
José Estêvão de Melo
Ao longo da vida, e desde muito pequenos, aprendemos a agradecer a ajuda recebida, desde um simples copo de água a uma manobra de Heimlich que salva uma vida. São várias as escolas de pensamento que encorajam a gratidão, como o estoicismo que ensina que devemos estar gratos pelo bom e pelo mau que nos acontece na vida, pois ambos fazem parte da mesma e aprendemos com os dois.
A Inteligência Artificial (IA) tem vindo a desempenhar um papel cada vez mais presente nas nossas vidas, sendo utilizada em tarefas tão complexas como desenvolver aplicações informáticas, a outras tão simples como perguntar que ingrediente pode ser utilizado em substituição de outro, ao temperar uma peça de entrecosto para defumar. Nesta relação com a IA, que apesar de não ser igual às nossas relações com outros humanos, é normal transportarmos os nossos hábitos, e por norma agradecemos a ajuda recebida, mas quanto custa dizer obrigado?
Na interação entre humanos, dizer obrigado não tem custo, nem tão pouco preço, mas com ferramentas IA não é o caso, tem um custo muito real e não negligenciável. A grande maioria das ferramentas de IA têm por base um modelo de análise de linguagem natural (como o português) que com algoritmos de aprendizagem são capazes de a interpretar. Cada frase dita a uma ferramenta de IA tem de ser analisada, por computadores que necessitam de eletricidade para trabalhar, e quanto mais palavras houver na frase, maior a necessidade de processamento, e, à semelhança de um carro que quanto mais carregado estiver mais combustível gasta, os computadores quanto mais processamento realizam mais eletricidade gastam.
No caso do ChatGPT, uma estimativa é que o consumo médio para responder a uma pergunta seja de 2.9Wh, o que pode ser comparado a uma lâmpada LED de 3W, tipicamente usada numa luz de mesa de cabeceira, ligada durante uma hora. Há perguntas que tem uma análise simples e por isso envolvem menos processamento, e outras muito complexas que requerem muito mais recursos para responder. De acordo com informação publicada pela OpenAI (empresa responsável pelo ChatGPT) em Maio, a mesma tem 500 milhões de utilizadores por semana. Considerando um obrigado por utilizador por semana, estamos a falar de 500 milhões de obrigados, a um consumo de 2.9Wh, representa um total de 1.5 milhões de KWh por semana. Aplicando o custo de 11 cêntimos por KWh da tarifa tri-horária em horas de vazio, equivale a nada mais nada menos que 638 000€ por mês, ou pouco mais de 7 milhões e meio de euros por ano. Sam Altman, CEO da OpenAI, quando confrontado com a pergunta de quanto custa agradecer ao ChatGPT respondeu “dezenas de milhões de dólares, bem gastos”.
Sabendo este custo, e com todas as preocupações com o ambiente e descarbonização, devemos continuar a agradecer às ferramentas de IA? A meu ver, é um claro sim, pois caso contrário corremos o risco de normalizar um comportamento indesejável e desvalorizar a ajuda recebida, pois um mau hábito é um hábito na mesma, e da mesma forma que transportamos os nossos hábitos das relações interpessoais para a relação com a IA, o inverso também irá acontecer. Outro motivo para agradecer, é que todas as ferramentas de IA aprendem com todas as interações, e se num futuro próximo ou não, formos dominados por uma IA, quero que a mesma diga obrigado, ou que pelo menos se lembre de mim como um dos que lhe agradeceram a ajuda.
Em resumo, dizer obrigado custa, mas não dizer custa mais!