
José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático
As simulações são utilizadas recorrentemente como forma de treinar e avaliar a capacidade de resposta a determinados acontecimentos. Recordo-me, em criança (há muitos, muitos anos), de fazer simulações de sismo, em que testávamos os procedimentos a realizar. No caso das simulações de sismos, não é igual, pois já sabíamos que não era a sério, e éramos avisados de que ia acontecer, e por isso não se consegue mimetizar todos os aspetos do real acontecimento que se pretende simular — mas é melhor que nada.
As simulações também podem ser usadas para testar possibilidades de resolução de um problema, como, por exemplo, as hipóteses disponíveis para impedir que um asteroide atinja a Terra. No caso de Apóphis, se acontecesse, a devastação seria global, causando dezenas a centenas de milhões de mortes, fome e alterações climáticas que podiam durar anos ou décadas. Neste momento, a hipótese de isto acontecer é extremamente baixa, porque a sua trajetória é conhecida com uma precisão de metros, e por isso podemos dormir “extremamente” descansados. Mas já foram feitas simulações e testes para o caso de estar em rota de colisão, nomeadamente a missão DART com o asteroide Dimorphos, em que foi simulado o que aconteceria com um impacto, e depois levado a cabo esse mesmo impacto — e os resultados foram um sucesso.
Existem várias simulações a decorrer neste momento. Algumas têm um tempo simulado muito grande, como a IllustrisTNG, que simula a formação de galáxias ao longo de milhares de milhões de anos e levou cerca de dois anos a completar; ou outras como a Folding@home, que simula o enovelamento de proteínas durante um tempo simulado de um segundo, mas utilizou milhões de computadores de todo o mundo e levou mais de um ano a completar.
As simulações são um mecanismo indispensável no avanço científico e consequente melhoria da nossa vida em geral. Porque é que não podemos realizar uma simulação da nossa própria existência e saber o nosso futuro? Excluindo argumentos teológicos, uma possibilidade é que simplesmente não temos o poder computacional para simular tudo, porque, se considerarmos que o universo está a realizar computação para a sua própria evolução, simular o mesmo exigiria o mesmo poder computacional do Universo — e ficaríamos com poder computacional infinito, porque dentro desta simulação, outros poderiam fazer outra simulação, e assim sucessivamente. E isto não é possível… ou é?
O conceito de infinito é extremamente complicado, mas ao mesmo tempo muito simples. Basta pensarmos que existem infinitos números inteiros positivos, mas entre cada um destes números existem infinitos números racionais. Isto é, os números inteiros são 1, 2, 3… e os racionais são qualquer número que pode ser expresso numa fração — por exemplo, 1/2, 1/3, 1/4… — e com isto ficamos com uma infinidade de números apenas entre 1 e 2, mas entre 2 e 3 há outra infinidade, e assim sucessivamente. Ou seja, temos um conjunto infinito (os naturais positivos) que contém infinitos conjuntos infinitos (os racionais). E isto é o que faz sentido, porque algo ser infinito tem que poder conter infinito lá dentro; senão, não seria infinito — por isso é que é simples.
Se o universo é infinito, então pode simular-se a si próprio. E, se isto acontecer, significa que apenas existe uma realidade e infinitas simulações — e, se assim for, é muito mais provável estarmos numa simulação do que na realidade. O Universo poderá não ser infinito, mas se não for isto não exclui estarmos numa simulação, pois não sendo infinito podemos estar numa simulação de um universo muito mais complexo e fantástico que terá imensas simulações a correr, afinal de contas não devemos assumir como limitações gerais as nossas próprias limitações.
Se assim for… faz diferença?
A meu ver, não faz diferença nenhuma. Não interessa se somos a simulação ou a realidade, nem tão pouco interessa se somos zeros e uns no computador de alguém ou um aglomerado de átomos na única realidade. O que interessa é o valor que temos e damos às coisas — sejam elas uma sequência de zeros e uns ou um aglomerado de átomos — pois nós somos mais do que a soma das nossas partes.
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