
André Silveira
Nos Açores, o cenário político que se aproxima não deixa antever grandes mudanças no panorama autárquico ao nível das presidências. A sucessão de eleições autárquicas tende, regra geral, a confirmar dinâmicas já instaladas, sobretudo nos maiores concelhos, onde a solidez das redes locais de influência, o peso da história política recente e a própria inércia do eleitorado são fatores que dificilmente se alteram de um ciclo para o outro. Vila Franca do Campo poderá constituir-se como exceção, um caso particular em que a contestação à gestão em curso e as especificidades locais permitem entrever resultados distintos. Porém, será sobretudo a entrada do Chega na arena política regional que poderá introduzir a verdadeira variável de incerteza, com consequências ainda difíceis de antecipar.
Não existe paralelo nos Açores para o fenómeno que o Chega representa. O partido já demonstrou, a nível nacional, uma resiliência invulgar perante a crítica constante, a instabilidade interna e até a fragilidade programática. A sua força reside menos na apresentação de soluções concretas e mais na capacidade de capitalizar a frustração de um eleitorado cansado da repetição. Esse eleitorado, em grande medida, já não se revê nas opções tradicionais, nem confia nos discursos pseudo moderados ou de prudência institucional. Atraído por uma retórica simplista, mas emocionalmente eficaz, encontra no Chega uma forma de protesto que é simultaneamente grito e catarse. Não surpreende, portanto, que muitos afirmem votar no partido sem sequer conhecer o candidato em causa, o que demonstra bem a natureza do fenómeno. Nas autárquicas, contudo, este será o verdadeiro teste, uma vez que se trata de um ato eleitoral tradicionalmente marcado pelo personalismo, pelas redes de proximidade e pelo reconhecimento do trabalho concreto em cada freguesia ou concelho.
Ainda assim, é expectável que o Chega conquiste freguesias e venha a eleger vereadores mesmo em concelhos de maior dimensão. Não apenas nos Açores, mas também em Portugal continental, onde já se especula sobre a possibilidade de ganhar presidências de câmara. Tal eventualidade representaria um marco, confirmando a tese de que o partido deixou de ser um mero veículo de protesto para se tornar um ator efetivo do poder local. Nesse caso, assistiríamos à consolidação de um novo ciclo político, que poderá ser descrito como uma espécie de neo-PREC moderado: Não no sentido de ruptura revolucionária, mas como resultado da erosão dos partidos tradicionais e da emergência de alternativas que oferecem pouco mais do que indignação, simplificação e promessas de resolução imediata. O populismo, afinal, define-se justamente pela capacidade de se apresentar como resposta fácil a problemas complexos, e é nesse terreno fértil que o Chega tem semeado.
Outro aspeto relevante, que tenderá a acentuar-se nestas eleições, é a dissociação entre escolhas eleitorais para diferentes órgãos. Já não é incomum que um eleitor opte por um partido para a câmara municipal e por outro para a junta de freguesia, ou até para a assembleia municipal. Este voto segmentado traduz uma mudança de mentalidade, mas também uma maior sofisticação por parte do eleitor, que começa a perceber que o poder local não é monolítico e que se pode fragmentar a representação de acordo com as necessidades ou preferências específicas. Nos Açores, onde algumas candidaturas não apresentam listas para todas as juntas, esta realidade tornar-se-á ainda mais visível. Haverá freguesias em que para a presidência da câmara vencerá uma cor política, mas a junta de freguesia será conquistada por outra, criando equilíbrios novos e, por vezes, tensos.
Apesar de não se perspectivar grandes mudanças ao nível das presidências, o resultado final poderá ser um cenário muito diferente do que hoje existe, podendo mesmo surgir surpresas inesperadas. Na minha opinião, os partidos ditos tradicionais tendem a desvalorizar o potencial eleitorado do Chega, e têm-no feito sucessivamente, mas a verdade é que esse eleitorado nunca se perdeu e mantém-se resiliente. Assim, se no essencial o quadro político regional aparenta estabilidade, a verdade é que a presença do Chega e a tendência para o voto cruzado introduzem fatores de descontinuidade que não podem ser ignorados. O verdadeiro desafio para os partidos tradicionais não será apenas impedir que o Chega cresça, mas sobretudo reconquistar a confiança de um eleitorado que, em grande medida, já deixou de acreditar que os mesmos rostos possam oferecer soluções diferentes.
Comentários
Em vez de creditarem quadrilhas institucionalizadas, vulgo partidos, as populações têm de sair da ignorância e tomar nas suas mãos os destinos da comunidade, constituindo comissões, movimentos etc., e eleger entre si os mais capazes e conhecedores das suas necessidades. Muitos não sabem que não necessitam filiar-se nem apoiarem essas quadrilhas de mentiroso profissionais para decidirem escolher os seus líderes. A comunicação social tem papel importante na consciencialização do povo, e é a isso que se deve dedicar. Infelizmente, a quase totalidade desses orgãos informativos estão sob a pata partidária colaborando na mentira e na ignorância cada vez mais aprofundade no seio dos menos informados.