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Lançamento do Erasmus+ 3DPrintED na Escola Secundária de Lagoa

© ESL

No dia 30 de abril, decorreu na Escola Secundária de Lagoa a segunda edição do Evento Print Jam 3D e o lançamento do Erasmus+ 3DPrintED. O evento contou, mais uma vez, com a parceria do Expolab – Centro Ciência Viva, do Colégio do Castanheiro e com a colaboração de toda a escola. Incluiu uma forte participação de alunos e docentes, que dinamizaram e participaram de diversas atividades de caráter pedagógico e tecnológico.

O evento incluiu uma feira de impressão 3D, onde foram apresentados vários projetos, workshops de impressão 3D dirigidos a alunos e professores e ainda uma palestra sobre inteligência artificial na educação, ministrada pelo Professor Doutor José Cascalho, da Universidade dos Açores. O professor universitário presenteou a comunidade escolar com conhecimentos profundos sobre inteligência artificial, salientando os perigos, mas também as vantagens na nova realidade digital em que vivemos.

O Erasmus+ 3DprintED encontra-se na reta final. Permitiu o acesso a impressoras 3D modernas e competências do século XXI, preparando a escola para os desafios tecnológicos atuais e futuros. Constituiu-se como uma resposta tecnológica à necessidade de inclusão de todos os alunos e, ainda, como outra forma de ultrapassar as limitações insulares, recorrendo à internet, que actua como um repositório e canal para objetos digitais que podem ser materializados por meio da impressão 3D.

A impressão 3D voltará, em breve, no próximo ano letivo, durante o Steam & Games, que decorrerá na Escola Secundária de Lagoa, em novembro. Em abril do próximo ano, esperamos realizar uma nova edição do Print Jam, na qual apresentaremos novas abordagens à impressão 3D.

Os engenheiros que ainda assentam tijolo

José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático

Quando se constrói uma casa, ninguém espera ver o engenheiro civil em cima do andaime a assentar tijolos. O engenheiro projeta, calcula, escolhe materiais, supervisiona; o assentamento do tijolo é feito pelo pedreiro. Ninguém em sã consciência diria que o engenheiro é menos engenheiro por não pegar na colher. A divisão é tão antiga quanto a própria engenharia: há quem conceba e há quem execute, e ambas as funções têm valor próprio.

Por alguma razão, na engenharia informática esta separação nunca foi clara. Durante décadas, o programador foi simultaneamente arquiteto, engenheiro e pedreiro: pensava o sistema, desenhava a solução e depois escrevia, linha a linha, cada tijolo de código que sustenta a aplicação. A competência era frequentemente medida pela velocidade e elegância com que se conseguia produzir esse código manualmente, ao ponto de muitos confundirem o ato de escrever código com a engenharia em si.

Com a chegada da inteligência artificial generativa, esta confusão tornou-se evidente. Segundo o Stack Overflow Developer Survey 2025, 84% dos programadores já utilizam ou planeiam utilizar IA, contra 76% no ano anterior, e 51% dos profissionais usam estas ferramentas diariamente. Estudos da GitHub com a Accenture mostram tarefas concluídas até 55% mais depressa, e o Copilot já gera, em média, 46% do código escrito pelos seus utilizadores. Ao mesmo tempo, apenas 29% dos programadores confiam na precisão dos resultados, contra 40% no ano anterior, e 45% consideram que depurar código gerado por IA demora mais do que escrevê-lo de raiz. Estes números, lidos em conjunto, dizem-nos exatamente o que devem dizer: a IA é hoje incontornável na produção, mas insuficiente sem alguém que a saiba conduzir. Ou seja, a IA não substitui o engenheiro, exige-o.

Nada disto, convém dizer, é novo na profissão. Nenhuma engenharia está tão sujeita à mudança como a informática. Aquilo que aprendi na universidade há quinze anos praticamente já não tem expressão no mercado, e boa parte do que aprendi há cinco já é obsoleto. Linguagens, frameworks e paradigmas inteiros foram substituídos várias vezes ao longo de uma única carreira. Um engenheiro civil que se formou em 1995 continua, no essencial, a aplicar os mesmos princípios estruturais que aprendeu; um engenheiro informático da mesma geração teve, ao longo da carreira, de se reinventar três ou quatro vezes. A IA é apenas a expressão mais recente, mais visível e mais comentada dessa mudança permanente, com a particularidade de transformar não apenas as tecnologias, mas a própria forma de trabalhar. Quem se queixa da IA hoje seria, há quinze anos, o mesmo a queixar-se dos IDEs com autocompletar, e há trinta dos compiladores de alto nível. A engenharia informática é, por natureza, uma profissão de reinvenção contínua, e quem entra nela sem essa disposição entra na profissão errada.

Há, contudo, uma dimensão desta transformação que merece destaque próprio: a IA permite hoje que praticamente qualquer pessoa, sem formação técnica, produza uma aplicação funcional. Basta descrever em linguagem corrente o que se quer, e a máquina entrega código que, na maior parte dos casos, funciona. À primeira vista, isto parece o fim da engenharia informática. Na realidade, é a sua melhor demonstração. Há um velho ditado entre engenheiros segundo o qual qualquer pessoa consegue construir uma ponte que se aguenta em pé, mas é preciso um engenheiro para construir uma ponte que mal se aguenta em pé, ou seja, com o mínimo de material, o mínimo de custo e a máxima eficiência. O mesmo se aplica ao software. Qualquer pessoa consegue hoje pedir à IA uma aplicação que funcione; mas fazer uma aplicação que escale, que seja segura, que se mantenha ao longo do tempo, que não desperdice recursos e que sobreviva ao primeiro contacto com o mundo real continua a exigir um engenheiro. A IA não acabou com a engenharia; pelo contrário, tornou finalmente evidente onde ela sempre esteve.

O que está em causa, e merece discussão séria, não é se devemos ou não usar IA na programação, porque essa discussão já foi ultrapassada pelos factos. O que importa discutir é como se forma a próxima geração de engenheiros num contexto em que a parte mecânica do ofício deixou de ser o caminho natural de aprendizagem. Continuamos a ensinar nas universidades, durante anos, técnicas que a IA executa em segundos, e ao mesmo tempo subestimamos as competências verdadeiramente diferenciadoras, que são as de arquitetura, análise de sistemas e pensamento crítico sobre o que a máquina produz. O risco não é a IA substituir os programadores; o risco é formarmos uma geração que nunca aprendeu a ser engenheira, porque continuámos a treiná-la para ser pedreira numa altura em que os pedreiros já não são precisos.

A engenharia informática tem agora a oportunidade rara de fazer aquilo que outras engenharias fizeram há muito: separar a conceção da execução, e devolver à profissão o lugar que sempre lhe coube. Resta saber se temos a maturidade coletiva, dentro e fora da indústria, para aceitar que um engenheiro informático não é menos engenheiro por não escrever cada linha de código, da mesma forma que um engenheiro civil não é menos engenheiro por não assentar cada tijolo.

PSD Lagoa exige valorização salarial e fim da precariedade laboral na autarquia

O vereador Rúben Cabral apresentou uma proposta formal para corrigir situações de trabalhadores em regime de prestação de serviços que, há mais de uma década, asseguram funções permanentes sem direito a subsídios ou estabilidade contratual

© HUGO MOREIRA

A precariedade laboral na Câmara Municipal da Lagoa voltou ao centro do debate político pela voz do PSD, que reclama uma valorização salarial urgente para os colaboradores com vínculos instáveis. Segundo uma nota de imprensa enviada pela estrutura local do partido, o vereador Rúben Cabral tem insistido na necessidade de aproximar os rendimentos destes trabalhadores de “níveis mais dignos e justos”, alertando para o facto de muitos permanecerem, há mais de dez anos, com condições salariais inferiores às exigidas na Administração Pública.

A questão, que inicialmente foi levantada no âmbito da atividade do Aquafit, rapidamente se revelou como um problema transversal a diversos serviços municipais. De acordo com os dados expostos pelo autarca social-democrata em reunião de câmara, existem colaboradores a auferir cerca de 915 euros mensais durante 12 meses, ficando privados do direito a subsídios de férias e de Natal, apesar de garantirem funções regulares e permanentes no quotidiano do concelho. Para Rúben Cabral, esta é uma situação que ultrapassa a mera gestão administrativa: “não é uma questão técnica, é uma questão de justiça”. O vereador sublinha que o foco do debate não deve estar no modelo de gestão de equipamentos específicos, mas sim na “situação concreta das pessoas que garantem o funcionamento diário da Câmara Municipal da Lagoa”.

Na última reunião do executivo, o PSD formalizou uma proposta que visa não só identificar e corrigir estes vínculos precários, mas também promover uma atualização salarial que reflita a responsabilidade das funções desempenhadas. “São trabalhadores que cumprem horários regulares, asseguram necessidades permanentes e contribuem para o serviço público prestado à população, mas que continuam sem a estabilidade e o reconhecimento que essa responsabilidade exige”, defende o autarca. Rúben Cabral assegura que esta iniciativa é o culminar de um trabalho de acompanhamento de vários meses e que a autarquia lagoense deve ser “um exemplo de respeito pelos direitos laborais”. O social-democrata conclui reafirmando o compromisso de manter uma oposição firme e centrada nas pessoas, reiterando que “governar bem também é garantir justiça para quem, todos os dias, serve o concelho”.

Ponta Delgada apoia crescimento de prova de trail

© CMPDL

O vice-presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, Pedro Furtado, anunciou, na apresentação da quinta edição do “7 Cidades Ultimate Trail”, que “a autarquia está disponível para continuar a apoiar e a trabalhar ao lado do CATTT (Clube Açoriano de Triatlo, Trail e Turismo) para elevar de patamar esta prova, que decorre num dos cenários mais emblemáticos dos Açores”.

Pedro Furtado falava sobre a competição, que se realiza a 23 de maio e volta a contar com o apoio da autarquia, sublinhando que “quando apostamos em eventos desta dimensão, estamos a investir, simultaneamente, no desporto e no turismo do nosso concelho”.

O responsável autárquico com o pelouro do Desporto fez ainda questão de elogiar a capacidade organizativa do CATTT e de destacar “o apoio estratégico das juntas de freguesia dos Mosteiros e das Sete Cidades a esta prova, que tem condições para se afirmar como uma referência internacional”.

“Esta é uma aposta ganha! Há vontade, da parte da autarquia, de fazer do desporto um meio de promoção do destino Açores e de Ponta Delgada no exterior, e o 7 Cidades Ultimate Trail destaca-se por decorrer envolto numa beleza natural que sabemos existir em poucos lugares do mundo”, defendeu.

Recorde-se que o 7CUT abrange as freguesias das Sete Cidades e dos Mosteiros, mantém as inscrições abertas até 15 de maio e disponibiliza uma caminhada de 8,5 quilómetros, bem como as seguintes competições: CUT 40 (42,4 km), CUT 20 (24,9 km), CUT 10 (9,3 km) e CUT Kids (2 km).

Livraria Letras Lavadas recebe espetáculo infantil

© LETRAS LAVADAS

A livraria Letras Lavadas recebe, no próximo dia 16 de maio, às 15h00, o espetáculo músico‑teatral para crianças “Das Profundezas da Terra dos Sonhos”, criado e interpretado por Filipa Gomes. Dirigido a crianças dos 3 aos 6 anos, o espetáculo tem um carácter itinerante e combina música, literatura e poesia num formato pensado para estimular a imaginação e a escuta ativa dos mais novos. As inscrições são limitadas a quinze crianças.

“Das Profundezas da Terra dos Sonhos” inspira‑se em três obras da literatura infantil açoriana — “Contos a Rimar Histórias de Espantar”, de Maria das Mercês Pacheco e Tomaz Borba Vieira (Letras Lavadas); “Miguel dos Botões”, de Blanca Martín‑Calero e Matilde Horta (Araucária); e “O Mundo de Gaspar Frutuoso” (Fundação Gaspar Frutuoso). A partir destes livros, Filipa Gomes constrói uma narrativa onde personagens se cruzam e dão forma a um universo de fantasia que conduz as crianças até uma terra imaginária situada no interior de um vulcão. O espetáculo conta com o apoio PARES – Anda&Fala e da Fundação Gaspar Frutuoso.

Filipa Gomes é mestranda em Ensino de Música, licenciada em Performance com especialização em violino, e tem desenvolvido trabalho nas áreas da interpretação, declamação, arte sonora e criação para infância. Nos últimos anos, tem composto e apresentado vários espetáculos músico‑teatrais.

O seu percurso inclui colaborações com Luís Senra em projetos de interação entre arte e natureza, participação em produções cinematográficas e parcerias em teatro, nomeadamente com a encenadora Eleonora Marinho Duarte. Leciona violino na Escola de Música de Rabo de Peixe.

As inscrições para o espetáculo podem ser realizadas através do link:  https://www.letraslavadas.pt/espetaculo-musico-teatral-com-filipa-gomes/

Caminhada sensibiliza para o património azulejar da Lagoa

© CM LAGOA

A freguesia do Rosário, Lagoa, acolhe no próximo domingo, 17 de maio, a caminhada pedagógica “Património Azulejar”, iniciativa integrada nas comemorações do Dia Internacional dos Museus. Com início agendado para as 10h00, a atividade pretende sensibilizar a comunidade para a importância do património azulejar enquanto elemento identitário da cultura e da história locais, proporcionando aos participantes um percurso de descoberta e valorização do património existente na freguesia.

A concentração terá lugar na Praça de Nossa Senhora do Rosário, com término previsto na fábrica da Cerâmica Vieira, espaço emblemático ligado à tradição cerâmica e azulejar do concelho.

A participação é gratuita, mas sujeita a inscrição obrigatória através do QR Code disponível no cartaz publicado nas redes sociais da autarquia ou do endereço eletrónico museu@lagoa-acores.pt, estando limitada a vinte e cinco inscrições.

Dirigida ao público em geral, esta caminhada pretende aliar conhecimento, contacto com o território e promoção do património cultural, incentivando a preservação e valorização das manifestações artísticas associadas ao azulejo.

Bispo de Angra defende jornalismo humanizado e alerta para os riscos da inteligência artificial

No âmbito do 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, D. Armando Esteves Domingues sublinhou a importância dos jornalistas como intérpretes da realidade e apelou a uma resistência ética contra a desinformação e o isolamento digital

© IGREJA AÇORES/CR

O Bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, defendeu esta manhã a urgência de uma comunicação ética e profundamente humanizada. O alerta surge num contexto de crescente preocupação com os perigos da desinformação e o uso descontrolado da inteligência artificial no espaço público.

Num encontro com profissionais da comunicação social, realizado no Centro Pastoral Pio XII e partilhado em nota de imprensa pela Diocese de Angra, o prelado assinalou antecipadamente o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais. A efeméride celebra-se no próximo domingo, 17 de maio, sob o mote “Preservar vozes e rostos humanos”.

Durante a sua intervenção, o bispo diocesano destacou que, num tempo de incerteza, a responsabilidade dos profissionais do setor é fundamental para a promoção da dignidade humana. “Os jornalistas são fundamentais porque fazem uma interpretação autêntica da realidade”, afirmou D. Armando Esteves Domingues.

O prelado reiterou que o papel do jornalismo é, hoje mais do que nunca, um serviço público de literacia mediática. Esta missão torna-se crucial perante a crescente dificuldade que os cidadãos enfrentam em distinguir a verdade nos canais digitais e nas redes sociais.

Demonstrando preocupação com o aumento dos discursos de ódio e a polarização, o Bispo de Angra lamentou a falta de “protagonistas responsáveis” que atuem como descodificadores da verdade. Para D. Armando, a sociedade atual parece ainda incapaz de concretizar valores essenciais como a fraternidade.

© IGREJA AÇORES/CR

Para o prelado, a tecnologia não deve ser absolutizada nem substituir o discernimento humano. “Não se pode confundir o homem com as ferramentas, nem permitir que estas o substituam”, sublinhou, apelando a que a comunicação promova o encontro e a esperança em vez de ser usada para condenar.

D. Armando apontou ainda o modelo cristão da encarnação como o exemplo máximo de uma mensagem que se faz proximidade e pessoa. O bispo desafiou os presentes a combaterem a velocidade impessoal da informação através do rigor e da valorização da presença humana.

O evento contou também com o contributo do jornalista Osvaldo Cabral, antigo diretor da RTP Açores. O profissional traçou um percurso histórico sobre a visão dos últimos seis pontificados acerca do progresso tecnológico e o seu impacto na sociedade.

Osvaldo Cabral recordou o conceito de Internet como o “Novo Areópago”, cunhado por João Paulo II em 2002. Contrastou esta visão com os alertas recentes do Papa Leão XIV sobre as “bolhas digitais” e a dependência de algoritmos que moldam relações artificiais e isoladas.

Segundo a análise do jornalista, a Igreja tem procurado humanizar as invenções técnicas, vendo os meios de comunicação como espaços estratégicos de diálogo. Esta visão converge com os objetivos do jornalismo de proximidade, focado na clareza e no compromisso com os mais frágeis.

Cerâmica Vieira: «eu não vejo isto em parte nenhuma do mundo»

“A nossa cerâmica não é uma mera fábrica” , confessa Manuela Vieira, sócia-gerente da Cerâmica Vieira, a mais antiga da ilha de São Miguel. Ela e a irmã, Teresa Vieira, também sócia-gente, gerem o negócio da família que já vai na quinta geração. O Diário da Lagoa esteve à conversa com ambas na fábrica onde “o Homem sonha e a obra nasce”, parafraseando Fernando Pessoa, que conquistou uma medalha de ouro atribuída pela Associação Portuguesa de Cidades e Vilas de Cerâmica

Teresa e Manuela Vieira lideram a Cerâmica Vieira que foi fundada em 1862 © DL

DL: Todos os anos fazem uma coleção nova. Como é que é o processo criativo?
Manuela Vieira (MV): Vamos criando, vamos vendo, vamos vendo também a necessidade e a procura do cliente e muitas das vezes somos nós a criar.Este ano agora criámos, para o dia 1 de junho, uma coleção de banda desenhada para crianças e adultos, porque os adultos também apreciam muito a banda desenhada e então têm uns conjuntinhos com banda desenhada, com o panda, com o leão, enfim. E o ano passado fizemos o lançamento das peças pintadas a preto, com uma parte no próprio barro cozida e há dois anos fizemos o lançamento das peças todas coloridas, com muita flor, com muita cor e pronto, e mesmo que o lançamento seja feito, por exemplo, na primavera, o verão acaba por nos levar as peças todas. No Natal fazemos também as louças decorativas com motivos de Natal e para os namorados queríamos sempre marcar as datas.

DL: E como é que foi receber esta distinção de medalha de ouro por parte da Associação Portuguesa de Cidades e Vilas de Cerâmica?
MV: Foi com muito orgulho, porque nós não estávamos à espera. Temos consciência plena de que a nossa cerâmica não é uma mera fábrica, não, infelizmente há quem o considere, mas não é. Tem aqui muita cultura, muito património, é porque há mais de um século imenso, 164 anos, sempre a trabalhar, para não falar que vem sempre na mesma família, vai na quinta geração. E chegar aqui, uma associação que nós até desconhecemos, e que nos dá o galardão de ouro em competitividade com outras cerâmicas a nível nacional, é um orgulho, é um reconhecimento do nosso trabalho e bem haja a quem realmente tem olhinhos na cara e vê que realmente somos merecedores de tal prémio.

DL: Como é que foram contactadas?
MV: Passou aqui um equipa desta associação, no inverno passado, e visitamos a fábrica. E como é de costume, nós quando temos uma entidade acompanhamos a visita. E há coisa de um mês atrás recebemos um telefonema, deste mesmo senhor que vem cá, a dizer que tínhamos sido escolhidas, a cerâmica, para ganhar o galardão de ouro de cerâmicas e que seria a entrega dos troféus em Vila Real. E claro, não hesitamos. 

DL: Foram lá as duas a Vila Real?
MV: Sim. 

DL: E como é que foi esse momento?
Teresa Vieira (TV): Foi muito bom, foi uma alegria imensa, as pessoas muito simpáticas, muito acolhedoras. Sentimos um bem-estar mesmo com nós próprias, porque aquilo foi tudo, foi o máximo, com as pessoas ao nosso redor, com a preocupação, com tudo, foi muito bom.

DL: Portanto foi uma cerimónia aberta ao público?
TV: Sim,sim, com muita gente relacionada com a cerâmica.

DL: De todo o país?
TV: Sim, todo o país, todo o país. Foi muito bom, muito bom, muito bom.

DL: E agora quais é que são os vossos desafios neste momento tendo em conta o negócio deste tamanho, o património que ele representa e a importância que tem na Lagoa, na ilha e nos Açores?
MV: O principal desafio é lutar sempre e fazer sempre o que temos vindo a fazer até agora. E mostrar que para além de termos sempre os nossos motivos tradicionais, clássicos, é preciso,  como disse há bocado, inovar, vir, escutar o cliente, perceber o que é que os jovens querem. Porque também temos de abrir o leque aos jovens. Ter sempre o cuidado, o máximo cuidado, em perceber a orgânica aqui da fábrica, se está tudo bem, se não está tudo bem a nível das compras, das despesas, dos lucros, portanto temos de ter muito cuidado. E só assim é que nós podemos ir mantendo o negócio. É ter estes dois ângulos de visão:  não é só ok, agora vou fazer mil e uma coisa, mas é preciso perceber se estas peças vão-te dar um retorno económico, porque se não for assim. 

DL: Não é viável.
Não é viável, claro.

DL: A fábrica, este momento, tem bastante movimento em termos do turismo?
MV: Sim, depois da pandemia passar, foi devagarinho, o turismo foi crescendo e foi equilibrado e agora neste momento podemos dizer que estamos como antes da pandemia.

DL: Em média, quantos turistas é que recebem por dia?
MV: Mais de mil.

DL: Por dia?
TV: Sim. É muita gente que passa aqui.
MV: Sim e vêm de autocarro, outros vêm mesmo por si, vêm de carro, vêm de moto, vêm a pé, de bicicleta, e isto é todo o dia, um vai e vem de pessoas. É muita gente. E depois temos essa coisa que não cobramos entradas, as pessoas entram, estão à sua vontade, são livres de fotografar, de filmar, contactam mesmo com os nossos colaboradores, fazem perguntas, elas também são super simpáticas, claro, sabem isto de trás para a frente e de frente para trás, explicam como é que se faz, como é que não se faz, e as pessoas saem daqui deslumbradas. É um orgulho para nós, depois quando eles chegam aqui à parte da secção de vendas, e eles virem mesmo felizes, contentes, e dizerem, «eu não vejo isto em parte nenhuma do mundo».Porque aqui a gente trabalha como se trabalhava antigamente, modificamos duas coisas apenas que foi a preparação dos barros, que é uma máquina que se prepara, e é a cozedura.

DL: Para o quê?
Dar mais rentabilidade. Enquanto se preparava barros antigamente numa semana, agora consigo preparar num dia, vá lá, dois dias. E as cozeduras, se eu quiser posso cozer dia sim dia não, não digo todos os dias, porque o forno tem que arrefecer, mas se quisermos a gente pode cozer todos os dias, dia sim dia não. Até as ferramentas com que se trabalha, são as mesmas com que se trabalhavam antigamente. Feitas aqui, tudo por nós. E claro, chega aqui o turista, que hoje em dia estamos virados para a tecnologia. (8:09) Chegam aqui e veem a maneira com que nós trabalhámos à mão. Ficam deslumbrados. E nós, claro, orgulhosos de que a visita foi feita com sucesso. E também é preciso que se diga que isto aqui é não só uma mera fábrica, mas também uma fábrica de muita cultura. Temos aqui muita, muita história. E é isso que nem todas as pessoas são capazes de olhar para nós como um centro de cultura.

© DL

DL: A cerâmica é mais do uma fábrica.
MV: É muito mais do que isso. É muito mais do que isso. Há muita história. 

DL: Em termos de história, o que é que destacam aqui? O que é que mais gostam nesta fábrica?
TV: Eu gosto de tudo. Desde a parte dos barros, da pintura, de tudo. Da vidragem, é tudo. Tudo tem uma ligação. E isto, para nós, é ótimo. Há bocadinho estive a preparar barros. Se eu não preparasse os barros, não havia barros para elas poderem trabalhar. 

DL: Então colocam a mão na massa.
TV:  Sim, sim. Estive a preparar barros para elas poderem trabalhar. Portanto, isto é uma ligação contínua. Tintas, vidrados, densidades, viscosidades. Faço mais essa parte. Não quer dizer que eu também não venha ajudar a minha irmã. E ela também, quando é preciso, também vai-me ajudar. Mas a minha parte é esta. É a parte mais interior da fábrica.

DL: Estão dentro do negócio.
TV: Sim, estamos dentro da fabricação. Do início ao fim. Estamos dentro da orgânica, da parte económica. Nós também estamos muito dentro da parte de fabricação.
Nós temos tudo sob controle, todas as secções. Todos os dias vamos ver o que é, o que não é.Tudo está ligado.

DL: Acompanham todo o processo.
TV: Sim, a gente basta passar por um sítio, e vemos que aquilo não está bem. E temos que chamar a atenção daquilo que não está bem. Ou o vidrado ficou mais grosso, ou o vidrado ficou mais alto. Basta a gente passar para ver. Como elas estão ali todo o dia, não dão por isso. A pessoa que vem depois, como não está ali todo o dia, passa ali e nota para aquilo. Mas aqui tudo se ratifica, tudo se faz.

DL: E acham que, pelo fato de serem duas mulheres a liderar uma fábrica, isso dá uma pujança extra ao negócio?
MV: Sim. Fomos habituadas a trabalhar sempre desde muito novas. Lembro-me perfeitamente quando andávamos a estudar ainda no liceu, vínhamos fazer as férias da funcionária das vendas.Fomos sempre muito criadas dentro do negócio. Não houve aquele medo de ficar com o negócio nas mãos. Trabalhámos muitos anos com o meu pai. O meu pai foi um grande professor. A nível de tudo, tanto da parte industrial como da parte económica. Uma pessoa com grande olho para o negócio. Foi uma escola. Pegamos nisso com leveza porque já vínhamos de trás com muita bagagem. E agora, por sermos mulheres e sermos as primeiras destas gerações todas a manter o negócio, é claro que sim. Ainda nos dá mais vontade de assegurar o negócio e de fazer um bom trabalho em relação às gerações anteriores.

DL: Portanto, são as primeiras duas mulheres a liderar a fábrica em cinco gerações?
MV: Sim, sim. Antigamente, mulheres no negócio, esquece.Não havia. O que fundou, não tinha filhos. Era casado, mas não tinha filhos. Veio com uma sobrinha, de Vila Nova de Gaia. Depois essa sobrinha, casa cá já com o nosso bisavô. Do casamento do bisavô, nascem três mulheres. Claro, mulheres, esquece, não vão para o negócio. Mas depois só o meu avô é que ficou sozinho com o negócio. Do casamento dos meus avós, nasce o meu pai e a minha tia. Claro, a minha tia é mulher. Era sócia, atenção, era sócia, mas ficou em casa. O meu pai é que geria o negócio. O meu pai teve três mulheres, filhas. E ele não tinha a que fugir. E pronto, já eram outras épocas. Já se via muitas mulheres à frente de grandes negócios e então, nós ficámos com o negócio. E hoje em dia, pelo aquilo que o meu pai diz, é assim, minhas ricas filhas. 

DL: E o que é que esperam para o futuro?
MV:Muita coisa.
TV:Muita coisa.
MV: Que isto não morra, que tenho a certeza que não vai morrer. Porque há gerações seguintes que também foram criadas aqui. E que têm um certo carinho. E quando é preciso ajuda, eles estão presentes. Temos sempre alguém que nos dá a sua opinião, que nos ajuda. Agora, claro, isto é um negócio que não pode ter a família toda a trabalhar. Estamos nós as duas e depois logo se vê. E também esperamos trabalhar até muito tarde. Dá muita vida. Assim será, Deus quiser.

Vertigem e desequilíbrio, guia rápido para compreender sintomas e causas

Maria Isabel Martins Vidal
Especialista em Neurologia na Unidade de Vertigem do Hospital CUF Açores

A vertigem e o desequilíbrio são sintomas frequentes na consulta de Neurologia e podem ser provocados por doença neurológica (central) ou do ouvido (periférico). Ambos os sintomas podem resultar de causas agudas, crónicas ou recorrentes.

Nas causas agudas, o AVC isquémico ou hemorrágico é a mais prevalente, representando uma urgência médica. Acompanha-se de vertigem súbita, com descoordenação dos membros e alteração do andar (como se o doente estivesse embriagado), dificuldade em articular palavras, visão dupla, dor de cabeça ou alteração da força muscular ou coordenação. Sendo o tratamento emergente, após a identificação das características do doente, pode ter indicação para terapias específicas, nomeadamente, através de medicamentos que ajudam a desfazer coágulos de sangue ou através da sua remoção através de intervenção cirúrgica.

Dentro dos quadros crónicos, as doenças que atingem o cerebelo – conhecido como o órgão do equilíbrio – podem provocar desequilíbrio progressivo, com instabilidade da marcha, movimentos de balanceio do tronco e uma sensação de visão como se o ambiente estivesse em movimento. Entre estas patologias, incluem-se tumores, doenças degenerativas (como a Doença de Machado Joseph), intoxicações (por exemplo, abuso de álcool ou antiepiléticos) e processos inflamatórios. O tratamento é individualizado perante a causa.

A Doença de Parkinson e outras condições semelhantes podem também provocar alteração do equilíbrio, sendo um motivo frequente de instabilidade postural com quedas recorrentes associadas a outros sinais neurológicos, como lentificação da marcha, rigidez, tremor e postura encurvada. O tratamento do parkinsonismo pode passar por remover medicações que induzem este problema ou por terapêutica específica.

O desequilíbrio crónico também pode estar relacionado com o nervo periférico, que é responsável pela sensibilidade à dor, temperatura e noção de posição de determinada parte do corpo no espaço. A Diabetes Mellitus e o abuso crónico de álcool são doenças frequentes que atingem os nervos e podem manifestar-se com sensação de formigueiro e/ou dor nas extremidades, com agravamento do desequilíbrio no escuro. O manejo da neuropatia (doença do nervo) pode passar pela correção de fatores de risco vascular, como o bom controlo da Diabetes e cessação alcoólica para evitar a progressão das queixas.

Dentro das causas de vertigem recorrente, a enxaqueca vestibular corresponde a episódios de dor de cabeça pulsátil, com sensibilidade ao som e/ou luz, náuseas e/ou vómitos, intensidade moderada a grave, acompanhada temporalmente de vertigem. O tratamento pode passar por medidas higieno-dietéticas e medicamentos que atuam nos dois sintomas.

Nestes casos, é fundamental existir uma investigação neurológica detalhada através de um exame clínico minucioso e de exames complementares de diagnóstico. Diferenciar causas de vertigem e desequilíbrio do ouvido ou do sistema nervoso é essencial para guiar o tratamento e o prognóstico do doente.

Diretor regional das Comunidades sublinha imigração como “oportunidade estratégica” para o futuro dos Açores

José Andrade, diretor regional das Comunidades do governo dos Açores, afirmou que o crescimento da imigração no arquipélago “é bom para os Açores”, destacando o impacto dos cidadãos estrangeiros na evolução demográfica, económica e social da região

© ÍGOR LOPES

Em declarações ao Diário da Lagoa, durante o 4.º Fórum das Migrações, realizado entre 8 e 10 de abril nas ilhas do Corvo e das Flores, este responsável referiu que a realidade migratória açoriana tem vindo a crescer de forma consistente e já representa uma componente estrutural da sociedade regional.

“Temos, nos Açores, mais de oito mil cidadãos estrangeiros, provenientes de 97 países diferentes, que estão em todas as nove ilhas, em todos os 19 concelhos e em muitas das 155 freguesias”, afirmou José Andrade, que explicou também a distribuição das principais comunidades estrangeiras no arquipélago, sublinhando o peso de países como Brasil, Alemanha, Cabo Verde, Estados Unidos e Espanha. Segundo acrescentou, esta população representa já uma parcela relevante da sociedade açoriana, ainda que abaixo de outros territórios nacionais.

“Correspondem, já, a cerca de 3,5% da população dos Açores, menos do que os 7% da Madeira, muito menos do que os 15% do continente português”, declarou.

Para o governante, esta evolução deve ser encarada como “positiva e estratégica” para o futuro da região.
“De ano para ano, temos vindo a verificar um aumento significativo de imigrantes, e isso é bom para os Açores”, sublinhou José Andrade.

No plano demográfico, o diretor regional destacou o papel da imigração na compensação do envelhecimento populacional.

“É bom por causa da demografia, porque o saldo migratório é que tem ajudado a compensar o saldo natural negativo”, referiu.

No plano económico, Andrade salientou a importância da mão de obra estrangeira em setores essenciais.
“Graças aos imigrantes, nós temos capacidade de resposta em áreas crescentes, como a restauração, a hotelaria, a construção, e mesmo a agricultura e as pescas”, destacou.

Já na vertente cultural, considerou que a diversidade migratória representa um ganho para a identidade açoriana.

“É bom, também, por causa da cultura, porque a vinda dessa diversidade cultural acrescenta valor à sociedade açoriana”, afirmou.

José Andrade defendeu também uma visão mais aberta para o futuro da região.

“Queremos que seja cada vez mais cosmopolita, não apenas multicultural, mas até intercultural, e, portanto, isso é bom para todas as partes”, declarou, lembrando ainda a história migratória dos Açores como elemento de responsabilidade coletiva no presente.

“Sempre fomos um povo emigrante, e agora temos a obrigação também de bem acolher e de bem integrar na nossa terra”, sublinhou.
Entre as medidas em curso, destacou o protocolo entre o governo dos Açores e a AIMA – Agência para a Integração, Migrações e Asilo, operacionalizado através da RIAC.

“Está a ser possível, progressivamente, em todas as lojas da RIAC, e são 55 nos 19 concelhos”, explicou, acrescentando que este modelo permite maior proximidade e simplificação administrativa.

“A partir daqui qualquer cidadão emigrado, a partir da sua própria ilha, consegue resolver localmente o seu processo administrativo de regularização, sem ter necessidade de se deslocar a outra ilha ou até ao continente”, referiu.

Na sua perspetiva, este sistema coloca os Açores na linha da frente em matéria de apoio à integração.

“Isso faz dos Açores a região com a maior e a melhor resposta de proximidade no âmbito da regularização dos processos dos imigrantes que escolhem os Açores para desenvolverem aqui connosco o seu projeto de vida”, afirmou.

Sobre o 4.º Fórum das Migrações, considerou que a edição “não podia ser melhor”, destacando o crescimento da iniciativa desde 2023.

“Desta vez, quisemos assumir o exemplo máximo da descentralização regional”, disse este governante, que sublinhou também o simbolismo das ilhas anfitriãs.

“O conjunto dessas duas ilhas, que simbolicamente representam o extremo ocidental dos Açores, de Portugal e da Europa, personifica, por si só, o tema central deste 4.º Fórum das Migrações, que é contextualizar as migrações num quadro de ultraperiferia”, explicou.

Depois de passar pelas ilhas do Faial e do Pico (2023), da ilha de São Miguel (2024) e da ilha da Terceira (2025), o diretor regional defendeu a continuidade do Fórum das Migrações no futuro.

“Este Fórum das Migrações merece continuar, porventura, prosseguindo esse esforço de descentralização para as demais ilhas dos Açores”, referiu.

José Andrade salientou ainda a crescente relevância institucional do evento.

“Nós, de ano para ano, de fórum para fórum, temos sido cada vez mais ambiciosos, com entidades cada vez mais representativas, de âmbito regional e nacional”, afirmou, salientando a presença nesta 4.ª edição de “nomes de reconhecida competência e autoridade em matéria de migrações”, tais como “o presidente da AIMA, Pedro Portugal Gaspar, ou o chefe da missão em Portugal da Organização Internacional para as Migrações, Vasco Malta”.

Em tom de conclusão, deixou uma mensagem de envolvimento coletivo na integração dos imigrantes que vão viver para os Açores.

“Essa integração, para ser bem-sucedida, não pode ser apenas a responsabilidade do governo. Ela deve ser a responsabilidade da sociedade em geral e de cada cidadão em particular”, declarou.

“A causa é comum, que é o desenvolvimento dos Açores, quem quer que venha por bem será recebido de braços abertos e ficará para sempre no nosso coração”, concluiu José Andrade.