
Já são só e apenas cartas do banco com a conta da luz, da água, do gás e outras tantas, mas nenhuma a perguntar como e onde estamos. Já ninguém nos dá tanta atenção como o agente cobrador. Muito menos a atenção de uma carta escrita à mão, de caligrafia exemplar e legível, com espaçamento calculado, margens delimitadas e um desenho, no fim. Foram as cartas as responsáveis por ser designer gráfica. Recordo bem de quem me ensinou. A carta sempre exigiu uma atenção especial dos designers, pois umas das características mais marcantes das cartas é o seu aspeto visual. Ao contrário de um e-mail ou mensagem de texto, uma carta é um objeto físico que precisa de ser aguardado e desembrulhado. Isso faz com que o design gráfico tenha um papel fundamental na criação e apresentação das cartas, envolvendo uma série de elementos pensados para transmitir uma mensagem visual clara e agradável. A escolha da tipografia, das cores, da disposição dos elementos e até mesmo do papel utilizado são decisões importantes que devem ser tomadas para que a carta atinja o seu objetivo de forma eficaz. Além disso, o design gráfico das cartas também pode transmitir a personalidade e o estilo do remetente. Por exemplo, um cartão de aniversário pode apresentar ilustrações e cores vibrantes para transmitir alegria e felicidade, enquanto uma carta formal pode utilizar cores sóbrias e uma tipografia mais tradicional para transmitir seriedade e respeito. Há sempre uma poesia oculta num papel em branco e os desenhadores a ele não são indiferentes.
O design gráfico das cartas continua a encantar e emocionar aqueles que valorizam a arte da escrita e da comunicação. Certo, a alternativa são os e-mails, Whatsapps, Messengers e emojis q.b, mas a informalidade, se amistosa para alguns é, realmente entediante, para outros. A acrescentar as mensagens demasiado grotescas que se recebem no correio digital facebookiano, as senhoras percebem-me, com certeza. Posso contar pelos dedos das mãos os seres humanos que requisitaram amizade de modo cordial: «Grata por aceitar o meu convite para amizade. Doravante, esteja à vontade para partilhar e comentar os meus posts.» São de uma geração de longe, são uma preciosidade. Ou eu sou muito vintage, old fashioned, até, ou acho que esta geração, agora com mais de 70 anos, é algo raro e em vias de uma catastrófica extinção. Que experiências os educaram, que livros leram, o que os inspira? Gostava de saber a opinião destes maduros? Como Mário Zambujal que deu tema ao seu livro, este mesmo título do artigo, aqui exposto, o qual tive a honra de encontrar pintado num mural, por um exímio «muralista», o artista Francisco Fonseca. «Era um tempo em que havia tempo, até se escreviam cartas de amor.»
Foi o acesso à televisão, ao telefone, às revistas multitemáticas, informação à distância de um click o que corrompeu a nossa comunicação? Foi o facilitismo? Talvez corrompida seja uma palavra demasiado dura, mas quanto a factos não há argumentos favorecedores: «Oi, linda»; «Tudo bem, fofa?»; «De que país és?»; «O que fazes?» são formas pouco educadas, demasiado diretas, invasivas e despreocupadas. A maior parte do que se pergunta está no perfil, nunca ninguém comenta um desenho, um poema, um artigo. Se alguém procura um recíproco «Olá» e não se dá ao trabalho de nos ler e ver, porque nos daríamos ao trabalho de responder?! O mundo digital é também um dos nossos mundos reais, embora virtual. Porque tendemos a desvirtuarmo-nos? A maioria tem mais de 12 anos de escolaridade e detém um curso superior, alguns, até, doutoramento.
Guardo as cartas d`amor num cofre e por amor, entenda-se também as cartas de amizade, desenhos dos meus filhos, cartões de aniversário e de agradecimento. Quando me apetece sorrir, não vou ver os gostos de uma publicação digital, vou ao cofre revê-las, manuseá-las, cheirá-las. Desdobro-as carinhosamente, aliso-as, acaricio-lhes a textura, as de um papel mate acetinado ou as do reciclado.
Já repararam que as livrarias começam a mostrar livros relacionados à correspondência entre pessoas famosas?! «(…) querida rainha da minha alma, podes considerar-te feliz, e feliz senza brama, porque serei teu até à morte. Podemos sentir saciedade pelas coisas humanas, mas não pelas coisas divinas, e só esta palavra explica o que és para mim», escreveu Honoré de Balzac, em 1843, a Ewelina Hanska. Quão terno e meigo, quão delicado e robusto!
A carta deu lugar ao recado digital e pior que o antigo telegrama, ainda mais descartável «delectável». Até os telefonemas entre amigos já são raros. Mensagem sobre mensagens criam más interpretações.
Havia fórmulas clássicas nas mensagens entre emissor e recetor: «Espero encontrar-te de boa saúde (…).» Ai a delicadeza de se escrever uma carta, em especial, as d`amor, acabou. No entanto, apesar desse declínio ou extinção, o impacto sentimental dessas cartas não pode ser subestimado. Essas missivas cuidadosamente elaboradas carregavam emoções que não conseguiam ser transmitidas, por meio de meras palavras faladas, muitas vezes, atadas à timidez do momento, de um face a face. O ato de reclinar-se sobre a tinta e o papel mostra um nível de intencionalidade e esforço, provas de sentimentos sólidos e sérios. Sonhos, desejos e vulnerabilidades eram rebelados com eloquência. O processo de escolher as palavras com cuidado, construir frases aprimoradas e fluídas, verbalizar emoções criava uma conexão bem mais forte, por vezes, até, mensagens de avós para seus netos nunca conhecidos.
«Até que enfim. Chegou. Chegou a ambicionada cartinha que era o meu tormento e cuja demora me trazia o espírito doente e o coração sobressaltado. Não imaginas as suposições (…)» — carta de António Nobre, poeta português, a Cândida Ramos, tinha ele 17 anos.
Receber uma carta d`amor é um dos grandes prazeres ocultos às novas gerações. Essas notas manuscritas, seladas, representam um vínculo e podem ser revisitadas. Resta-nos a efemeridade, não apenas, do modo como nos comunicamos. Venceu o utilitarismo, a informalidade, a realidade crua em vez do charme, do mistério, do talento e beleza, da intemporalidade. Para onde vamos, assim, sem um olá e um adeus e uma construtiva mensagem, entre palavras escritas?