Log in

Deixem os tomates em paz

Carlos Caetano Martins
Dirigente Iniciativa Liberal – Açores

Numa ida recente ao mercado, vivi um momento digno de um filme noir hortícola. Ao pedir um saco para levar tomates, o feirante, em tom conspirativo, puxou discretamente de um rolo escondido e sussurrou: “Leve este de plástico… o de papel rasga com o peso”. Por um segundo, senti que estava a cometer um crime ambiental — o tráfico do saco proibido.

A cena, que faria corar qualquer fiscal da ASAE, diz muito sobre o absurdo a que chegámos. Não é que eu seja contra proteger o planeta — antes pelo contrário. Mas há limites para o nonsense disfarçado de virtude ecológica.

Na mesma banca onde o saco de plástico é proibido, encontrei morangos e mirtilos em embalagens plásticas, mangas enroladas em rede de espuma, metade de melancias cobertas com pelicula aderente, batatas em rede sintética e até caldo verde já embalado em plástico opaco. Quer isto dizer que, para o legislador, o problema são os sacos. Os plásticos, todos os outros aparentemente, vivem numa espécie de zona franca ambiental.

Nos hipermercados, a incoerência ganha escala industrial: carne em esferovite, peixe em saco plástico, iogurtes em embalagem dupla, frutas importadas com mais proteção que porcelana chinesa. Mas o vilão da história continua a ser o saco leve e inofensivo para a cenoura.

E tudo isto graças ao Decreto Legislativo Regional n.º 5/2022/A, que proíbe sacos plásticos de utilização única no comércio a granel — exceto para carne e peixe. Portanto, saco para peixe cru e escorregadio? Tudo bem. Mas para umas courgettes lavadas, isso é um atentado ecológico. Uma lógica tão cristalina quanto a água engarrafada em plástico que compramos sem qualquer culpa.

Claro que reconheço a intenção da lei — reduzir o desperdício e promover a reutilização. E claro que precisamos de agir. Mas também precisamos de pensar. Porque substituir sacos plásticos reutilizáveis por sacos de papel que se desfazem ao primeiro contacto com a humidade não é exatamente um salto civilizacional. É mais uma cambalhota legislativa.

Depois admiram-se que as pessoas fiquem céticas, que brinquem com as regras, ou que olhem para as políticas ambientais como imposições desconectadas da realidade. Se queremos que a sustentabilidade seja levada a sério, é preciso que ela também o seja. Que se baseie em dados, coerência e soluções práticas — e não num festival de proibições arbitrárias que fazem do saco de plástico o bode expiatório de todo o colapso ambiental.

Porque, convenhamos, o planeta merece mais do que um combate simbólico contra o saco dos tomates. E nós também.

Deja una respuesta

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos obligatorios están marcados con *

CAPTCHA ImageCambiar Imagen