do Santo António tendo sido a pauense Maria do Carmo Matos a autora das obras

Maria do Carmo Matos, natural da vila de Água de Pau, é a pintora e autora das telas que ofereceu à igreja de Santo António da ilha Graciosa © JOSÉ N. F. ÁVILA

O Coro de São Mateus é responsável pela manutenção da igreja de Santo António, na ilha da Graciosa. Tentam sempre cuidá-la e preservá-la para que se mantenha com aspeto acolhedor, honrando Santo António, o seu padroeiro. A referida igreja chegou a não ter teto, provocando muitas infiltrações dentro do edifício, que causaram danos.

Ao longo dos tempos, o desejo de repor o retábulo da igreja, era cada vez maior. Para os envolvidos, a sua restauração só poderia ficar concluída com a reparação de três telas. Telas estas que já existiram, mas que se perderam devido a todas as infiltrações e estragos causados na igreja. Não se sabia ao pormenor como estas eram, mas sabia-se que cada uma delas representava a vida de Santo António. No livro “Igrejas e Ermidas da Graciosa” de Vital Dias Pereira conta-se que estas telas estavam relacionadas com a vida deste Santo, mas não refere ao pormenor quais eram, nem o seu respetivo tema. “Sabíamos da existência destas telas. Sempre quisemos repô-las, mas os preços eram exorbitantes e nunca tínhamos tido essa oportunidade”, começa por confessar José Gabriel Martins, 61 anos, natural da Praia da Graciosa, freguesia de São Mateus, ao Diário da Lagoa (DL).

José Martins é presidente da direção do Coro de São Mateus e respetivo maestro. O seu encontro com a micaelense Maria do Carmo, empresária natural da vila de Água de Pau, conhecida por todos como Carminha, foi fundamental para o restauro da igreja. José Martins, Maria do Carmo e os respetivos cônjuges, conheceram-se no âmbito do Encontro Matrimonial (EM) que aconteceu este ano na ilha da Graciosa. Nas palavras de Carminha Matos, “O EM é um movimento da igreja que serve para ensinar aos casais as ferramentas necessárias para viver numa vida conjugal harmoniosamente equilibrada e pelas leis da igreja”. Após o fim do encontro, Carminha e seu marido estão no aeroporto à espera do seu voo de regresso a São Miguel, acompanhados por José Martins e a sua esposa. A conversa sobre a igreja de Santo António surge e o desejo de restituir as telas da igreja era evidente para todos.

“Quando lhe disse o que queríamos e que nunca tínhamos conseguido por falta de dinheiro, ela perguntou se estávamos interessados em que ela pintasse. Ela disse que pintava e oferecia e eu não podia recusar de maneira nenhuma”, refere o graciosense. Para não embarcar rumo ao desconhecido, Carminha mostrou a José Martins umas fotografias de algumas telas referentes a uma exposição que já havia feito no Convento de Santo António, na cidade da Lagoa. “Aquilo que eu vi só me dizia que podia ter a certeza de que ela era capaz de desempenhar o papel a que se oferecia. Eu não tive dúvidas nenhumas. Transmiti essa informação ao resto do coro e a resposta de aceitar a proposta que nos fazia foi unânime”, continua José Gabriel Martins.

Daí em diante foi tratar do processo. “A Carminha organizou os materiais, as pinturas e ofereceu tudo à Igreja de Santo António. Teve muita preocupação em estudar a vida do Santo e em perceber como devia escolher os temas que tivessem a ver com a sua vida. Estudou profundamente toda a questão, viu e leu muita coisa, e depois dedicou-se à pintura e a pintura está excelente. Não poderia ser melhor. É de ótima qualidade e ela é uma excelente pintora. Estamos muito contentes por ter conseguido finalmente repor as telas”, reforça José, com grande satisfação.

Significado das Telas

Igreja de Santo António na Graciosa © JOSÉ N. F. ÁVILA

Os temas das telas dizem respeito aos milagres de Santo António. Segundo a explicação de Carminha Matos, na inauguração das novas telas, conclui-se que, a primeira tela diz respeito ao facto da Virgem Maria trazer o menino Jesus a Santo António para conversarem e “Santo António dizia que aqueles momentos eram descritos como os de mais profundo amor, paz e presença de anjos e é por isso que Santo António é representado por ter o menino Jesus ao colo”. A segunda tela, do meio, ilustra a história dos pães de Santo António. “O padeiro do Convento quando percebeu que não havia mais pães, achou que tinham sido roubados por alguém. Santo António, que os tinha distribuído aos pobres, e sentindo o quanto o padeiro estava aflito, pediu que voltasse ao mesmo local em que os tinha deixado e observasse com mais calma. O padeiro ficou tão surpreendido quando encontrou tantos cestos cheios de pão”, explicou a pauense. A terceira tela, relata o Sermão de Santo António aos Peixes, “acontecendo o milagre, quando vários peixes se aproximam e colocam a cabeça à tona de água, em ato de escuta”. Apesar de Carminha pintar em óleo e acrílico sobre tela, a técnica escolhida para a concretização das telas foi o acrílico sobre tela, por secar mais depressa.

A pintora e autora das telas começou a pintar no sábado do Senhor Santo Cristo dos Milagres, dia 13 de maio. “Achei muito piada, porque Santo António foi canonizado no dia 13 de maio de 1232 pelo papa Gregório IX e eu comecei a pintar as telas no dia 13 de maio. Acabei de pintá-las e envernizá-las no dia 3 de junho e no dia 6 parti para Graciosa”, diz do DL.

Carminha Matos considera-se uma pessoa de bastante fé, principalmente em Santo António, por o achar muito especial e por ser um Santo com nome no mundo inteiro. “Senti-me tão honrada por ter feito uma coisa para Deus, por ter servido bem à igreja e às pessoas, que não me custou nada. Fiz com tanta facilidade e depressa que parece que foi Santo António que me ajudou a inspirar e a mexer com as mãos”. Tudo deu certo à primeira e quando abriu as telas na Graciosa, “toda a gente ficou encantada e maravilhada”, conta. 

A pauense, no momento da entrevista, ainda está na Graciosa e não tem passagem de regresso marcada. Para ela, esta ilha é “um sossego e uma paz de alma que até encontramo-nos a nós próprios”. Acrescenta dizendo que as pessoas da ilha branca, “são tão acolhedoras, boas e queridas”. Reforça a sua opinião, atribuindo um especial agradecimento a Jorge Canadinhas, Gorete Bettencourt e a Adelaide Medina, que tanto a apoiaram em tudo o que era necessário.

Desde o passado dia 13 de junho que, o património cultural graciosense ficou mais rico com a arte de uma micaelense, natural de Água de Pau, que encontra na pintura uma especial forma de expressão.

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Catarina Teixeira

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