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O Valor de Um Fim de Semana

André Silveira

O valor de um fim de semana pode ser muito ou pouco, dependendo do referencial, mas poucos eventos alcançam a robustez e legitimidade do International Football Tournament Azores U11. Um torneio que, sem o recurso a disfarces mediáticos, contratos milionários ou figuras públicas, reuniu em abril passado mais de 5.000 pessoas em Ponta Delgada e injetou na economia local, segundo estimativas credíveis, mais de 2,5 milhões de euros num curto espaço de quatro dias. Um impacto direto repartido entre alojamento, restauração, comércio e transportes, sem os habituais desvios, derrapagens ou inconsequências financeiras a que tantos projetos públicos nos habituaram.

Para se compreender a verdadeira dimensão deste evento, basta olhar com atenção para os seus números: 32 equipas, com pelo menos 20 atletas cada, perfazendo mais de 640 jovens atletas em competição, acompanhados por treinadores e dirigentes, a que se somaram mais de 3.500 familiares e elementos de staff, totalizando mais de 5.000 participantes diretos. Desde a sua primeira edição, o torneio contou com 90 equipas oriundas de 18 países espalhados pelos cinco continentes. Este movimento traduziu-se num impacto económico direto estimado entre 600.000 e 1.080.000 euros em alojamento, entre 720.000 e 1.120.000 euros em restauração e comércio local, e entre 180.000 e 360.000 euros em transportes e mobilidade. No cômputo geral, a economia de Ponta Delgada registou um impacto direto estimado entre 1.800.000 e 2.800.000 euros, valores de expressiva importância para a escala económica regional. Impressionante retorno para um investimento avultado de voluntariado, boa vontade e cidadania, mas parco em termos financeiros.

A Região, curiosamente, comparticipa o torneio com um valor comedido, irrisório quando comparado com os milhões que todos os anos são absorvidos pelo desporto profissional, muitas vezes sem retorno mensurável, sustentado mais por relações políticas e conveniências institucionais do que por racionalidade económica ou critério de interesse público. Este torneio, pelo contrário, afirma-se pela eficiência: máxima exposição mediática e económica, mínimo custo para os cofres públicos.

Importa sublinhar a natureza especial deste evento. Não é apenas um torneio de futebol de formação. É, acima de tudo, um motor de promoção turística e reputacional dos Açores, que chega a cinco continentes através dos clubes, atletas, treinadores e, sobretudo, dos milhares de famílias que acompanham estas crianças. Nenhuma campanha institucional, por mais orçamentada que seja, conseguiria comprar a legitimidade emocional e a disseminação espontânea que o torneio gera em cada edição. Portugal, e particularmente os Açores, são discutidos em clubes, escolas e comunidades do Brasil à Austrália, da África do Sul ao Cazaquistão.

Perante este cenário, seria expectável que as entidades públicas acautelassem o futuro desta iniciativa. Porém, em mais um episódio rocanbulesco da governação regional, está em risco a realização da edição de 2026, aquela que celebraria 20 anos consecutivos de torneio. A razão é de uma simplicidade desconcertante: o Complexo Desportivo do Lajedo, palco habitual do evento, passou a estar concessionado, por protocolo, a uma empresa privada para uso exclusivo, e na celebração desse acordo ninguém salvaguardou a realização do torneio. Não se conhecem as razões, não se percebe a lógica, e tudo isto sugere mais desleixo do que estratégia. Acresce que mais nenhum equipamento desportivo em Ponta Delgada reúne as condições logísticas e operacionais indispensáveis para acolher este torneio. Só o transporte de milhares de atletas, treinadores e famílias para instalações dispersas teria um custo incomportável e criaria uma complexidade organizativa que inviabilizaria o modelo de sucesso construído ao longo de duas décadas.

Ora, estamos a falar de um único fim de semana num ano. Uma cedência pontual, facilmente compatibilizável com qualquer calendário de utilização privada, e cuja relevância económica e social para a cidade e para a Região é incomparavelmente superior a qualquer rentabilidade de curto prazo que a exclusividade contratual possa garantir. Com vontade política, este assunto resolver-se-ia em 10 minutos. Bastaria alguém lembrar-se do interesse coletivo, desse conceito tantas vezes esquecido na administração pública.

Sejamos claros: deixar morrer este evento seria um erro estratégico e um sinal perigoso sobre a hierarquia de prioridades que governa a política regional. Em 2026, Ponta Delgada devia estar a celebrar duas décadas de um projeto exemplar, e não a lamentar a sua extinção por inércia e desatenção institucional. A decisão é simples, a solução está à vista. Resta saber se haverá quem, desta vez, esteja à altura do momento.

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