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O Inoportuno

Rui Tavares de Faria
Professor e investigador

O décimo segundo carácter sobre o qual recai a atenção e o interesse de Teofrasto é o inoportuno. É mais um termo conhecido do leitor contemporâneo e o retrato que dele faz o autor grego em pouco ou nada difere da imagem e do conceito que se tem, atualmente, de quem não mede a oportunidade, antes de agir ou falar. Na verdade, é sobre a καιρός (kairós) – vocábulo igualmente familiar do leitor micaelense –, isto é, a “oportunidade”, “qualidade que a retórica aplicou ao discurso, como a propriedade de usar da palavra ou do argumento na hora certa” (Maria de Fátima Silva), que incide a atuação do inoportuno. Embora curto, o retrato deste tipo ético faz-se em catorze pontos e todos eles dão a (re)conhecer o quão inconveniente e despropositado é aquele que tem “falta do sentido da oportunidade” (Char. 12.1.). Mas centremo-nos nos aspetos mais engraçados.

Segundo Teofrasto, o inoportuno “vê um tipo atarefado, vai ter com ele e põe-se com confidências” (Char. 12.2.), cenário com o qual já nos deparamos uma série de vezes. Desinteressado e completamente alienado do mundo que o rodeia, o inoportuno atribui importância tal àquilo que pode ter de ir dizer a A ou a B, mesmo podendo perceber que A ou B não dispõem de tempo para o ouvir ou até mesmo porque a A ou a B pode nem sequer importar o teor das confidências de última hora que vêm em momento…inoportuno. Do mesmo modo, “faz uma serenata à namorada no dia em que a moça está com febre.” (Char. 12.3.), o que, nos nossos dias, equivaleria, por exemplo, a convidar um(a) amigo(a) para sair à noite debaixo de chuva torrencial ou trovoada imensa. Convite feito no próprio dia, que é como quem pensa: “está sempre a dizer que não o/a convido para nada e eis que, quando convido, não aceita!” Pudera, quem sai à noite de casa, em dia de temporal?!

Outro aspeto gracioso que Teofrasto destaca na figura do inoportuno é o seguinte: “convidam-no para uma festa de casamento, e aí o têm a dizer mal das mulheres” (Char. 12.6). Se fosse num casamento gay masculino até se compreenderia (ou não!), mas, tratando-se de um cerimónia que é, sobretudo para a noiva, desde tempos remotos, uma das ocasiões mais felizes da sua vida, quem “sentido de oportunidade” há em dizer-se mal – ou o que quer que seja de negativo – acerca das mulheres? Ou, noutra situação, “quando já toda a gente ouviu e percebeu, ele, [o inoportuno], levanta-se e retoma a questão do princípio” (Char. 12.9.), como se dele dependesse exclusivamente o que já era do entendimento de todos os presentes…

Atualmente, o inoportuno também repete as mesmas cenas a que se refere Teofrasto e que no-las reporta de modo engraçado, mas há outros comportamentos que, nas últimas décadas, têm redesenhado este carácter humano. São inoportunos os que nos interrompem sem pedir licença, quando estamos nós a deter a palavras (Oh! Quantas vezes!); são inoportunos os que fazem intervenções pouco felizes acerca do foro íntimo de quem, estando ausente, não tem a oportunidade de se defender ou justificar; são inoportunos os que nos abordam com problemas e mais problemas, não no sentido de nos pedirem auxílio, mas com o objetivo de se de tomarem por vítimas, incessantemente. São, ainda, manifestações de falta do sentido de oportunidade procurar achincalhar o outro diante de seja quem for ou divulgar um assunto que se quer reservado ou que venha ser surpresa, só pela simples satisfação de estragar ou antecipar o momento.

Por isso, caro leitor, façamos por entender e compreender a oportunidade. Manter o silêncio, evitar aquela frase que nos dá comichão na língua ou fazer “ouvidos moucos” são algumas das formas que inviabilizam que sejam ou nos tornemos inoportunos. É como se diz: a ocasião faz o ladrão, o mesmo é dizer que o oportunidade cria o inoportuno. Às vezes, é mais forte do que nós, mas o decoro e a cortesia devem imperar e ter a voz mais elevada!

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Rui Tavares de FariaProfessor e Investigador