Log in

CO2 nos Açores: Vulcões, Carros e Energia

José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático

Recentemente, vi uma notícia sobre um estudo do CIVISA que indica que o Vulcão do Fogo emite aproximadamente 232 toneladas de CO2 por dia. Este valor pode parecer assustador, mas quando colocado em contexto, percebemos que não é um problema. Para demonstrar isso, vamos comparar esta emissão com outras fontes de CO2 e constatar que, na realidade, a nossa atenção deveria estar noutros locais. Falando em valores anuais para facilitar a análise, as 232 toneladas diárias equivalem a cerca de 84.360 toneladas por ano.

De acordo com dados da Agência Europeia para o Ambiente, a emissão média de CO2 dos carros novos vendidos em 2021 em Portugal foi de 105 g por quilómetro. Para acomodar a frota açoriana, que inclui veículos mais antigos, vamos considerar uma média de 130 g de CO2 por Km. O INE estima que a distância anual percorrida por um carro seja de cerca de 12.000 Km, o que nos dá uma emissão média de 1,5 toneladas de CO2 por ano por veículo. Considerando que nos Açores existem entre 150.000 a 200.000 carros, podemos estimar que a frota automóvel emite um total de 225.000 toneladas de CO2 por ano, quase o triplo das emissões do Vulcão do Fogo.

Mas vamos olhar para um setor que mais emite CO2 na região: a produção de energia elétrica. De acordo com o relatório anual da EDA, a emissão específica de CO2 na Região Autónoma dos Açores (RAA) foi de 454,5 g CO2/kWh em 2024. Com uma produção total de 861.226 MWh, o sistema elétrico da região emitiu cerca de 391.250 toneladas de CO2 em 2024, quase cinco vezes mais que o Vulcão do Fogo.

A produção de eletricidade na Madeira tem valores de emissão CO2 específicos muito semelhantes. Em comparação com Portugal Continental, as emissões são na ordem das 40 g CO2/kWh, cerca de 10 vezes menos do que em qualquer um dos arquipélagos. Mas há uma diferença crucial nas tendências. A percentagem de energia renovável no Continente tem aumentado de forma notável na última década. Em 2014, as renováveis representavam 27% da produção no Continente e 36% nos Açores. Em 2024, o Continente atingiu 71% de fontes renováveis, enquanto a percentagem nos Açores ficou em 34,3%, mostrando uma estagnação. Comparativamente ao arquipélago da Madeira, em 2014 a produção a partir de fontes renováveis estimava-se ser entre 25% e 30% e, em 2024, foi de 45%. Este aumento prova que a utilização de fontes renováveis em arquipélagos não é um problema intransponível nem único aos Açores.

Embora as ilhas mais pequenas enfrentem desafios na produção de energia renovável, elas representam uma fatia menor do consumo total. A ilha de São Miguel sozinha é responsável por cerca de 70% do consumo de toda a RAA. É aqui que reside a chave para a descarbonização. O problema não é o Vulcão do Fogo emitir 232 toneladas de CO2 por dia. O problema é que, apesar do seu potencial, em 2024 apenas 35,6% da energia produzida em São Miguel é de origem geotérmica.

A solução não passa por temer o vulcão, mas sim por aproveitar a sua energia.

avatar-custom

José Estêvão de MeloEngenheiro Informático

Deja una respuesta

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos obligatorios están marcados con *

CAPTCHA ImageCambiar Imagen