
André Silveira
Num arquipélago como os Açores, onde nove ilhas são unidas por um estatuto político comum mas separadas por idiossincrasias sociais, económicas e culturais, o empreendedorismo emerge de forma desigual e com dinâmicas que merecem reflexão profunda. A Terceira e São Miguel, por exemplo, têm trilhado caminhos distintos quanto à forma como encaram a articulação entre conhecimento, instituições e iniciativa privada. 250 almas, e tantas velocidades distintas.
Na Terceira, verifica-se uma predisposição estratégica para estabelecer pontes com academias e centros de conhecimento do continente, e não só. Essa abertura à contaminação positiva de ideias e metodologias que chegam de fora tem sido particularmente visível na ligação a instituições universitárias e de investigação do litoral continental, que vêem na insularidade não um entrave, mas um campo de experimentação periférica, um ambiente controlado e escalável. É uma abordagem pragmática, orientada para resultados e consciente de que o saber não se esgota nos limites da nossa Universidade dos Açores.
São Miguel, em contrapartida, tende a adotar uma posição de fechamento sobre si mesma, centralizando o seu ecossistema de conhecimento e de apoio ao empreendedorismo na Universidade dos Açores. Ora, embora esta instituição desempenhe um papel relevante, não pode, nem deve, ser o único nó da rede. O mundo não acaba na academia regional, e a inteligência que precisamos de convocar para o futuro dos Açores reside também a leste, em Aveiro, Coimbra, Lisboa ou Braga, e também a oeste, na Nova Inglaterra ou no Canadá, onde existe um património académico e tecnológico que poderíamos e deveríamos mobilizar.
O Nonagon, em São Miguel, é um exemplo acabado da falácia de que infraestruturas vistosas, por si só, geram ecossistemas de valor. Um edifício arrojado, tecnologicamente equipado, estrategicamente localizado, caríssimo, mas à deriva quanto ao seu posicionamento, à sua função real na rede empreendedora da ilha. Contrasta com o Terinov, na Terceira, onde um muito mais humilde edifício, sem pretensões arquitetónicas, mas guiado por visão, proximidade à comunidade e ligações concretas a redes de saber, tem gerado um impacto real. Não é o betão que move as ideias, são as lideranças, os projectos, a clareza de propósito. A Terceira tem sido escola de que o verdadeiro desenvolvimento nasce do alinhamento entre visão estratégica e execução competente. O Nonagon é, por contraste, um alerta: podemos construir castelos de vidro, mas se não tivermos quem os habite com sentido de missão, são apenas isso, vitrines vazias. E o futuro dos Açores não pode esperar por vitrines. Precisa de laboratórios vivos de ideias.
A centralização universitária tem produzido um efeito adverso: o enclausuramento do nosso potencial. Numa era em que a inovação é um processo global, não nos podemos dar ao luxo de depender de um único polo de saber, sobretudo quando esse mesmo polo enfrenta limitações crónicas de financiamento, recursos humanos e ligação ao tecido empresarial. O futuro do empreendedorismo nos Açores passa por uma rede aberta, multidisciplinar e multi-nodal, que saiba trazer para o arquipélago o melhor do mundo e exportar também o que de bom aqui se faz.
Mas o erro não se esgota na geografia do conhecimento. Também na arquitectura do investimento se vê uma perigosa tendência para confundir desenvolvimento com cimento. O caso do Terinov, na Terceira, é paradigmático de como o valor se pode criar com inteligência e não com betão.
O Nonagon, em São Miguel, contrasta com o sucesso do Terinov na Terceira, servindo como um exemplo da inércia que pode resultar da ausência de uma direção estratégica clara. Enquanto o Terinov, beneficiando da liderança de um indivíduo com discernimento, demonstra como a inteligência e as ideias podem florescer num espaço funcional e contido, o Nonagon, apesar da sua exuberância arquitetónica e ambição simbólica, peca pela carência de uma rota definida. Mais uma vez, a Terceira prova que não é o tamanho da ilha que determina o alcance das suas iniciativas ou a eficácia das suas abordagens, é nas pessoas, na sua capacidade de liderar com propósito e planeamento, que reside o verdadeiro motor do desenvolvimento. Afinal, ter olhos não garante, por si só, a capacidade de perspetivar o futuro.
O contraponto surge no Faial e, em certa medida, também no Nonagon, em São Miguel. Espaços desenhados com exuberância arquitectónica e ambição simbólica, mas frequentemente subaproveitados e dissonantes com as verdadeiras necessidades dos empreendedores. O que importa num centro de investigação é a sua capacidade de captar financiamento competitivo, atrair carreiras qualificadas, criar prestígio académico e colaborações internacionais. Isso sim, merece investimento. O edifício é o que menos interessa. Criar um espaço cuja operação, já para não falar do investimento inicial, será elevadíssima, é logo à partida comprometer recursos que deveriam estar ao serviço da investigação e da criação de valor, é desperdício travestido de modernidade. O caso do barco para usos científicos é outro exemplo disso mesmo, mas esse fica para outro artigo. Não são os edifícios que fazem os Açores. São os Açorianos. E entre estes, os que ousam empreender deviam ser o centro da estratégia, não o pretexto para fotografias em inaugurações.
Investir em empreendedorismo é investir em gente. É apostar em formação, mentoria, redes de contacto, acesso a capital de risco, internacionalização e, acima de tudo, numa cultura que não castre a tentativa e erro. A Terceira, com menos recursos e menos visibilidade, tem mostrado que é possível fazer mais e melhor com menos, desde que se pense estrategicamente e se aposte nas pessoas certas. Talvez esteja na hora de outras ilhas escutarem esse exemplo.
O futuro dos Açores não será construído apenas com alvenaria. Será, sobretudo, tecido por ideias, coragem e alianças que ultrapassem as fronteiras da nossa zona de conforto. E isso começa por reconhecer que o saber está em todo o lado e que o desenvolvimento é, antes de tudo, um acto humano. Os Açores merecem mais e melhor.
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