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O regresso do cinema (à Lagoa)

Alexandre Pascoal

A tecnologia individualizou a nossa relação com a obra cinematográfica, todos temos na palma da mão a possibilidade de assistir, personalizadamente, a uma quantidade infinita de filmes (e séries) nas inúmeras plataformas de streaming que dominam cerca de 60% (televisão generalista, 39,2%; cabo, 40,1%; outros, 20,7%: dados Meios e Publicidade, julho 2025) dos conteúdos que visionamos.

A exibição de cinema já foi uma realidade em todos os concelhos da ilha de São Miguel, e são muitos os que, ainda, recordam as soirées ao sábado, as matinés de domingo e o cinema ao ar livre. Até ao início das emissões regulares da televisão pública na região (50 anos completados a 10 deste mês de Agosto), as notícias chegavam na ida ao cinema, onde eram exibidas (e criteriosamente editadas) as novidades do “mundo português”.

Por estes dias, os filmes estão disponíveis em tempo real e as estreias são globais, e os Açores já não são colocados à margem, sendo que os novos formatos digitais, nomeadamente, o DCP – Digital Cinema Package, possibilitam uma maior fluidez na circulação dos filmes, tornando menos onerosa a sua distribuição, se comparada com as famosas “latas” de 35mm que antes percorriam as muitas salas da(s) ilha(s), com a inerente deterioração da qualidade da película e, consequentemente, da qualidade de imagem.

O cinema em sala é uma experiência social, ou como disse o realizador Alfred Hitchcock: “É a vida sem as partes chatas.” Partilhar uma gargalhada ou emocionarmo-nos numa plateia repleta ao invés da solidão do pequeno ecrã, é uma função social vital associada ao(s) cinema(s), algo impossível de replicar num televisor ou telemóvel (um fenómeno que porventura terá sido mais evidente na pandemia).

Esta pode até ser uma visão romântica, mas há uma tendência global no retorno às salas de cinema um pouco por todo o mundo, quer por intermédio da melhoria tecnológica, no conforto e dos novos conceitos de exibição, na programação especializada e do cinema de autor ou até no regresso ao formato em película. Em Portugal, temos o entusiasmo que tem gerado a reabertura do Batalha Centro de Cinema, no Porto, até como exemplo regenerador da vida na cidade.

Os títulos são fundamentais para os fenómenos de popularidade junto do público. Em anos mais recentes, Barbie e Oppenheimer, estreados em 2023, são disso um bom exemplo, tendo batido recordes no pós-pandemia, após anos catastróficos para indústria e para os cinemas, sobretudo, na distribuição independente.

Vem esta entrada a propósito do regresso à exibição regular de cinema no Cineteatro Lagoense Francisco d’Amaral Almeida, promovida pelo município, cuja iniciativa e investimento (com recurso a fundos comunitários) possibilitou dotar a cidade e o concelho com um dos mais modernos equipamentos da ilha.

A qualidade técnica não vale por si, mas é um importante contributo para melhor justificar a saída do público do conforto do seu sofá e vir experienciar os filmes e as estreias mais recentes que já não ficam circunscritas a Ponta Delgada, e estão, desde março, ao dispor da população do concelho da Lagoa.

A programação regular de um equipamento cultural é fundamental para fidelizar público, reaprender novas rotinas e hábitos de fruição cultural, tornar normal aquilo que, vezes demais, é encarado como excepcional.

Para além do mais, importa dotar o centro da cidade da Lagoa de equipamentos que consigam atrair a população, seja a residente ou a sazonal (e turística), como forma de dinamização de outras infraestruturas e como catalisadores económicos e geradores de novos empregos, sobretudo, junto das camadas mais jovens da população.

Esta é a prova concreta de como o investimento em cultura constitui uma aposta acertada, tanto na componente social (cultural, económica e educativa) e na sua afirmação como um pólo de modernização e desenvolvimento, numa cidade (e num concelho) em franca expansão populacional e transformação da sua paisagem urbana.

O imaginário associado ao cinema perdura para quem o vivenciou, pelo que importa passá-lo aos mais novos, tal como refere José Castelo Borges (no Diário da Lagoa de Julho de 2021): “Há crianças que não sabem o que é um cinema, não imaginam que ver um cinema não é igual a ver televisão, cinema é sempre cinema”.

Comentários

  1. avatar Robert Elmes 02-09-2025 10:47:50

    Este é um belo artigo sobre o valor do cinema através das gerações. Fiquei muito feliz em me deparar com uma peça tão sutil e sutil sobre uma ferramenta pequena, mas importante na construção da comunidade. Ótima visão do escritor para ver isso e relatar sobre isso.

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