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“Festa do Divino” em Lisboa conta com solidariedade açoriana para com Rio Grande do Sul no Brasil

© ÍGOR LOPES

A Casa dos Açores em Lisboa realiza este domingo, 19 de maio, o tradicional “Almoço da Festa do Divino Espírito Santo”, um evento importante do ponto de vista cultural e religioso na agenda açoriana. Mas, este ano, esta entidade resolveu dar uma demonstração ainda maior da força e da solidariedade açoriana, ao divulgar os cartazes “SOS Rio Grande do Sul” que apelam a “doações internacionais” para a auxiliar a população residente nesse estado brasileiro, que foi duramente atingido por enchentes causadas pelas fortes chuvas que se fizerem sentir nas últimas semanas.

Dados recentes da Defesa Civil do Estado do Rio Grande do Sul mostram que o número de mortes provocadas pelas enchentes voltou a subir. Agora são 151 óbitos. O número de municípios atingidos pela tragédia chegou a 458. O número de pessoas afetadas pelos temporais também subiu: são 2,2 milhões de moradores do Estado atingidos de alguma maneira. Mais de 77 mil buscaram abrigos desde o início das chuvas no final de abril. Nas últimas horas, 619 pessoas precisaram ir para abrigos montados no estado.

“Porque este é também um tempo de partilha e de solidariedade, a Casa dos Açores solidariza-se com a Casa dos Açores e o Estado do Rio Grande do Sul. Venha participar na Festa da partilha e da solidariedade”, frisaram os responsáveis pela entidade açoriana na capital portuguesa.

A Casa dos Açores em Lisboa justifica esta incitava solidária e afetiva com o facto de que “os primeiros açorianos chegaram ao Estado do Rio Grande do Sul em 1752; que vive hoje neste Estado uma grande comunidade de açordescendentes; que há dois anos foram celebrados os 250 anos da fundação açoriana da cidade de Porto Alegre; que Gravataí é cidade irmã de Horta (ilha do Faial) e Porto Alegre, cidade irmã de diversas outras cidades, entre elas, Ribeira Grande (ilha de S. Miguel) e Horta”.

“Em situações de catástrofes e de dificuldades da vida, é ao Espírito Santo que o povo ilhéu sempre recorre. (…) Vamos colaborar! Num momento de infortúnio como o que se verifica no Estado do Rio Grande do Sul, toda a ajuda conta para suavizar o sofrimento de tantos açordescendentes”, mencionaram os responsáveis pela Casa dos Açores.

Dos açorianos também é a hospitalidade que o gaúcho herdou”

© ÍGOR LOPES

Segundo informações contidas num estudo compilado numa cartilha distribuída na Escola Estadual de Primeiro Grau Osório Duque Estrada, no Brasil, pela professora Ana Luiza Jaskulski, natural de Canoas, no Rio Grande do Sul, mas descendente de imigrantes alemães, a imigração açoriana na região do Rio Grande do Sul merece destaque, pois, “com a penetração portuguesa no Rio Grande de São Pedro, havia a necessidade de casais para povoar e colonizar as terras, assegurando, assim, a posse da região. O pedido da vinda de casais para o sul do Brasil foi feito desde a fundação da Colónia do Sacramento, mas poucos casais para vieram, sendo, na sua grande maioria, de portugueses e brasileiros vindos de Laguna, Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais e São Paulo. (…) A erupção vulcânica na Ilha do Faial, nos Açores, flagelou os seus moradores, que foram transferidos para outras ilhas do arquipélago. A superpopulação das ilhas, a falta de terras para o plantio, os muitos flagelos da natureza e a miséria em que viviam levaram os açorianos a pedir novas terras ao rei. Em 1746, foi ordenada a vinda de casais em grupos de 60, que seriam distribuídos em cada povoado a ser formado. Os colonizadores homens não poderiam ter mais de 40 anos, e as mulheres, não mais de 30. Assim, deu-se início à propaganda para atrair os novos colonizadores, sendo-lhes oferecidos diversos atrativos: dinheiro, passagem gratuita até a nova morada, ferramentas, armas, sementes, alimentação por um ano, isenção do serviço militar, áreas para plantar (as chamadas datas), duas vacas, uma égua, quatro touros e dois cavalos, sendo os touros e os cavalos para uso de mais de uma família”.

Este mesmo estudo refere, porém, que “essas promessas, no entanto, não foram devidamente cumpridas, pois as datas demoraram muito a ser repartidas e doadas. No início do ano de 1748, chegaram a Santa Catarina os primeiros casais açorianos, os quais enfrentaram uma longa viagem, na qual passaram fome, ficaram doentes, enfrentaram epidemias como o escorbuto e conviveram em más acomodações. Vários morreram na travessia do Atlântico, principalmente crianças. As outras viagens que aconteceram, trazendo mais casais açorianos, não foram diferentes da primeira. Em 1752, começam a chegar a Rio Grande, no Estado do Rio Grande do Sul, os primeiros casais açorianos que haviam desembarcado em Santa Catarina. Os açorianos seriam levados para a região Missioneira, mas, enquanto não se cumpria o tratado de Madrid, foram conduzidos a vários núcleos que viriam a ser por eles povoados, como Rio Grande, Viamão, Porto do Viamão (Porto Alegre), Triunfo, Santo Amaro e Rio Pardo. Depois da invasão espanhola, os casais que habitavam Rio Grande foram para o Uruguai, e outros fugiram para o Norte, povoando Estreito, Taquari, Santo Antônio da Patrulha, Mostardas e Cachoeira. Alguns dirigiram-se à região da campanha, adquirindo sesmarias, dedicando-se à pecuária e povoando, assim, a campanha gaúcha”.

Ainda de acordo com a professora Ana Luiza Jaskulski, “o açoriano adaptou-se bem ao Rio Grande de São Pedro, dedicando-se à agricultura, plantando trigo, algodão, centeio, cevada, legumes, arroz, cebola, alpiste, melancia, cana de açúcar e uva. Povo católico, de princípio morais rígidos, os açorianos fizeram respeitar os seus lares e as suas famílias. Os índios, os castelhanos, os gaudérios, os aventureiros que se aproximaram dos povoados dos ilhéus assimilaram os seus costumes e as suas tradições. Dos açorianos também é a hospitalidade que o gaúcho herdou, hoje tão apreciada pelos turistas. As suas festas religiosas, como Terno de Reis, Festas Juninas, Festa do Divino, assim como as procissões, as novenas e os presépios, ajudaram a formar a tradição gaúcha. A arquitetura portuguesa das nossas primeiras construções, bem como o uso do tamanco e do chapéu de palha, são costumes que se somaram na formação das tradições do gaúcho”.

“Na culinária gaúcha, os açorianos contribuíram com sonho, arroz de leite, os famosos doces portugueses e uma grande variedade de pratos com peixe. Na música e na dança tradicionalista gaúcha, os ilhéus deixaram a sua herança: o balaio, o tatu, o pezinho, a cana verde, a dança do pau de fita. O açoriano ainda transmitiu ao gaúcho a técnica de plantar pelo sistema do pousio (cultiva-se a terra por dois anos consecutivos e deixa-se que ela descanse por outros dois anos)”, explicou esta professora.

Festa e devoção

O programa da Festa do Divino Espírito Santo em Lisboa conta com Missa, pelas 12 horas, seguida de coroação de crianças, na Igreja da Lapa, sendo as cerimónias presididas pelo Padre Hermínio Vitorino, natural da ilha de São Jorge, além de Cortejo entre a Igreja da Lapa e a Casa dos Açores em Lisboa, onde haverá o Almoço tradicional com Sopas do Espírito Santo, Carne assada e massa sovada e Arroz doce e massa sovada.

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Ígor LopesJornalista

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