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Para além dos números: como o AL contribui para um turismo (mais) sustentável nos Açores

Rita de Sousa Pereira
Técnica de Gestão e Planeamento Turístico

Dados da Associação de Alojamento Local dos Açores (ALA) apontam para o elevado impacto económico do Alojamento Local (AL), na região na ordem dos 220 milhões de euros no ano passado. O estudo da entidade foca-se nos números e na defesa do papel do AL para o turismo dos Açores, no entanto, outros argumentos podem ser mencionados para reiterar a importância desta atividade para a região.

Se eu disser que o AL pode contribuir para o turismo sustentável, vários leitores, consternados, refutariam. Mas calma, permitam-me contextualizar esta afirmação. Que o AL deixa dinheiro na região, cria postos de trabalho e impacta outros subsetores, todos nós já sabemos. Vamos olhar para a sua realidade na região sem mencionar números que, embora importantes, ofuscam outros fatores além económicos que afirmam a atividade e a sua relevância para um turismo de dimensão arquipelágica.

Apresentam-se duas grandes premissas quando pensamos estrategicamente no turismo: devemos garantir a deslocação para o território, através da dinamização do setor dos transportes (ainda mais relevante no caso açoriano pelo seu contexto geográfico); e devemos, após cumprida esta primeira premissa, garantir a permanência dos turistas no nosso território, através da oferta de alojamento para que estes estendam a sua estadia e, então, possam usufruir do destino e das suas atividades.

No turismo dos Açores, com posicionamento de natureza sustentável, a construção de hotéis de grandes dimensões não é recomendada e, muitas vezes, nem é autorizada. Os “monstros de betão”, assim apelidados pela população, não devem ser aceites quer a nível sustentável, quer a nível estratégico. Com a noção do impacto de grandes edifícios que permitam cumprir, também, esta segunda premissa, resta-nos a seguinte questão: como permitimos a permanência dos turistas no destino de forma mais sustentável? Nesta perspetiva, a resposta é fácil: o AL apresenta a alternativa ideal para a região. Este tipo de alojamento pode ser enquadrado no turismo alternativo (ao de massas) em várias dimensões.

Em primeiro lugar, pela sua dispersão pelo território insular, fugindo dos grandes centros urbanos. Cada vez mais, zonas afastadas e com contextos rurais possuem a presença destes alojamentos, afastando-se da tendência de construção de hotéis em zonas litorâneas e com maior densidade populacional. De seguida, pensamos na sua escala. Os AL são caracteristicamente de pequenas dimensões e operam em pequena escala, facilitando a condição supramencionada, reduzindo a utilização de recursos e a produção de resíduos, setor nevrálgico na gestão sustentável de grandes infraestruturas hoteleiras. Ainda relevante é a origem da sua posse. Os AL são propriedade da comunidade local, em direta contradição à posse de unidades de alojamento por grandes grupos económicos estrangeiros. Neste sentido, o dinheiro deixado pelos turistas permanece na região e é reinvestido nesta, também relevante no caso do crescente número de empresas locais de gestão deste tipo de alojamento, onde se reitera o seu contributo para a criação de postos de trabalho.

Estas são três das dimensões mais importantes, relevantes para o contexto da região e a sua estratégia de desenvolvimento turístico. A estas podemos acrescentar a autenticidade da oferta, inserida em contexto local e com alojamentos com características culturais únicas, quer pelas escolhas estéticas, quer pelos produtos oferecidos, e a restauração e revitalização de edifícios emblemáticos e património local em zonas importantes das cidades por privados, retirando peso às obrigações da esfera pública.

Nos Açores, esta atividade é muitas vezes envilecida, uma vez que críticos olham para os exemplos de grandes cidades com contextos urbanos diferentes e associam-nos à região. Na realidade açoriana, o AL é fundamental para assegurar uma atividade turística (mais) sustentável, tendo em consideração o contexto territorial das nove ilhas e a capacidade da oferta local em satisfazer a procura.

Ainda assim, para além dos números, a atividade requer contínua fiscalização e regulamentação. Não obstante a todos estes aspetos, para que o AL continue a ser sustentável nos Açores e possamos prevenir a massificação da oferta, esta atividade deve continuar a ser desenvolvida de forma integrada de acordo com os planos de ordenamento de território e a estratégia pública para a habitação e turismo.

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Rita de Sousa PereiraTécnica de Gestão e Planeamento Turístico

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