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Jovens da Lagoa contam a sua história sobre bissexualidade e transexualidade

Siena é transexual e Filipa bissexual. As jovens lagoenses partilham como descobriram a sua identidade de género e orientação sexual, como lidaram e assumiram perante a família

Siena Subica tem 23 anos e está em processo de mudança de sexo © DL

Siena Subica tem 23 anos e é transexual. Embora biologicamente tenha nascido com o sexo masculino, é com o género feminino que se identifica. Foi por volta dos 15 anos que percebeu que se passava algo a que não podia fugir. “Eu sentia que tinha uma alma feminina, mas o corpo não era feminino: eu olhava ao espelho e questionava-me porque é que as minhas ancas não alargavam, e desejava ter peito”, recorda Siena. Na puberdade, nomeadamente com o crescimento da barba, tomou uma decisão. “Percebi que eu tinha de mudar porque não me sentia bem”, confessa. Começou a deixar o cabelo crescer, mudou a forma de vestir, alterou a personalidade e adotou uma postura mais feminina.

Surpresa para os pais e apoio dos avós

No entanto, relata como foi lento o processo de ganhar “confiança para expor o que realmente vem de dentro e não o que aparenta ser”. Apesar de a mãe ter acompanhado todas as mudanças, ficou surpreendida quando se assumiu. Todavia, explica que os pais se habituaram e que, agora, a aceitam e apoiam.

Já a avó, com quem vive, reagiu logo com muita positividade à notícia de que queria recorrer a tratamentos médicos para se adequar à identidade de género. Siena relembra que a avó soltou um: “finalmente, vais ficar tão requinha”.

A lagoense explica que sempre sentiu que os avós sabiam e que era na casa deles que tinha maior liberdade. “Colocar rímel ou vestir uma cueca diferente eram coisas que eu só fazia lá. A minha avó oferecia-me bases da América que recebia das irmãs e emprestava-me batons e perfumes”, revela.

Contudo, do lado de fora das portas de casa dos avós, Siena inibiu-se durante anos de usar maquilhagem e roupa feminina. Naquela altura, via a Zara Man como uma salvação. “A loja oferece estilos muito versáteis, tanto de bad boy, como outro que dá para tornar menos masculino, mas com a tranquilidade de, ao usar, poder dizer que foi de uma loja de roupa de homem”, esclarece.

Roupa feminina, novo nome e mudança de sexo

Hoje em dia já se apresenta de forma diferente. Com uma roupa justa de tons negros, sapatilhas de plataforma, unhas claras e compridas, com maquilhagem e sobrancelhas arranjadas, refere que este foi um ano de mudanças. “Demorou, mas em 2021 foi tudo: passei a usar looks completamente femininos, furei as orelhas, comecei o processo de mudança de sexo, encontrei um nome com que me identifico – Siena – para substituir o de Fábio”.

Apesar de já ter esse objetivo desde os 15 anos, foi em junho que a jovem começou o processo de mudança de sexo. Já se deslocou a Coimbra para sessões de acompanhamento psicológico e depois seguem-se as fases de terapia hormonal e de cirurgia de redesignação sexual.

Deste modo, também o pronome com que se identifica está, hoje em dia, bem definido. “Quem me conheceu antes tem livre-arbítrio, porque isso é um processo para toda a gente: não só para mim, mas para os meus amigos e para a minha família. Mas para quem me conheceu agora sou a Siena, não sou o Fábio”.

Por ser “uma pessoa muito sociável e que se está a marimbar para o que os outros pensam”, assume nunca ter sentido discriminação por ser trans, nem na escola, nem atualmente no seu trabalho onde é supervisora de um hotel. “As pessoas veem que estou a seguir o meu objetivo e que não prejudico em nada as suas vidas”, expressa Siena.

Filipa Franco tem 20 anos e prefere preservar a sua identidade © DL

Também Filipa Franco, natural da Lagoa, confessa nunca ter sentido discriminação por ser bissexual.

Porém já ouviu comentários preconceituosos. “Dizem que finjo gostar dos dois sexos porque não me quero assumir como lésbica”, menciona, sublinhando que esta era uma observação que faziam frequentemente quando se vestia de forma mais masculina. “As pessoas achavam que por eu me vestir assim era lésbica. Isso não tinha nada a ver com a minha sexualidade, mas com a forma como eu me expressava”.

Filipa tem 20 anos, mas foi a partir dos 13 que começou a prestar mais atenção à sua orientação sexual. “Sempre achei as mulheres bonitas e interessantes e até cheguei a dizer à minha mãe que não queria morrer sem experimentar para saber do que gosto”, garante.

Recorda uma conversa que teve aos 14 anos com o rapaz com quem namorava. “Disse-lhe que, apesar de querer ficar com ele para sempre, porque pensamos sempre que é para o resto da vida, se algum dia a vida nos separasse, achava que podia vir a ter alguma coisa com uma mulher”.

Quando aos 18 anos teve o primeiro relacionamento com uma rapariga duvidou de si própria. “Foi tudo tão confuso… Questionava-me se estaria a fingir ou a deixar-me levar por gostar muito dela. Será que afinal não gostava de raparigas, mas como estava com ela não a queria deixar para não a magoar? Será que era amizade e não amor?”.

Filipa é seguida por uma psicóloga a quem expôs todas as suas incertezas. “Na altura era uma coisa que me estava a fazer muito mal, porque ficava sem saber bem quem eu era. Contei-lhe a situação e ela explicou que não tinha de pôr rótulos e que podia ser o que eu quisesse. Foi aí que percebi o que eu sentia e fiquei mais tranquila comigo própria”, reconhece a lagoense.

Tiradas as dúvidas, sentiu que era altura de se assumir. “Contei logo à minha mãe, até porque acho que ia ser uma falta de consideração da minha parte se ela soubesse por outros”, salienta.

Assumir-se: choque e processo de aceitação

Filipa diz que foi necessário percorrer “um longo processo até à aceitação© DL

A reação não foi a que a filha esperava. “A minha mãe ficou chocada, embora já lhe tivesse dito que gostava de experimentar. Ela tinha aqueles ideais e sonhos de me casar com um homem e construir família. A partir do momento em que lhe disse que era bi e que estava com uma mulher foi como se aqueles sonhos tivessem sido destruídos”, afirma.

A jovem admite perceber o lado da mãe, por ser de outra geração. “A minha mãe tem uma mente muito aberta, mas quando é com os filhos dos outros é mais fácil”, suspira. Filipa descreve como foi um longo processo até à aceitação. “Lembro-me que ela chorava… E admito que no início gostava de impor. Para mim a minha mãe tinha de achar que aquilo era normal. Queria que ela compreendesse a todo o custo e que estivesse do meu lado. O facto de ela não estar a aceitar mexia muito comigo”.

Com o passar do tempo e com a ajuda da melhor amiga e da psicóloga, Filipa percebeu que “ela não tinha de aceitar, apenas tinha de respeitar”. Atualmente, a mãe apoia-a imenso e dá-se muito bem com a namorada da filha.

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